"Não durmo nem espero dormir./Nem na morte espero dormir."
Cito esses versos de Álvaro de Campos/Fernando Pessoa com frequência, um poeta que adoro, e um poema ("Insonia"), dos que mais me deslumbram na obra do escritor português. O poema que já conhecia e amava se tornou o tema de um espetáculo de balé encenado pelo Balé TCA, uma apresentação vigorosa, de não sei quantos anos atrás, e que até hoje me vêm à memória quando penso no poema. Cito muito esses versos porque tenho frequentemente problemas com sono, agitação durante a noite e cansaço durante o dia. Não é um troço saudável. Gosto da noite, de sair, de fazer atividades, de ver TV, de ficar com a patroa na sem vergonhice etc. Mas detesto não conseguir dormir. E sinto que isso me desequilibra. Nos dias que dumo bem, acordo melhor. Nos dias que durmo mal - muitos, muitos - acordo chateado, pilhado.
E o poema na íntegra:
"Insônia
Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.
Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!
Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!
Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.
Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!
Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...
Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!
Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.
Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!
Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.
Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo."
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sexta-feira, 29 de junho de 2012
terça-feira, 19 de junho de 2012
Melancolia e promessas de amor*
Outro dia, conectei o celular no Youtube e caí numa versão de “Essa
noite não”, sucesso de Lobão de 1989. De bobeira, fui seguindo a trilha
de canções dessa época, um caminho de nostalgia sem volta, uma espécie
de ticket gratuito de viagem no tempo.
O que foi a música dos anos 80? Para mim, um garoto nascido em 1975, foi bastante coisa. Quando tinha entre 5 e 17 anos, descobri o ouro e entrei numa febre de coisas como Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Engenheiros do Havaí, Titãs, Cazuza e Raul Seixas.
O rock nacional era a trilha sonora da minha vida tanto quanto as canções das novelas da época e dos filmes de Hollywood.
A minha turma colecionava os discos das bandas (em vinil, claro), decorava as letras do encarte, guardava os recortes das revistas e íamos atrás dos discos mais antigos que gravávamos em fitas cassetes.
Nós queríamos aproveitar a onda, montar uma banda e fazer muito sucesso (e com isso conquistar todas as menininhas, óbvio).
Desde novo, eu também ouvia os medalhões da MPB porque era o que meus irmãos ouviam o tempo todo em casa. Era o período em que estávamos numa transição, saindo da Ditadura Militar, período de redemocratização do país.
Com tanta informação circulando – e foi nesse período que começou meu gosto pelos livros – a TV também fazia a minha cabeça.
A TV, o rádio (e as revistas em quadrinho) foram componentes importantes da minha formação. Ver as coisas na TV, ouvir o som (nas alturas) na vitrola de casa e sair correndo para compartilhar impressões com os amigos era uma rotina irresistível.
Voltar àquele período, ainda que seja pela via momentânea das canções, deve servir para alguma coisa – nem que seja para matar o tempo de uma forma divertida.
_____________
* “Melancolia e promessas de amor” é um verso da canção “Anos 80”, de Raul Seixas, do disco “Abre-te Sésamo”.
O que foi a música dos anos 80? Para mim, um garoto nascido em 1975, foi bastante coisa. Quando tinha entre 5 e 17 anos, descobri o ouro e entrei numa febre de coisas como Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Engenheiros do Havaí, Titãs, Cazuza e Raul Seixas.
O rock nacional era a trilha sonora da minha vida tanto quanto as canções das novelas da época e dos filmes de Hollywood.
A minha turma colecionava os discos das bandas (em vinil, claro), decorava as letras do encarte, guardava os recortes das revistas e íamos atrás dos discos mais antigos que gravávamos em fitas cassetes.
Nós queríamos aproveitar a onda, montar uma banda e fazer muito sucesso (e com isso conquistar todas as menininhas, óbvio).
Desde novo, eu também ouvia os medalhões da MPB porque era o que meus irmãos ouviam o tempo todo em casa. Era o período em que estávamos numa transição, saindo da Ditadura Militar, período de redemocratização do país.
