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segunda-feira, 16 de abril de 2012

A pele que habito

Falei para Eloá que não sabia se recomendaria "A pele que habito" pra ela. Geralmente, quero que ela veja tudo que eu vejo e gosto. É que eu tinha acabado de ver o filme e estava em uma pequena crise. Gostei - putz, é pouco, fiquei enlouquecido -, mas sei que é um filme estranho e, talvez, difícil para almas sensíveis. De qualquer forma, é uma experiência e tanto. O filme apresenta uma situação - mulher vive enclausurada e se submete a um transplante de pele por um médico esquisito (soturno, pra dizer o mínimo). Por que ela se submete? Quem é ela? Putz, o filme nos apresenta essa linda mulher, depois somos supreendidos por uma cena extremamente violenta para em seguida ela e o médico caírem nos braços um do outro. É nesse ponto - e até aí tudo é muito sem explicação, meio embaralhado - é aqui que a trama volta seis anos e começa de fato o filme. A partir desse flashback começamos a ter as explicações sobre os acontecimentos do tempo presente. Almodóvar dá um nó na cabeça do espectador, meio que obriga a rever o início do seu filme, porque tudo ali é muito diferente do que imaginamos. É um trabalho muito lindo em sua realização. Mas não se engane, não é uma história de amor, como também não é uma história com final feliz. É um suspense intrincado, intenso, sem concessões, com algo a dizer. E, o melhor de tudo, como é bom!

segunda-feira, 5 de março de 2012

Drive

"Drive", do diretor dinamarquês Nicolas Winding Refn, é um bom filme de ação e suspense. Tem aquele ar retrô, parece filme velho, a ponto de minha esposa perguntar de que ano era o filme. Eu disse que era recente, de 2011, ela fez cara de dúvida. Mas essa ambientação ajuda o filme, que é silencioso, tem uma trilha muito boa e muita tensão. O Ryan Gosling é o astro, seu personagem é um desses caras que fazem miséria com um carro na mão. Ele trabalha como dublê em cenas perigosas envolvendo veículos e também numa oficina (seu chefe é o Bryan Cranston, de Braking Bad). À noite, ele arruma tempo para dirigir em assaltos. Seu passado é um mistério, o que ajuda no clima de suspense. Não sabemos exatamente o que esperar do seu personagem quando as coisas se complicam. E as coisas ficam muito complicadas quando ele resolve fazer mais um "serviço". Sua intenção aqui é ajudar uma garota (Carey Mulligan), cujo marido está em dívida com criminosos. Para pagar a dívida, os bandidos querem que o tal marido execute um roubo. O personagem de Gosling vai ajudar, mas não sabe que é uma armadilha, daquelas situações em que nada sai como previsto. Estamos então na metade final e o filme se torna mais e mais violento. Não gostei tanto das cenas de sangue, que são bem feias. Mas gosto muito do jeito instrospectivo e quieto do personagem de Gosling. Sua relação com a garota por quem desenvolve um vínculo afetivo é bem trabalhada no início e se degrada com os acontecimentos. De qualquer forma é um filme não tão convencional e com várias cenas inspiradas.

*

E o que dizer do novo "Anjos da noite"? Apenas que é bom ver a Selene, personagem da estonteante Kate Beckinsale, socando os lycans maus. Cada vez gosto menos de filmes de efeitos e etc. Mas como resistir ao charme de Beckinsale? Sem ela, quebra-se as duas pernas da produção. A não ser que se arrume uma Rhona Mitra. Mas aí é outra história...

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Não acabe o blog

Depois de tantos anos (o primeiro post no primeiro blog foi em  2005), fiquei pensando seriamente em encerrar esse trabalho.

Tá bom, não é exatamente trabalho. Mas é uma atividade que faço com cuidado, não é um lugar onde despejo mágoas, experiências e pensamentos de qualquer maneira. Queria até fazer mais isso, porém não faço (uma vez escrevi um longo post enquanto estava bêbado, ou quase isso; só para no dia seguinte fazer o favor à humanidade de deletar a baboseira).

Este é um espaço onde eu tento não perder o contato com a escrita. E onde eu registro algumas coisas que me acontecem.

Há uns anos, antes do blog, eu escrevia desvairadamene, com freqüência, contos e poemas. Queria ser o novo Machado, Eça, Neruda ou Pessoa. Imaginava o dia em que estaria com um livro pronto para publicação. Desejei isso e achei que caminhava infalivelmente para esse fim. Não foi o que aconteceu.

