Meus irmãos são metidos a intelectuais. Ô raça miserável! – a dos intelectuais e, pior, a dos metidos a tal. Então sempre lembro de uma reunião em família, isso tem muito tempo, eu era garotão, não sei se tinha chegado aos 18 anos. No meio da reunião, pediram para ligar o som. Eu botei para tocar uma música de Wando que adorava e era sucesso à época. Chama-se “Deus te proteja”. Mal a música começou, a turma toda chiou. Foi uma tremenda falta de tudo eu querer executar tal trilha sonora entre tão poderosas personas. Lembro disso sem mágoa, porém sempre achei que foi um momento revelador. Meu interesse por Wando permaneceu intacto, mas descobri a existência das patrulhas e passei a observar a existência dos “mestres do bom gosto”, gente de todo tipo. Sempre tive opinião e personalidade, graças ao bom Deus. Continuei gostando de Wando e sinto muito pela sua morte, ainda mais do jeito como aconteceu, principalmente porque o cara era jovem. Se não fosse a vida desregrada, poderia ter muitos anos ainda de trilha sonora incrível dedicada às dores e delícias de amor. Gosto muito de Wando. Os cabeções nunca me dobraram. Sou quem sou. Abaixo a letra dessa música deliciosa, que com som, como deve ser, fica bem melhor.
"Deus te proteja
pela onda de alegria
que me invade todo dia
quando encontro com você
Deus te proteja
pelo beijo de pecado,
tão gostoso e tão levado,
tão molhado de prazer
E toda vez
que você cruza meu caminho,
eu esqueço que sozinho
eu nasci e vou morrer
No teu olhar
eu vejo um mundo tão bonito,
tenho fé e acredito
e deixo o amor acontecer
Vem me seduzir,
me confundir, me agradar,
você é louca
eu sou mais louco que você
Vem brincar com fogo,
me queimar e se queimar,
queimando juntos
a gente pode se acender
Eu não vou deixar de amar
por medo de sofrer,
se você quer me dar,
eu quero receber
Vinho proibido
de uma safra especial,
que me embriaga,
me alucina e não faz mal
Deus te proteja
pela falta de respeito,
do meu corpo no teu leito,
quando a gente faz amor
Deus te proteja
por meu jeito atrevido,
que provoca teu gemido,
mas de gosto que de dor
O teu vestido
esconde a parte mais formosa,
peço a Deus fêmea gostosa,
que o amor guardou pra mim
Repete e fala
essas loucuras sem sentido,
bem baixinho em meu ouvido,
me dá mais que eu quero sim
Vem me seduzir,
me confundir, me agradar,
você é louca
eu sou mais louco que você..."
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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Cozido
Enquanto Salvador vivia este momento intranquilo, mantive no sábado o compromisso com a família. Fui eu mesmo à cozinha e preparei um cozido com mocotó entre as carnes.
Como na festa de natal não pude tomar bebida alcóolica, combinei este mocotó em minha casa para poder tomar todas e ter essa desculpa para juntar a família de novo.
Até que fui comportado. Só lá pelas tantas, tomei umas duas doses de conhaque depois de ficar umas horas na cerveja.
Botei pra tocar as marchinhas de Carnaval só para ouvir piadas de cinco em cinco minutos. No fim, acho que as pessoas gostam de marchinhas. São eternas, tem ritmo, não apelam para as partes do corpo nas rimas, nem abusam de duplo sentido como se fosse uma obrigação poética.
Depois, o grande Bezerra da Silva e sua cantilena que evoca a malandragem, a bandidagem, as drogas. Não sei o que seria de Bezerra da Silva se tivesse feito suas músicas hoje, seria fortemente atacado pelos imbecis do politicamente correto.
A pedidos, Raul Seixas dominou uma parte da festa. Um dos meus irmão adora. Todos nós da família temos uma relação afetiva com o cancioneiro de Raul.
Teve mais coisas na trilha da noite, sambas, canções mais atuais de Carnaval e a boa banda "Movidos a álcool", que mistura brega com rock and roll.
Acho que 30% das conversas foram sobre a greve da polícia na cidade da Bahia.
Meu irmão, que chegou a pouco da Europa, me trouxe uma garrafa de vinho do Porto.