Com tanta informação circulando – e foi nesse período que começou meu gosto pelos livros – a TV também fazia a minha cabeça.
A TV, o rádio (e as revistas em quadrinho) foram componentes importantes da minha formação. Ver as coisas na TV, ouvir o som (nas alturas) na vitrola de casa e sair correndo para compartilhar impressões com os amigos era uma rotina irresistível.
Voltar àquele período, ainda que seja pela via momentânea das canções, deve servir para alguma coisa – nem que seja para matar o tempo de uma forma divertida.
_____________
* “Melancolia e promessas de amor” é um verso da canção “Anos 80”, de Raul Seixas, do disco “Abre-te Sésamo”.
quarta-feira, 6 de junho de 2012
Aplauso
Sou um admirador de Ruy Castro desde que li "O anjo pornográfico", a sua estupenda biografia de Nelson Rodrigues. Ontem, em sua coluna no rádio (tão imperdível quanto sua coluna na Folha de São Paulo), ele fez um comentário com o qual concordo plenamente. Criticou a mania miserável que as pessoas tem hoje em dia de ir a espetaculos, seja músical, seja teatral, seja qual for, e ao final aplaudir de pé efusivamente. Tornou-se uma rotina. O espetaculo pode ter sido - e geralmente é - uma porcaria de marca maior, mas o auditório levanta e aplaude como se tivesse acabado de ver uma magnífica e exclusiva apresentação da maior grandeza. Eu sempre me incomodei com isso. E sou daqueles que fica sentado em minha cadeira, às vezes sem aplaudir se o espetáculo não merece, ou então aplaudindo na medida do entusiasmo que a apresentação me causou. E só. Aplaudir de pé deveria ser uma reverência guardada aos espectáculos realmente arrebatadores. Banalizar esse ritual é um sintoma da banalização geral que temos visto em relação às coisas. Não é esnobismo, é ter o mínimo critério com as coisas. Se a gente aplaude de pé qualquer espetáculo meia boca, o que fazer diante de uma apresentação realmente grandiosa?
segunda-feira, 5 de março de 2012
A parte relativa à campanha das "Diretas Já" é a mais animadora do livro de Ricardo Kotscho até aqui. Estou na metade da leitura e já passamos pelo AI-5 (de raspão), por um período de repressão durante a ditadura militar, pela sua fase de correspondente internacional, pela seu contato com personalidades, suas inúmeras matérias que ganharam repercussão nacional. O livro é irregular. Kotscho foi repórter a vida inteira até se tornar assessor de Lula. É essa trajetória que ele conta ("do golpe ao Planalto"), ressaltando o que viu e viveu como repórter em veículos como Estadão, Jornal do Brasil, Jornal da República e Folha de São Paulo. Há varias passagens interessantes e diversos casos envolvendo nomes conhecidos da imprensa de quem ele foi colega. Gosto de algumas coisas, outras nem tanto. Voltarei ao assunto.
Entrei naquela curva de tempo, em que tudo é motivo para que eu reflita. A reflexão maior, e sem resposta até aqui, é onde vou parar. Isso é engraçado porque há uns 10 ou 15 anos parecia que essa era uma questão insignificante. Nunca foi, eu é que não dei a importância que ela merece, sejamos francos. Em geral, vamos vivendo a vida cada dia como se cada um desses dias não fossem pedaços de um desenho que no fim diz quem eu sou. Cada dia, cada pedaço, tem importância no todo. Estou nesse processo de acordar às vezes à noite e ficar pensando no futuro. Tive um consolo na última semana quando meu amigo Franklin me disse que está num processo semelhante, só que mais pesado e há mais tempo (e ele também acorda mais vezes à noite). Era para eu ficar aterrorizado. Putz, serei eu daqui há um tempo! Mas não foi o que aconteceu. Me senti melhor, talvez por ter com quem conversar sobre o assunto, com gente que entende bem o que estou passando. Reflexão é um negócio saudável, bem-vindo. O problema é o passo imediatamente seguinte: transformar o resultado das reflexões em decisões que vão mudar completamente minha vida.