Nos últimos dez anos, fui me afastando da produção de textos de ficção. Escrevia apenas por dever profissional. E isso é muito frustrante para quem acha que precisa escrever, criar, que é uma pessoa melhor quando cria textos, inventa histórias e consegue expressar alguma coisa razoável demonstrando talento.

O blog foi uma solução interessante para continuar no jogo.

Nos últimos tempos, porém, fiquei pensando em encerrar tudo, chutar o balde. A verdade é que nunca me importei muito com o que as pessoas achariam, achavam ou deixavam de achar sobre o blog e as postagem.

Se me guiasse por esse termômetro, já teria fechado esse boteco há muito mais tempo. Sempre fiz para mim. Esse é um espaço de mim para mim. O mundo que se f... (ok, não é bem assim - é que às vezes é bom ser dramático).

O que sei é que sou meu principal alvo e público quando publico aqui. Tanto que nunca faço propaganda, não anuncio no facebook ou twitter, não aviso aos amigos. Nunca aviso a ninguém que tem um novo post.

Lembro que Chaplin dizia que fazia cada filme para ele mesmo e que se divertia muito com seus trabalhos, a preocupação com o público vinha em segundo lugar. Não sou nenhum Chaplin, mas acho que é bem por aí.

O fato é que, depois de tanto tempo, estava aborrecido com o blog. E pensei em parar por ali. Depois tive uma idéia melhor, deixar ele ao léu e quando desse na telha, de caju em caju, postaria alguma coisa.

Esses e outros pensamentos flutuavam em redor da minha cabeça. Afastei todos e retomo o blog normalmente.

A nota curiosa é que Eloá, depois de isso já não ser nenhum problema para mim, me disse ontem que eu não acabe o blog. Agradeço a ela por isso.

Mas ela chegou atrasada.

Tudo será como antes. E nada será como antes...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lado b

"Coisas sagradas permanecem/ nem o demo as pode abalar..."

Tenho um "Lado b", é o meu "recanto escuro" (para fazer referência ao delicioso disco de Gal a que pertence a citação acima). Gosto desse meu lado mais sombrio e também autêntico, popular e totalmente desencaixado dos hábitos dos meus amigos. Esses dias mesmo, chutei o balde e fui sozinho encher a cara, ouvir uma trilha de seresta, arrocha, funk e não sei o que mais em um desses botecos e outras casas da vida em estilo "pé sujo". Depois, passada uma semana, repeti a dose. A minha mulher ficou p... da vida na primeira vez. Na segunda, já aceitou melhor. Ela sabe que uma vez ou outra eu me entrego a esses prazeres mundanos. Há anos sou assim, ela é testemunha. É o meu lado b que às vezes fala mais alto. Por muitos anos, meu parceirão desses programas era meu amigo Sérgio. Ele era um especialista em tudo que diz respeito a esse meu lado b. Ele me ensinou quase tudo de bom que eu sei nesse terreno. 

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Meu tio matou um cara

Já tinha visto, mas resolvi rever "Meu tio matou um cara", filme bacana do Jorge Furtado, desta vez com minha filhinha de 9 anos. Eloá achou o filme "adiantado" pra ela, quer dizer, tratando de temas que deveriam ser apresentados a ela mais adiante (namoro, sexo etc). Eu me preocupo com os programas que ela vê e sei que nas novelas, mesmo as que são exibidas em horário de criança, tem referência a namoro, sexo, essas coisas que devemos ter cuidado em se tratando de crianças. Mas o filme de Jorge Furtado é tão simpático, e narrado da perspectiva de um garoto, que eu resolvi dar esse prazer à pequena e ficar monitorando. Mas nada que está mostrado é "pesado" ou inadequado a ponto de ser proibitivo pra ela. Até seus temas mais picantes (Déborah Seco seminua, por exemplo), eu os considerei pouco para inviabilizar o filme para a pequena. Até porque o principal é que é também uma história de detetive, com mistério em torno de um crime, suspeito de assassinato, mulher fatal, e uma dupla esperta de personagens centrais (feitos por Darlan Cunha e Sophia Reis), o herói e a mocinha. Tudo é muito leve, inteligente, e em situações bem aproveitadas pela história, que na verdade é até simples. Gosto de ver filme com a pequena, ela adora esses programas. E sempre tem depois uma conversa para falar sobre o que vimos, chamar a atenção para algum ponto e rir relembrando alguma passagem. Uma boa diversão.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Cozinha