O cozido estava delicioso. Só faltou o molho de pimenta.
Com tantos afazeres, quando lembrei da pimenta, o horário já estava adiantado. E a preguiça não me deixou me mover.
Como na festa de natal não pude tomar bebida alcóolica, combinei este mocotó em minha casa para poder tomar todas e ter essa desculpa para juntar a família de novo.
Até que fui comportado. Só lá pelas tantas, tomei umas duas doses de conhaque depois de ficar umas horas na cerveja.
Botei pra tocar as marchinhas de Carnaval só para ouvir piadas de cinco em cinco minutos. No fim, acho que as pessoas gostam de marchinhas. São eternas, tem ritmo, não apelam para as partes do corpo nas rimas, nem abusam de duplo sentido como se fosse uma obrigação poética.
Depois, o grande Bezerra da Silva e sua cantilena que evoca a malandragem, a bandidagem, as drogas. Não sei o que seria de Bezerra da Silva se tivesse feito suas músicas hoje, seria fortemente atacado pelos imbecis do politicamente correto.
A pedidos, Raul Seixas dominou uma parte da festa. Um dos meus irmão adora. Todos nós da família temos uma relação afetiva com o cancioneiro de Raul.
Teve mais coisas na trilha da noite, sambas, canções mais atuais de Carnaval e a boa banda "Movidos a álcool", que mistura brega com rock and roll.
Acho que 30% das conversas foram sobre a greve da polícia na cidade da Bahia.
Meu irmão, que chegou a pouco da Europa, me trouxe uma garrafa de vinho do Porto.
O cozido estava delicioso. Só faltou o molho de pimenta.
Com tantos afazeres, quando lembrei da pimenta, o horário já estava adiantado. E a preguiça não me deixou me mover.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Coisas
Fizeram muita coisa boa no Carnaval. Falo de canções, as marchinhas maravilhosas, que ainda hoje são atraentes e atuais nessa época do ano. Claro que ajuda o fato de o time de compositores das marchinhas mais longevas ser muito bom (gente como Adoniran Barbosa, Mário Lago, Lamartine Babo, Zé Keti, Noel Rosa etc). Estive pesquisando para a trilha sonora de um encontro em casa com a família e revivi coisas deliciosas.
*
Ainda bem que existem as séries para me salvar as noites, porque é muito ruim a novela do Aguinaldo Silva. Em geral, sua falta de senso de ridículo é terrível. Pior, é ele fazendo propaganda dele mesmo como se sempre entregasse uma obra irretocável. Não me incomodo com gente que se acha, tudo bem, é uma maneira de afirmação e auto-estima. Mas é preciso ser realmente muito bom para posar de muito bom, senão fica feio demais. Não dá para achar que é o maior de todos os tempos se não tem condições para isso. Tem que ser pelo menos um Dias Gomes para se achar Dias Gomes. Há acertos nessa novela como em outras, sempre há o que se salve (como a boa construção de Marcelo Serrado; e mesmo no chatíssimo texto e contexto do politicamente correto, Lilian Cabral não consegue entregar um personagem ruim há muito tempo; ela continua ótima). Mas o inverrossímel e o esforço para tratar o espectador como imbecil nessa novela é de doer.
*
Pelo que li sobre o assunto, parece que Rita Lee exagerou na reação aos policiais de Aracaju. Em geral, quando há conflito com a polícia, minha tendência natural é desconfiar dos fardados. Mas, pelo que se demonstra até agora, os policiais não fizeram nada demais, pelo menos nada que justificasse que fossem chamados de "cachorros", "filhos da p..." etc. Apesar disso, fiquei com pena de Rita. Gosto muito dela. Irreverência e atitude não é algo que se vê por aí todo dia...
*
Assisti com atraso monumental à quarta temporada de True Blood. Tanto que já está no ar o teaser da próxima temporada. O que sei é que vi muita gente falar mal na internet. Minha amiga Juliana largou no meio e torceu o nariz. Eu gostei. Há momentos e momentos, altos e baixos, uma ou outra coisa mais chata. No geral, é o mesmo programa de sempre (sexy, irônico, politicamente incorreto, até bobo), um bom passatempo mesmo com os excessos e tudo mais. E o episódio final foi especialmente inspirado e cheio de promessas de que coisas muito boas podem estar por vir. Se não for só promessa...