E isso precisa da ajuda de um bom vinho...
E isso precisa da ajuda de um bom vinho...
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Coisas
Fizeram muita coisa boa no Carnaval. Falo de canções, as marchinhas maravilhosas, que ainda hoje são atraentes e atuais nessa época do ano. Claro que ajuda o fato de o time de compositores das marchinhas mais longevas ser muito bom (gente como Adoniran Barbosa, Mário Lago, Lamartine Babo, Zé Keti, Noel Rosa etc). Estive pesquisando para a trilha sonora de um encontro em casa com a família e revivi coisas deliciosas.
*
Ainda bem que existem as séries para me salvar as noites, porque é muito ruim a novela do Aguinaldo Silva. Em geral, sua falta de senso de ridículo é terrível. Pior, é ele fazendo propaganda dele mesmo como se sempre entregasse uma obra irretocável. Não me incomodo com gente que se acha, tudo bem, é uma maneira de afirmação e auto-estima. Mas é preciso ser realmente muito bom para posar de muito bom, senão fica feio demais. Não dá para achar que é o maior de todos os tempos se não tem condições para isso. Tem que ser pelo menos um Dias Gomes para se achar Dias Gomes. Há acertos nessa novela como em outras, sempre há o que se salve (como a boa construção de Marcelo Serrado; e mesmo no chatíssimo texto e contexto do politicamente correto, Lilian Cabral não consegue entregar um personagem ruim há muito tempo; ela continua ótima). Mas o inverrossímel e o esforço para tratar o espectador como imbecil nessa novela é de doer.
*
Pelo que li sobre o assunto, parece que Rita Lee exagerou na reação aos policiais de Aracaju. Em geral, quando há conflito com a polícia, minha tendência natural é desconfiar dos fardados. Mas, pelo que se demonstra até agora, os policiais não fizeram nada demais, pelo menos nada que justificasse que fossem chamados de "cachorros", "filhos da p..." etc. Apesar disso, fiquei com pena de Rita. Gosto muito dela. Irreverência e atitude não é algo que se vê por aí todo dia...
*
Assisti com atraso monumental à quarta temporada de True Blood. Tanto que já está no ar o teaser da próxima temporada. O que sei é que vi muita gente falar mal na internet. Minha amiga Juliana largou no meio e torceu o nariz. Eu gostei. Há momentos e momentos, altos e baixos, uma ou outra coisa mais chata. No geral, é o mesmo programa de sempre (sexy, irônico, politicamente incorreto, até bobo), um bom passatempo mesmo com os excessos e tudo mais. E o episódio final foi especialmente inspirado e cheio de promessas de que coisas muito boas podem estar por vir. Se não for só promessa...
*
Estou observando com animação e espectativa o movimento "Desocupa, João".
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
Lado b
"Coisas sagradas permanecem/ nem o demo as pode abalar..."
Tenho um "Lado b", é o meu "recanto escuro" (para fazer referência ao delicioso disco de Gal a que pertence a citação acima). Gosto desse meu lado mais sombrio e também autêntico, popular e totalmente desencaixado dos hábitos dos meus amigos. Esses dias mesmo, chutei o balde e fui sozinho encher a cara, ouvir uma trilha de seresta, arrocha, funk e não sei o que mais em um desses botecos e outras casas da vida em estilo "pé sujo". Depois, passada uma semana, repeti a dose. A minha mulher ficou p... da vida na primeira vez. Na segunda, já aceitou melhor. Ela sabe que uma vez ou outra eu me entrego a esses prazeres mundanos. Há anos sou assim, ela é testemunha. É o meu lado b que às vezes fala mais alto. Por muitos anos, meu parceirão desses programas era meu amigo Sérgio. Ele era um especialista em tudo que diz respeito a esse meu lado b. Ele me ensinou quase tudo de bom que eu sei nesse terreno.