Ficamos tentados a fazer alguma coisa gostosa na cozinha.
Tínhamos visto "Simplesmente Martha" no sábado e logo depois só pensávamos nisso, em cozinhar algo - uma massa que fosse.
A geladeira tinha comida pronta e também comemos fora de casa alguns dias. Mas a vontade era de preparar alguma coisa legal, diferente.
Minha vontade não se transformou em ação, faltou pernas e braços para me meter no mercado, depois na cozinha e fazer o serviço.
Mas Eloá estava resoluta. Me arrastou ao mercado e voltamos com os ingredientes de uma bela macarronada.
Para não dizer que fui um zero à esquerda durante todo o feriado, fiz uma sopinha de legumes, simples e honesta - e bem gostosinha.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O (não) acontecimento

Faz tempo que vi o show de Caetano Veloso e Maria Gadu aqui em Salvador. Não comentei à época. Agora leio uma entrevista dos dois por ocasião do lançamento do dvd resultante desses shows pelo país. Acompanho a trajetória de Caetano, discos, performances e polêmicas, há bastante tempo. Gosto muito dele, fui formado em boa medida com suas canções e de outros dessa geração de artistas. Maria Gadu, não desgosto (também não posso dizer que me empolga). Eloá é quem gosta muito, ouve, quer ir aos shows. Foi por isso inclusive que fomos ver os dois na Concha Acústica do TCA. Chegando no show, fiquei supreso com o meu desinteresse. Não que fosse ruim, não era. Mas eu pensava comigo que esse deveria ser um tipo de encontro incrível - uma jovem e promissora cantora e um medalhão ainda com muito gás. Não foi incrível, longe disso. Mesmo com muitas canções que marcaram uma época, de fato o que me despertou do meu torpor foram as leituras de "Trem das onze" e "Rapte-me, camaleoa".

Eu devo estar ficando velho.

Ou de fato foi mesmo insosso o que poderia ter sido um acontecimento.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Trinta e seis

Faço 36 anos domingo. Caramba, são 36 anos! Minha querida amiga Najara, que faz 35 um dia antes, me diz essa coisa que mal percebemos e o tempo avança. Ouvir isso (e viver isso) é forte. Muito mais que ler em mensagens clichês que nos chegam por email. Quando ainda não tinha 15 anos, sonhava chegar aos 30. Queria ser homem rápido. Achava que ali estava uma idade intermediária e perfeita. Trinta! Não garotão demais, nem velho, menos ainda "coroa". Longe disso. Acreditava que os 30 anos me daria o vigor da juventude e a experiência num mesmo pacote. Um rapagão, cara de homem, contas a pagar, responsabilidades do mundo adulto, mulheres... Os trinta chegaram e estão voando. Hoje já estou mais perto dos quarenta. Que medo! Não, não é medo. É vontade de acontecer, tipo saber que estou aproveitando bem o tempo que tenho sobre a terra (pois é, me ocorre agora essa frase "Ninguém mais verá Osama Bin Laden andando sobre a terra", palavras do presidente americano se referindo ao famoso terrorista abatido). Quero aproveitar o tempo que tenho. E isso significa viver melhor, ter mais momentos com minha filhinha, com minha mulher, com meus pais e com meus amigos. Tenho trabalhado - não é de hoje - para viver bem com Eloá. Porque, parceiro, não é fácil aturar uma mulher. Como não é fácil aturar uma filha. Aliás a convivência é um troço difícil sempre. Sei de filhos que odeiam os pais, com razão. Eu mesmo já odiei meus pais um milhão de vezes no passado (os dinossauros ainda andavam sobre a terra). Já odiei minha filha não poucas vezes (só ontem, foram duas). E canso de odiar Eloá (e me divirto fazendo ela me odiar). Mas no fim, não consigo viver sem nenhum deles. O amor é muito maior que as pedras no sapato. Essa convivência (muitas vezes forçada) tem seus momentos de inferno, mas no balanço final é o que nos ajuda a seguir. Trinta e seis anos. Claro que ainda sou um garoto (aquele, chegando nos 15), não consigo pensar diferente. Eu me sinto acumulando personagens dentro de mim. Aqui dentro estão todas as pessoas que fui. Vamos nos intercalando, todos opinam sobre tudo, uma bagunça. A palavra final é sempre do mais velho, claro. Questão de hierarquia. Estou agora terminando o meu turno e dando lugar a mais um que está chegando. Domingo, um novo comando assume o posto. Daí me junto aos outros eus. De minha parte, estarei aqui opinando e tentando me fazer respeitar. Porém, evidentemente, o 36 é que será o cara. E eu aceito isso. Como diria Shakespeare, a fila anda...