*
Estou observando com animação e espectativa o movimento "Desocupa, João".
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Trinta e seis
Faço 36 anos domingo. Caramba, são 36 anos! Minha querida amiga Najara, que faz 35 um dia antes, me diz essa coisa que mal percebemos e o tempo avança. Ouvir isso (e viver isso) é forte. Muito mais que ler em mensagens clichês que nos chegam por email. Quando ainda não tinha 15 anos, sonhava chegar aos 30. Queria ser homem rápido. Achava que ali estava uma idade intermediária e perfeita. Trinta! Não garotão demais, nem velho, menos ainda "coroa". Longe disso. Acreditava que os 30 anos me daria o vigor da juventude e a experiência num mesmo pacote. Um rapagão, cara de homem, contas a pagar, responsabilidades do mundo adulto, mulheres... Os trinta chegaram e estão voando. Hoje já estou mais perto dos quarenta. Que medo! Não, não é medo. É vontade de acontecer, tipo saber que estou aproveitando bem o tempo que tenho sobre a terra (pois é, me ocorre agora essa frase "Ninguém mais verá Osama Bin Laden andando sobre a terra", palavras do presidente americano se referindo ao famoso terrorista abatido). Quero aproveitar o tempo que tenho. E isso significa viver melhor, ter mais momentos com minha filhinha, com minha mulher, com meus pais e com meus amigos. Tenho trabalhado - não é de hoje - para viver bem com Eloá. Porque, parceiro, não é fácil aturar uma mulher. Como não é fácil aturar uma filha. Aliás a convivência é um troço difícil sempre. Sei de filhos que odeiam os pais, com razão. Eu mesmo já odiei meus pais um milhão de vezes no passado (os dinossauros ainda andavam sobre a terra). Já odiei minha filha não poucas vezes (só ontem, foram duas). E canso de odiar Eloá (e me divirto fazendo ela me odiar). Mas no fim, não consigo viver sem nenhum deles. O amor é muito maior que as pedras no sapato. Essa convivência (muitas vezes forçada) tem seus momentos de inferno, mas no balanço final é o que nos ajuda a seguir. Trinta e seis anos. Claro que ainda sou um garoto (aquele, chegando nos 15), não consigo pensar diferente. Eu me sinto acumulando personagens dentro de mim. Aqui dentro estão todas as pessoas que fui. Vamos nos intercalando, todos opinam sobre tudo, uma bagunça. A palavra final é sempre do mais velho, claro. Questão de hierarquia. Estou agora terminando o meu turno e dando lugar a mais um que está chegando. Domingo, um novo comando assume o posto. Daí me junto aos outros eus. De minha parte, estarei aqui opinando e tentando me fazer respeitar. Porém, evidentemente, o 36 é que será o cara. E eu aceito isso. Como diria Shakespeare, a fila anda...Deixo as palavras finais deste post para o poeta Carlos Drummond, que tem esses versos bonitos sobre o tempo que passa:
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.”
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Sampa
Tem gente que funciona de um determinado jeito. Eu preciso de pausas para funcionar bem. Admiro gente como Eloá ou os amigos Hederverton e Luciana que tem grande disposição e gostam do pique que tem. Falo isso para dizer que a deliciosa viagem que fizemos pra São Paulo foi maior que o tempo disponível para ela. Só assim para explicar tantas atividades em três dias. Vou demorar para digerir todas as coisas. A cidade de que ouvimos tanto falar, e que ajuda a dar a cara que o país tem, merece ser visitada. Vimos o que foi possível. E são mesmo muitas coisas. Com a cidade vazia do feriado, foi possível ver tudo com mais calma. Mas é um vazio dinâmico, porque há ainda muita gente nas ruas, nas cantinas, nos bares. Fiquei muito satisfeito. Sozinho, teria corrido menos, ido a menos lugares, e provavelmente teria sido mais feliz. Mas o tamanho da felicidade que tive já é suficiente para ter sido um passeio difícil de esquecer depois. Tenho que ficar grato aos amigos que tenho e à minha mulher. E a carinha de felicidade da minha filha (antes, durante e depois) valeu não ter a alma pequena.