Tenho um "Lado b", é o meu "recanto escuro" (para fazer referência ao delicioso disco de Gal a que pertence a citação acima). Gosto desse meu lado mais sombrio e também autêntico, popular e totalmente desencaixado dos hábitos dos meus amigos. Esses dias mesmo, chutei o balde e fui sozinho encher a cara, ouvir uma trilha de seresta, arrocha, funk e não sei o que mais em um desses botecos e outras casas da vida em estilo "pé sujo". Depois, passada uma semana, repeti a dose. A minha mulher ficou p... da vida na primeira vez. Na segunda, já aceitou melhor. Ela sabe que uma vez ou outra eu me entrego a esses prazeres mundanos. Há anos sou assim, ela é testemunha. É o meu lado b que às vezes fala mais alto. Por muitos anos, meu parceirão desses programas era meu amigo Sérgio. Ele era um especialista em tudo que diz respeito a esse meu lado b. Ele me ensinou quase tudo de bom que eu sei nesse terreno.
"Sou um liberal ou libertário moral, alguém que não acha que o progresso seja a fonte dos males, alguém que acredita que nossa inclinação pelo conhecido não pode jamais apagar nossa atração pela aventura. O conhecimento não é 'virtude', no sentido de que não redime ninguém. Mas anima, dá prazer - e principalmente alternativa aos desprazeres. Não vejo valor inerente à ignorância. Vejo valor em não crer que haja sabedoria plena." (Daniel Piza)
Sempre li e acompanhei com interesse as coisas que o jornalista Daniel Piza escrevia no Estadão. Fiquei surpreso e triste com a sua morte.
Sempre li e acompanhei com interesse as coisas que o jornalista Daniel Piza escrevia no Estadão. Fiquei surpreso e triste com a sua morte.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
Daí eu ouço Gal Costa cantando "Baby", acompanhada
por Caetano Veloso ao violão. E me vem à cabeça uma vida inteira que tive antes,
em outra época, quando muito ouvia essas coisas, acompanhava os movimentos,
sabia quem lançava discos. Ia fazendo minha vida com essa trilha sonora de
música popular brasileira. Com os amigos, na rua, ouvia o rock brasileiro que
ainda ecoava forte no final dos anos 80 e em todos os anos 90. Mas dentro de
casa, a tilha era de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal e
Bethânia, Dorival Caymmi, João Gilberto, Tom Jobim, entre outros medalhões. Foi
o início de adolescência. Não poderia haver trilha melhor, seja a de dentro de
casa ou a das ruas. Outro dia Adriana Calcanhoto falava que há uma música
brasileira correspondente a cada situação que a gente vive. É possível ilustrar
qualquer situação com uma música do nosso cancioneiro. Ela está certa, tem tudo
a ver. Tenho essa mania de pensar numa música para cada situação passada,
presente ou futura na minha vida. A canção sempre teve um papel importante pra
mim. Lembro que quando conquistei a minha primeira namorada; na época escrevia
poesia, e fiz então uns dez poemas para serem gravados por ela sob o som do
piano de Johannes Brahms. Ficou uma coiisa linda. Até hoje lembro de alguns
trechos e me arrepio de lembrar. Música é um troço importante demais.