Deixo as palavras finais deste post para o poeta Carlos Drummond, que tem esses versos bonitos sobre o tempo que passa:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sampa

Tem gente que funciona de um determinado jeito. Eu preciso de pausas para funcionar bem. Admiro gente como Eloá ou os amigos Hederverton e Luciana que tem grande disposição e gostam do pique que tem. Falo isso para dizer que a deliciosa viagem que fizemos pra São Paulo foi maior que o tempo disponível para ela. Só assim para explicar tantas atividades em três dias. Vou demorar para digerir todas as coisas. A cidade de que ouvimos tanto falar, e que ajuda a dar a cara que o país tem, merece ser visitada. Vimos o que foi possível. E são mesmo muitas coisas. Com a cidade vazia do feriado, foi possível ver tudo com mais calma. Mas é um vazio dinâmico, porque há ainda muita gente nas ruas, nas cantinas, nos bares. Fiquei muito satisfeito. Sozinho, teria corrido menos, ido a menos lugares, e provavelmente teria sido mais feliz. Mas o tamanho da felicidade que tive já é suficiente para ter sido um passeio difícil de esquecer depois. Tenho que ficar grato aos amigos que tenho e à minha mulher. E a carinha de felicidade da minha filha (antes, durante e depois) valeu não ter a alma pequena.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Minha filha se esforçou para aprender algumas canções para uma apresentação de fim de ano na escola. Um tempo depois, estimulada com a idéia e numa brincadeira feita com Eloá, ela seguiu o embalo e aprendeu a cantar a longa canção "Sampa", de Caetano Veloso. O estímulo foi a viagem que faremos. É muito bonitinho ver a pequena entoando os versos complicados (para a idade dela) e se sair bem. Ela se esforça para não desafinar nem sair do ritmo. Outro dia quis saber dela quantas músicas ela conhecia que falavam de Salvador, uma cidade rica em canções em seu louvor. Tristeza. A pequena não sabia nenhuma. Tudo bem que a maioria dessas canções que louvam a cidade foram feitas antes mesmo do pai dela nascer, "Na Baixa do Sapateiro", "Saudades da Bahia", "São Salvador". O erro maior é meu, que não estou cumprindo bem meu papel de transmistir conhecimento útil e cultura. Outro dia, ela estava lendo uma versão infantil do livro "Os miseráveis" e perdi um tempo explicando quem era Napoleão Bonaparte. É preciso admitir que as coisas que envolvem Salvador são muito mais importantes que as peripécias do imperador francês, pra ficar num só exemplo. Depois disso, comecei a cantarolar canções sobre a cidade... Aos poucos vou cumprindo minha obrigação.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

São Paulo

Viajo a São Paulo com Eloá e a filha. Estou materializando um projeto de algum tempo. E faço o serviço completo. Vou com Hederverton, amigo, a quem sempre vinculei à cidade. Ele, baiano como eu, foi viver lá há uns bons anos. Discutimos explorar a cidade juntos algumas vezes, por um motivo ou outro não deu certo. Agora vamos. É a terra de Mário de Andrade, um dos primeiros poetas que me despertaram a vida. Sempre gostei muito de Mário. E ele é um cara interessado nas coisas do Brasil, como se sabe. Foi um dos destaques da Semana de Arte Moderna, um desses eventos de tamanho impacto que hoje não seria possível reproduzir. São outros tempos. São Paulo continua sendo o coração industrial do país, conduzindo mais que se deixando conduzir (como diz na bandeira). E atraindo ainda o interesse do país. Abaixo um desses poemas deliciosos de Mário de Andrade:

"Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

('Quando eu morrer quero ficar', Mário de Andrade)"

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Resenha

Minha esposa, que está com todo o gás no mestrado, me trouxe um texto sobre resenhas. Chama-se “A resenha: definições, tropeços e armadilhas”, de Cláudia Nina. Como fala sobre crítica de livros em suplementos de jornal, ela entendeu que eu ia me interessar. Entendeu certo. É um texto descomplicado, sem grandes pirotecnias (como se espera de uma autora acostumado a escrever para público amplo). Contudo, e para variar, fiquei cá conversando com meus botões da blusa. Por exemplo, Cláudia diz que é preciso ler "bem lido" o livro com que se vai trabalhar. Ok. Por outro lado, cita Roland Barthes para endossar seu argumento de que não precisa ler "palavra por palavra" de todas as obras que chegam à mão, depende da obra. Até concordo. Tem livros cuja leitura a gente acelera em umas partes e se demora mais em outras, pura necessidade de ir até onde o prazer está. Fiz isso e faço de vez em quando - lembro bem de "O Processo" de Kafka, que intercala momentos bem legais com passagens chatonildas. Mas não me entusiasmei muito quando o texto de Cláudia deixa de descrever o trabalho do resenhista e passa às dicas do bem escrever. Por exemplo, o conselho de evitar dar opiniões pessoais, o "eu isso", "eu aquilo". Isso é bem discutível. Alguns dos melhores textos que tenho lido ultimamente (alguns são traduções de texto de língua estrangeira) fazem exatamente isso, o autor se incluir na paisagem que está descrevendo. Parece-me um recurso forte para aproximar o texto do leitor e deixar assuntos, às vezes distantes, bem mais próximos de uma experiência que poderia ser nossa. Entendo que o distanciamento tem sua razão de ser. Porém acho legítimo, e até recomendável, conhecer a contribuição e opinião pessoal de quem escreve. Seguindo em frente, Cláudia dá uma lista do que fazer, do que não fazer. Sei da utilidade desses textos de "auto-ajuda", mas desconfio. Por que devo evitar adjetivos, por exemplo? Sempre leio coisas assim de quem quer me ensinar a escrever. Adoro Graciliano Ramos, que é citado 100 em 100 vezes como o evitador maior dos qualificativos. Mas até ele usa bastante (acredite), a questão é que os usa bem. Isso sim faz toda a diferença. O problema não é o adjetivo ou o verbo, é usar bem as palavras. Abusar de adjetivo (como de álcool ou de buchada de bode), obviamente, é prejuízo sempre. Mas essa campanha cega contra as coisas é uma chatice. Poderia falar mais coisas, mas esse meu texto já está longo. Volto outro dia, talvez.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Columbine

Revi "Tiros em Columbine", do Michael Moore. Depois da tragédia no Rio de Janeiro achei que Eloá iria se interessar. E, de fato, ela gostou do documentário, que tem seu méritos. (Já tinha visto outros filmes de Moore e definitivamente não gosto do seu cinema partidário e que parece torcer a realidade para confirmar uma tese. Claro que muita coisa que ele traz é informação importante e a discussão que provoca, idem. Mas o que é bom parece se perder entre as coisas propositadamente distorcidas. Um exemplo é o desenho dentro do filme que conta um resumo da história americana.) Gostei bem mais da versão de Ridley Scott para Robin Hood, com Russell Crowe e Cate Blanchett. Gostei do viés mais histórico com o conflito entre Inglaterra e França como pano de fundo e motor da trama. De Cate Blanchett gosto sempre.

Bacalhau

Bacalhau, não tem nada melhor no mundo. Eu queria fazer bolinhos fritos, porque da primeira vez que fiz deu muito certo (na verdade, na primeira vez deu tudo errado, mas na segunda vez saiu tudo bem). Estava com vontade, porém três dias seguidos de trabalho em um evento que me tomou boa parte do sábado inviabilizou o projeto. Fiquei o domingo com aquele bacalhau dessalgado me olhando, eu olhando pra ele. Havia desejo, um sentimento recíproco, mas não queria passar pela trabalheira que dá fazer os bolinhos. Fui de quase moqueca. Fiz um refogado com alho, cebola e salsinha no azeite de oliva. Esperei um tempo para completar com dois tomates picados (pedaços grandes para não sumir). Acrescentei o bacalhau em pedaços, temperado apenas com pimenta e limão. Deixei cozinhar, coisa rápida. Antes de desligar o fogo, despejei uma xícara de leite de coco, corrigi o sal e esperei mais uns minutos. De acompanhamento fiz arroz branco e um purê de batatas (as que seriam usadas nos bolinhos). Para mim, purê de batata (ou de abóbora, melhor ainda) precisa ser grosseiro - odeio purê batidinho. Abri um vinho branco, que completou o almoço de domingo. Almoço rápido, delicioso, e que Eloá repetiu na janta com toda a gula possível. Abençoado bacalhau. Quem sabe não volto aos bolinhos no próximo fim de semana?