Música
Agora com o carro, tenho ouvido muito mais música. É uma dívida comigo mesmo que passo a quitar. Comecei ouvindo as coisas que tenho em casa e nos últimos dias comecei a correr atrás de outras coisas que já queria ouvir, explorar, há algum tempo. A primeira demanda reprimida foi por Ana Cañas. Depois que vi um clip seu na internet interpretando "O nosso amor a gente inventa", em pegada rock and roll, me amarrei. Fiquei com essa imagem na cabeça, fascinado. Consegui o segundo disco, "Hein?", com esse título saboroso e uma foto linda dela na capa. O disco é explosivo, já começa bem, com pegada, e segue muito bom até o fim. Depois de ouvir umas trezentas vezes, comecei a explorar outra cantora que despertava minha curiosidade: Amy Winehouse. Aquela voz bonita, potente, em clima doloroso, sempre me chamava a atenção. Achei por bem esperar baixar a poeira em torno dela pra começar a ouvir com calma. É maravilhosa. Não posso, não consigo ouvir outra coisa, desde que coloquei o disco pra tocar.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
Negalora
É curioso. Há um certo prazer em falar mal de gente conhecida, personagens célebres. As militâncias, mais do que todos, adoram atacar quem está em evidência. Vi no Facebook e no twitter reações ao personagem "Negalora", adotado por Cláudia Leitte por inspiração de Carlinhos Brown. Acho curioso que uma turma da militância negra gaste tanta energia para discutir "semioticamente" (pode rir) uma manifestação de uma artista popular. Caramba, e como se levam a sério! É uma audácia, um ataque à cultura negra, uma cantora que passou a vida tirando o sustento dessas manifestações mestiças - e o Carnaval é a maior dessas manifestações - que agora venha a se dizer "nega", cite a influência da babá e ainda queira homenageiar a África. Um abuso completo. Essa grande discussão, porque não há outra mais importante para a militância no momento, é tremendamente útil e ajuda a reduzir as desigualdades sociais, a miséria, o racismo e tantos males que afetam a população negra, mestiça etc.
Eu acho tudo muito curioso.
Eu acho tudo muito curioso.
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Natal
"Natal... Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
'Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei...!"
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei...!"
É um texto triste e melancólico, eu sei. Mas sempre lembro desse poema de Fernando Pessoa, especialmente os primeiros versos, quando o Natal está próximo. Não sei que conexão essas palavras encontram com a minha vida, em que momento se deu essa conexão, mas está lá. E uma coisa e outra me levam à infância, que é o terreno onde o Natal parece sempre ter sido perfeito. Mesmo para um garoto que teve a infância pobre como eu, o Natal sempre foi mágico. Mesmo que mal pudesse ganhar dos pais um carrinho de bombeiro ou uma roupa nova. Em oposição ao sentimento nos versos de Pessoa, toda a lembrança que eu tenho da infância nessa época do ano é um negócio bom, iluminado, para cima. A religião explica em parte, mesmo sabendo que minha família nunca foi religiosa ao extremo. Mas é uma influência óbvia a mistura de celebração religiosa e profana nessa época.
Mas o meu entusiasmo com o Natal pode ser explicado, por exemplo, pelo fato de que eu criança tinha um exército de outras crianças como eu para brincar e bricávamos muito, o dia inteiro, em ruas que não ofereciam o perigo que hoje oferecem. Pelo menos nós e nossos pais tínhamos essa ilusão. Então, no final do ano, verão na cidade, férias da escola, era bom demais explorar mil e uma brincadeiras. No Natal era tudo melhor, porque a maioria de nós estava com brinquedos novos e era o momento de maior movimento. Quem não tinha brinquedo novo, usava a criatividade, improvisava, se unia a quem tinha e por aí vai. Toda a ciançada da vizinhaça se unia, era uma agitação sem fim.
Um pouco maior, com um pouco mais de idade, as coisas eram ainda mais saborosas. Éramos crianças maiores, fazíamos festa, saíamos em grupo, ouvíamos música, vivíamos loucos atrás das menininhas que viviam loucas atrás da gente. Nesse início de vida adolescente, vivíamos mais o desejo do que a realização desse desejo. Poucos de nós conseguiam um beijinho de uma garota (e os poucos que chegavam lá tornavam-se heróis da turma). O Natal, como outras épocas festivas, era regado a muito refrigerante e só bem depois começamos a encher a cara de cerveja e bebidas mais fortes.