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ela comeu meu coração

Era uma novela, até onde lembro, de muito sucesso. Eu era garoto, claro, mas já gostava de TV como gosto hoje. Na verdade, gostava ainda mais. Era fascinado. "A gata comeu" era o nome, e lembro bem da personagem da Christiane Torloni, super linda e sexy. Essas coisas são malucas, pode ser que eu assista hoje e não seja a mesma coisa, tenha aquela decepção que sempre acontece com coisas idealizadas. Ouvi a versão de Caetano da música tema (a música é dele, mas a versão na novela não era ele quem cantava). Na verdade, foram várias as canções que me fizeram regressar no tempo. Fomos os seis irmãos para uma aventura no sábado. Deveria ser uma feijoada que não deu certo. Fomos parar no mercado do peixe, um lugar incrível na cidade baixa, que eu não conhecia. Todos deveriam passar pelo mercado do peixe alguma vez. Parece o melhor lugar para comprar peixe, marisco, lagosta, essas coisas, tudo muito fresco, com excelente aparência e vendedores simpáticos, de bem com a vida. Almoçamos no restaurante da parte de cima, um programa muito bom mesmo. E a trilha sonora quando chegamos era a canção "Não, posso não, quero não, minha mulher não deixa não...". Gosto muito, mas não sei o nome, todo mundo conhece o refrão. De lá, fomos fazer e comer uma pizza na casa de um irmão. Ele tem muitos discos, mas é uma bagunça, precisa uma complexa operação para achar os CDs, nenhuma capa corresponde ao CD que está dentro. Prova de que não é fácil ter três crianças pequenas e uma adolescente no mesmo lar. Me apoderei do cargo de disc-jockey e consegui fazer uma seleção. Não tinha nenhuma dessas canções deliciosas de samba, pagode ou axé. Fazer o quê? Tive que me contentar em reproduzir Nando Reis, Caetano e Chico, Gal, felizmente tinha alguma coisa de forró... Em homenagem a "não-feijoada", a música "Feijoada completa", do Chico, abriu os trabalhos. No meio do caos, saiu pedaços do meu passado, poeira levantada a partir de canções como essa "Comeu" ou "Paula e Bebeto", uma das boas da Gal Costa. Coisa fina mesmo foi passar a tarde inteira do dia seguinte dançando no evento "Forró do Molenga", domingo, em Brotas, no condomínio onde meu irmão mora. Eloá não pôde ir e não achou graça em eu ter ficado de um lado para o outro do salão arrastando o pé com outras madames, sem ela estar de olho. Bobagem. Depois que ela comeu meu coração, não tem pra ninguém. Ela deveria saber disso.

*

E a letra:

Comeu
Caetano Veloso

Ela comeu meu coração
Trincou, mordeu, mastigou, engoliu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Mascou, moeu, triturou, deglutiu
Comeu o meu
Ela comeu meu coraçãozinho
de galinha num xinxim
Ai de mim!
Ela comeu meu coraçãozão
de leão naquele sonho medonho
E ainda me disse que é assim que se faz
Um grande poeta
Uma loura tem que comer seu coração
Não, eu só quero ser um campeão da canção
Um ídolo, um pateta, um mito da multidão
Mas ela não entendeu minha intenção
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

As invasões bárbaras

Com muita satisfação, revi o filme "As invasões bárbaras", de Denys Arcand, para acompanhar Eloá. Fiquei pensando sobre o sistema de saúde canadense, um país de primeiro mundo como se sabe. Quem já viu o filme deve lembrar que o personagem central, um professor, passa por um tratamento de câncer e é tratado no sistema público. O filho é rico, tenta levá-lo para se tratar nos Estados Unidos, em vão. O velho (nem tão velho assim) é ateu, comunista e "lutou pelo sistema de saúde público". Mesmo que isso lhe custasse a vida, não ia correr para um atendimento particular no país que critica justamente por favorecer apenas quem pode pagar. É importante dizer que para o professor vale mais a pena ficar em seu país rodeado dos amigos e da esposa (e das ex-amantes). Diante disso, o filho bem aquinhoado faz o que pode para dar conforto ao pai durante o tratamento. Isso inclui subornar o sindicato dos profissionais de saúde e a direção do hospital para dar condições melhores de estadia ao paciente (engraçado que a reação da diretora do hospital é exclamar que a oferta de dinheiro é um absurdo - "O senhor pensa o quê? Que estamos no terceiro mundo!" - mas aceita a grana). Li alguma coisa sobre esse sistema. No Canadá, o serviço é público para todos e parece funcionar sem problemas. Os poucos planos de saúde com fins lucrativos só podem dar cobertura ao que não é oferecido pelo sistema nacional, como cirúrgias cosméticas e apartamentos melhores em hospitais. Li o depoimento de uma brasileira que vive naquele país e diz que o atendimento tem sido satisfatório. Um médico fala que o sistema de saúde canadense é uma conquista que nenhum político ousa propor a abolição ou uma mudança para qualquer outra forma. Seria uma medida extremamente anti-popular. As pessoas apóiam firmemente o sistema e querem mantê-lo. Tudo muito diferente de nosso modelo, e até do americano, onde prevalecem os planos de saúde com fins lucrativos. Obama briga para mudar as coisas lá no norte. Até outro dia, os EUA tinham 45 milhões de pessoas sem plano de saúde. Lá, como aqui, é para se preocupar mesmo. Aqui então...
Importante dizer que o filme não trata dessa questão. Trata desse homem mais velho, da relação com seus amigos, com seus dois filhos, com as mulheres que amou. Difícil descrever o que se passa. Não há um plot exatamente, pelo menos não fácil de descrever em poucas palavras. A história acompanha os dias finais de tratamento do câncer e tudo que advém em torno disso. O filho tem crenças, o pai tem outras, há um passado complicado entre pai e filho que será trabalhado ao longo do filme. Começa bem difícil essa relação, aos poucos vai amainando. Se quisermos, é uma história de amor pai-filho. Se quisermos, é uma ode às pessoas que se importam conosco, aquelas que estão sempre lá quando a gente precisa. O filme tem seu forte no humor e em bons diálogos. Alguns dos melhores é entre a enfermeira religiosa e o velho ateu e desbocado. Bom filme, tanto quanto "O declínio do império americano", mais antigo, que conta com os mesmos personagens mais jovens.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O turista

Muito simpático o Espaço Unibanco Glauber Rocha, na Praça Castro Alves. Todo o entorno está maltratado, como virou regra em Salvador. Mas o cinema é bacana, tem um café e uma livraria arrumados e portas de vidro que deixam ver a paisagem belíssima da Baía de Todos os Santos. Fomos eu e a patroa ver "O Turista", filme com a Angelina Jolie e o Johnny Depp. Como esperava uma bomba (era Eloá quem queria ver), no fim não achei tão ruim. As cenas gravadas em Veneza são bem bonitas, a Angelina tem aquele rosto belo que já garante 50% da satisfação com qualquer filme e ver o Johnny Depp atuando não é mau negócio (mesmo ele tão longe das atuações grandes que já fez na tela). Em termo de enredo, o filme não convence com seus jogos de identidade, nem como história de amor. O suspense segura o interesse no início, mas não mantém a tensão necessária até o final. Fico agradecido de as cenas de perseguição estarem livres de efeitos digitais incríveis e coreografias espeaculares. Não é um filme que chega a aborrecer. Mas também não é nada demais.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Planos...

Ah, São Paulo... vem vindo. Despiroquei com esse troço de viajar. Agora só penso nisso (e na Tammy Di Calafiori, always). Enquanto me distraio com a série "How I Met Your Mother", que acompanho a quarta temporada, e surfo na terceira de "In Treatment" (e aguardo "Damages", "True Blood", "The Office"...), vou começando a me alfabetizar em francês. Os primeiros passos, cumprimentos, boa noite, bom dia, estou muito bem, e você? Tenho uma professora gostosona e comprometida com meu aprendizado. Chama-se "minha esposa". Vou devagar, porque já tive pressa com o inglês e fiquei no meio do caminho. No meio do caminho tinha uma pedra. Preciso das duas línguas. Vou aprender as duas. Planos, planos, planos... Comecei 2011 como sempre, lista de promessas que tento levar a sério. Quero ler mais livros, ver mais filmes, tratar bem minhas finanças, cuidar de mim mesmo. Algumas coisas já estão caminhando bem: diminui 60% do café e tenho dormido melhor por isso (não dá pra cortar total, eu amo demais pra ter coragem de assinar o divórcio). Mudei a alimentação geral, tenho mantido a boquinha mais fechada e isso tem mostrado significado na balança. Não tenho neuras com peso e tal. Mas penso no futuro, quero viver muito. Tal qual meus pais, meus avós. Tenho nas duas bandas da família gente que vive/viveu muito. Quero estar inteiro para aproveitar o adiante. De nada vale viver muito aos pedaços, caindo o reboco, precisando do neto para ir da sala pra cozinha. Quero estar vivo para ver o sol nascer, quero pegar onda com 70 anos (brincadeira, nada tenho a ver com pegar onda). Mas quero estar bem, me sentindo bem. E quando for a hora, fechar os olhos e bye, bye, Brasil. Vamos ver.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ela faz cinema