Nada que tenha vivido entre a infância e a adolescência se aproxima do clima de neve que caracteriza o Natal europeu e americano do norte. Porém, os filmes, desenhos e especiais de TV, em que éramos viciados, impregnavam nosso cérebro de imagens geladas e paisagens que não eram a nossa. Porém, tudo fazia parte de um imaginário e se atrelava à idéia do Natal. Por isso, mesmo em nossa quente temperatura e sem nenhuma relação com gelo, eu, como outras tantas crianças, nos acostumamos com essa cultura do Natal que não é nossa, mas passou a fazer parte como se nossa fosse.
Não me incomodo com isso. Há tantas coisas que tomamos como nosso e tem origens tão distantes. O mais bacana do processo todo é que na deglutição desses símbolos que nos chegam em algum momento, sempre entregamos algo de nós e devolvemos uma coisa diferente do original. Nunca acreditei em dominação cultural da forma como alguns querem interpretar. Acredito muito em fusão, em troca. E acredito que uma tradição de centenas de anos, que é aceita, cultuada e repetida, não pode ser reduzida à imposição do mais forte ao mais fraco simplesmente. Sempre achei esses processos mais complicados, maiores que as explicações rasteiras que costumamos ouvir por aí.
Gosto do Natal, gosto da parte religiosa da coisa e também da farra. E não vejo nenhum problema em o comércio lucrar nessa época.
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Trânsito
Atualmente, nessa minha vida de condutor, tenho observado coisas. Por exemplo, Salvador é muito ruim em matéria de sinalização de trânsito. A cidade é ruim em muitas coisas, em sinalização é péssima. Nos bairros mais nobres há alguma coisa parecida com sinalização horizontal e vertical, porém quando vamos mais para a periferia, é o inferno. Sem falar no crime de haver tantos e tão variados buracos ao longo do asfalto (que se multiplicam quando chove), ondulações inexplicáveis na pista, lombadas a torto e a direito, sem nenhum critério. Ser motorista numa cidade entregue à própria sorte como essa é um negócio absurdo. O que eu acho curioso é que tomamos conhecimento de motoristas punidos por infrações de trânsito - em quantidade infinitamente menor do que o que se pratica. Mas o que intriga mesmo é que, no entanto, nunca se ouve falar de um gestor público que tenha sido penalizado por estupenda ausência de gestão em matéria de trânsito.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Sem tempo
Várias coisas acontecendo ao mesmo tempo.
No trabalho, a situação está punk. A minha vida pessoal também não está dando nenhum refresco. O momento é crítico.
O fato é que já estou há um bom tempo sem ver um filmezinho seguer; nada no cinema, nada em DVD. É uma doidera isso, porque sinto uma falta estúpida. E quanto mais vejo, de passagem, notícia sobre filmes que quero ver, mas fico agoniado.
No trabalho, a situação está punk. A minha vida pessoal também não está dando nenhum refresco. O momento é crítico.
O fato é que já estou há um bom tempo sem ver um filmezinho seguer; nada no cinema, nada em DVD. É uma doidera isso, porque sinto uma falta estúpida. E quanto mais vejo, de passagem, notícia sobre filmes que quero ver, mas fico agoniado.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Dirigindo
O Departamento de Trânsito da Bahia diz que eu posso dirigir um veículo.
Estou "apto" do ponto de vista psicológico, clínico, teórico e, por fim, também do ponto de vista prático.
Não sei bem. Queira muito passar por todas essas etapas, me dediquei para isso.
Mas não sinto que sou um motorista "de cima a baixo", como diz minha mãe.
Os amigos consolam: segurança mesmo a gente só sente depois, com o tempo.
Não nego que eu curti muito todo o ritual, mas também sofri muito: fiquei ansioso muitas vezes, me achei burro, tive apagões (de simplesmente não saber o que fazer em alguns momentos), cometi um milhão de erros.
Perto da prova prática, fiquei uma noite inteira sem dormir.
Felizmente, acabou toda essa parte e começam outras coisas na minha vida.
Estou "apto" do ponto de vista psicológico, clínico, teórico e, por fim, também do ponto de vista prático.
Não sei bem. Queira muito passar por todas essas etapas, me dediquei para isso.
Mas não sinto que sou um motorista "de cima a baixo", como diz minha mãe.
Os amigos consolam: segurança mesmo a gente só sente depois, com o tempo.
Não nego que eu curti muito todo o ritual, mas também sofri muito: fiquei ansioso muitas vezes, me achei burro, tive apagões (de simplesmente não saber o que fazer em alguns momentos), cometi um milhão de erros.
Perto da prova prática, fiquei uma noite inteira sem dormir.
Felizmente, acabou toda essa parte e começam outras coisas na minha vida.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
"Não durmo, nem espero dormir./Nem na morte espero dormir."
Sempre lembro desses versos do incrível poema "Insônia", de Fernando Pessoa.
Lembro quando fico insone ou quando tenho sonhos estranhos e acordo esquisito. Duas coisas que me acontecem com frequência.
E foi o que aconteceu ontem: noite agitada, sonho confuso em que apereceu um personagem de temperamento delicado que não vejo há mais de dez anos - a minha primeira chefe.
Minha filha pequena fez mil recomendações ontem que precisava chegar na escola cedo para ensaiar.
Ela participa hoje de uma maratona de dança e só falava nisso.
Acordei em cima do horário e tive que correr para não ficar mal com a pequena.
Tudo culpa do sonho esquisito. E do despertador que não fez sua parte.
Tem uma frase que algumas pessoas gostam de usar quando alguém se queixa de cansaço: "quando morrer, descansa".
Mas eu tenho a sensação que me transmite o poema de Pessoa - "Nem na morte espero dormir".
Sempre lembro desses versos do incrível poema "Insônia", de Fernando Pessoa.
Lembro quando fico insone ou quando tenho sonhos estranhos e acordo esquisito. Duas coisas que me acontecem com frequência.
E foi o que aconteceu ontem: noite agitada, sonho confuso em que apereceu um personagem de temperamento delicado que não vejo há mais de dez anos - a minha primeira chefe.
Minha filha pequena fez mil recomendações ontem que precisava chegar na escola cedo para ensaiar.
Ela participa hoje de uma maratona de dança e só falava nisso.
Acordei em cima do horário e tive que correr para não ficar mal com a pequena.
Tudo culpa do sonho esquisito. E do despertador que não fez sua parte.
Tem uma frase que algumas pessoas gostam de usar quando alguém se queixa de cansaço: "quando morrer, descansa".
Mas eu tenho a sensação que me transmite o poema de Pessoa - "Nem na morte espero dormir".
quinta-feira, 23 de junho de 2011
São João
São João, bombas e canções típicas lá fora.
Aproveito o feriado e o intervalo entre doses de licor para ver alguns filmes.
É o que melhor faço desse feriadão bem-vindo.
Entre uma mordiscada na patroa, outra no bolo de aimpim, vão passando filmes atrasados, algumas obras que não vi em tempo no cinema.
Junto com meu livro de cabeceira atual, não sei de diversão melhor.
Aproveito o feriado e o intervalo entre doses de licor para ver alguns filmes.
É o que melhor faço desse feriadão bem-vindo.
Entre uma mordiscada na patroa, outra no bolo de aimpim, vão passando filmes atrasados, algumas obras que não vi em tempo no cinema.
Junto com meu livro de cabeceira atual, não sei de diversão melhor.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Janela
Hederverton está certo.
No outro blog, eu escrevia muito mais sobre assuntos pessoais.
Não que não seja bacana registrar observações sobre livros, filmes e cozinha (este vem minguando, é vero).
Mas falar sobre si, os amigos, a família, o mundo, dá uma sensação mais pessoal e acolhedora e deve agradar mais o leitor.
O problema é que esses meus blogs tem um antes e depois.
Depois que o comunista do Fraklin disse que eu "só falo de vinhos, filmes e mulheres" e esqueço os buracos da minha rua, passei a ser mais seletivo do que posto aqui.