Recebi um tapa ontem quando o bumbum da Marjorie Estiano apareceu no episódio "Ela faz cinema", inspirado em Chico Buarque. Reclamei que eu não tinha feito nada. Eloá disse: "mas pensou que eu sei". Eu já tinha levado bronca quando observei uma cena que ela estava sem sutiã. É fogo. Mas meu histórico com a Marjorie Estiano me coloca mesmo no banco dos réus. Desde que a vi cantando "Miss Celie's Blues" em seu DVD fiquei bestinha. Gosto dela até hoje. Ok, voltando à série e para ser sincero, não foi o apelo sensual/sexual que marcou o episódio baseado nas canções "Ela faz cinema" e "Construção", de Chico. Gostei do que vi, acompanhei com interesse. Além do casal central (Marjorie/ Malvino Salvador), gostei muito de ver a outra história, do árabe Rafic, interpretado pelo ótimo ator Cacá Rosset. E gosto de como as duas histórias são independentes e se misturam. Achei desnecessária a narração em off, talvez justificável para um produto destinado a um público de TV, que é diversificado demais. Ainda assim, acho que o trabalho ganharia mais sem a narração. Não sei se foi minha alta expectativa, mas fiquei pensando que a história não se diferencia de outras que também tivesse trilha de Chico. Essa, claro, nasceu especificamente inspirada nas canções, mas ainda assim. E isso é mesmo complicado, a transição livro-filme é mais comum e até mais natural (todo filme é roteiro antes). E ainda assim, há toda a transformação óbvia de sair de um campo (literário) e migrar para outro (áudio-visual), a transição sempre gera uma outra coisa bem diferente. De canção para filme então, é ainda mais distante, é mesmo outro universo. Mas, sei lá, imaginei que iria ter uma identificação maior com as canções. Talvez esteja viajando e me fizesse melhor deixar passar um tempo para pensar mais sobre o que vi. O que acho mais importante é que gostei bastante, apesar de uma ressalva ou outra. Achei curioso que a direção é de um novato, o cineasta e publicitário Tadeu Jungle (com roteiro dele e de Estela Renner).

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Rio

Foi um barato a viagem pro Rio. Ficamos em Copacabana, andamos por várias ruas ali do bairro. E visitamos também Ipanema, Lapa, Cosme Velho, Urca e Leme. Eloá queria mais passeios até a praia. Ela chegou antes de mim pra fazer um curso, foi na praia duas vezes com amigos, numa das vezes chegou a jogar vôlei. Comigo, fomos uma vez. Em geral, não gosto de praia. Gosto da vista do mar, do clima, de estar por perto e tal. Mas prefiro ficar de uma distância razoável, sem sujar os pés de areia, um boteco no calçadão, um chope inocente... Estou ficando velho. Já conhecia o Rio. Estive lá há dez anos e, na primeira vista, fiquei boquiaberto. Dessa segunda vez, fiquei menos tempo, mas aproveitei mais. Descobri que gosto de viajar e quero me dedicar mais a isso. Fiquei bem impressionado com a Lapa, um dos lugares que mais queria conhecer na cidade. Por tudo que representa, de boemia e cultura, para o Rio. De cara, quando estávamos vendo onde ficar na Lapa, assistimos um cover de Cazuza dando seu show numa casa de portas abertas. A mim, me pareceu bastante parecido com o Cazuza da fase do disco "Só se for a dois" ou "Exagerado", os primeiros discos solo (o cover cantava justamente a música "Exagerado"). Ser recebido na Lapa dessa forma é bem forte pra mim. Fiquei impressionado com a animação no bairro, muitas atrações, os bares cheios mas ainda com espaço suficiente para acomodar as pessoas que iam chegando. Ficamos no "Boteco do Garrafa" onde Eloá queria abrir a noite com Absinto (mas concordou em ficar na caipirosca) e eu fui de Manhattan pra depois emendar com a cerveja Devassa, da Paris Hilton. Eram os dias anteriores ao Natal, um dia de semana, mas imagino que com uma animação atípica para uma quarta-feira. No Rio, fizemos fotos de várias coisas, inclusive de nossa passagem por cartões postais como o Cristo Redentor e o Pão de Açúcar. Quatro dias foram pouco. Queremos voltar para fazer aquilo que não deu tempo. Inclusive, gostaria de dar uma esticada em Búzios. Vamos ver.