Não me chateio com ele. É um amigo fiel.
Mas repensei essa coisa de sair comentando tudo.
É meio bobo isso.
O fato é que não vou falar muito mais aqui sobre outros assuntos.
Porém, não vejo mal em de vez em quando abrir uma janela.
No outro blog, eu escrevia muito mais sobre assuntos pessoais.
Não que não seja bacana registrar observações sobre livros, filmes e cozinha (este vem minguando, é vero).
Mas falar sobre si, os amigos, a família, o mundo, dá uma sensação mais pessoal e acolhedora e deve agradar mais o leitor.
O problema é que esses meus blogs tem um antes e depois.
Depois que o comunista do Fraklin disse que eu "só falo de vinhos, filmes e mulheres" e esqueço os buracos da minha rua, passei a ser mais seletivo do que posto aqui.
Não me chateio com ele. É um amigo fiel.
Mas repensei essa coisa de sair comentando tudo.
É meio bobo isso.
O fato é que não vou falar muito mais aqui sobre outros assuntos.
Porém, não vejo mal em de vez em quando abrir uma janela.
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Trinta e seis
Faço 36 anos domingo. Caramba, são 36 anos! Minha querida amiga Najara, que faz 35 um dia antes, me diz essa coisa que mal percebemos e o tempo avança. Ouvir isso (e viver isso) é forte. Muito mais que ler em mensagens clichês que nos chegam por email. Quando ainda não tinha 15 anos, sonhava chegar aos 30. Queria ser homem rápido. Achava que ali estava uma idade intermediária e perfeita. Trinta! Não garotão demais, nem velho, menos ainda "coroa". Longe disso. Acreditava que os 30 anos me daria o vigor da juventude e a experiência num mesmo pacote. Um rapagão, cara de homem, contas a pagar, responsabilidades do mundo adulto, mulheres... Os trinta chegaram e estão voando. Hoje já estou mais perto dos quarenta. Que medo! Não, não é medo. É vontade de acontecer, tipo saber que estou aproveitando bem o tempo que tenho sobre a terra (pois é, me ocorre agora essa frase "Ninguém mais verá Osama Bin Laden andando sobre a terra", palavras do presidente americano se referindo ao famoso terrorista abatido). Quero aproveitar o tempo que tenho. E isso significa viver melhor, ter mais momentos com minha filhinha, com minha mulher, com meus pais e com meus amigos. Tenho trabalhado - não é de hoje - para viver bem com Eloá. Porque, parceiro, não é fácil aturar uma mulher. Como não é fácil aturar uma filha. Aliás a convivência é um troço difícil sempre. Sei de filhos que odeiam os pais, com razão. Eu mesmo já odiei meus pais um milhão de vezes no passado (os dinossauros ainda andavam sobre a terra). Já odiei minha filha não poucas vezes (só ontem, foram duas). E canso de odiar Eloá (e me divirto fazendo ela me odiar). Mas no fim, não consigo viver sem nenhum deles. O amor é muito maior que as pedras no sapato. Essa convivência (muitas vezes forçada) tem seus momentos de inferno, mas no balanço final é o que nos ajuda a seguir. Trinta e seis anos. Claro que ainda sou um garoto (aquele, chegando nos 15), não consigo pensar diferente. Eu me sinto acumulando personagens dentro de mim. Aqui dentro estão todas as pessoas que fui. Vamos nos intercalando, todos opinam sobre tudo, uma bagunça. A palavra final é sempre do mais velho, claro. Questão de hierarquia. Estou agora terminando o meu turno e dando lugar a mais um que está chegando. Domingo, um novo comando assume o posto. Daí me junto aos outros eus. De minha parte, estarei aqui opinando e tentando me fazer respeitar. Porém, evidentemente, o 36 é que será o cara. E eu aceito isso. Como diria Shakespeare, a fila anda...Deixo as palavras finais deste post para o poeta Carlos Drummond, que tem esses versos bonitos sobre o tempo que passa:
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.”
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