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Ela comeu meu coração
Era uma novela, até onde lembro, de muito sucesso. Eu era garoto, claro, mas já gostava de TV como gosto hoje. Na verdade, gostava ainda mais. Era fascinado. "A gata comeu" era o nome, e lembro bem da personagem da Christiane Torloni, super linda e sexy. Essas coisas são malucas, pode ser que eu assista hoje e não seja a mesma coisa, tenha aquela decepção que sempre acontece com coisas idealizadas. Ouvi a versão de Caetano da música tema (a música é dele, mas a versão na novela não era ele quem cantava). Na verdade, foram várias as canções que me fizeram regressar no tempo. Fomos os seis irmãos para uma aventura no sábado. Deveria ser uma feijoada que não deu certo. Fomos parar no mercado do peixe, um lugar incrível na cidade baixa, que eu não conhecia. Todos deveriam passar pelo mercado do peixe alguma vez. Parece o melhor lugar para comprar peixe, marisco, lagosta, essas coisas, tudo muito fresco, com excelente aparência e vendedores simpáticos, de bem com a vida. Almoçamos no restaurante da parte de cima, um programa muito bom mesmo. E a trilha sonora quando chegamos era a canção "Não, posso não, quero não, minha mulher não deixa não...". Gosto muito, mas não sei o nome, todo mundo conhece o refrão. De lá, fomos fazer e comer uma pizza na casa de um irmão. Ele tem muitos discos, mas é uma bagunça, precisa uma complexa operação para achar os CDs, nenhuma capa corresponde ao CD que está dentro. Prova de que não é fácil ter três crianças pequenas e uma adolescente no mesmo lar. Me apoderei do cargo de disc-jockey e consegui fazer uma seleção. Não tinha nenhuma dessas canções deliciosas de samba, pagode ou axé. Fazer o quê? Tive que me contentar em reproduzir Nando Reis, Caetano e Chico, Gal, felizmente tinha alguma coisa de forró... Em homenagem a "não-feijoada", a música "Feijoada completa", do Chico, abriu os trabalhos. No meio do caos, saiu pedaços do meu passado, poeira levantada a partir de canções como essa "Comeu" ou "Paula e Bebeto", uma das boas da Gal Costa. Coisa fina mesmo foi passar a tarde inteira do dia seguinte dançando no evento "Forró do Molenga", domingo, em Brotas, no condomínio onde meu irmão mora. Eloá não pôde ir e não achou graça em eu ter ficado de um lado para o outro do salão arrastando o pé com outras madames, sem ela estar de olho. Bobagem. Depois que ela comeu meu coração, não tem pra ninguém. Ela deveria saber disso.
*
E a letra:
Comeu
Caetano Veloso
Ela comeu meu coração
Trincou, mordeu, mastigou, engoliu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Mascou, moeu, triturou, deglutiu
Comeu o meu
Ela comeu meu coraçãozinho
de galinha num xinxim
Ai de mim!
Ela comeu meu coraçãozão
de leão naquele sonho medonho
E ainda me disse que é assim que se faz
Um grande poeta
Uma loura tem que comer seu coração
Não, eu só quero ser um campeão da canção
Um ídolo, um pateta, um mito da multidão
Mas ela não entendeu minha intenção
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu
*
E a letra:
Comeu
Caetano Veloso
Ela comeu meu coração
Trincou, mordeu, mastigou, engoliu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Mascou, moeu, triturou, deglutiu
Comeu o meu
Ela comeu meu coraçãozinho
de galinha num xinxim
Ai de mim!
Ela comeu meu coraçãozão
de leão naquele sonho medonho
E ainda me disse que é assim que se faz
Um grande poeta
Uma loura tem que comer seu coração
Não, eu só quero ser um campeão da canção
Um ídolo, um pateta, um mito da multidão
Mas ela não entendeu minha intenção
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu
Ela comeu meu coração
Tragou, sorveu, degustou, ingeriu
Comeu o meu
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Vísceras
Tem tempo isso, foi na época da faculdade. Enviei ao professor da disciplina "Estética" um comenário sobre o filme "De olhos bem fechados", de Kubrick. É preciso contextualizar. O filme tinha recém-estreado e as opiniões entre os críticos de cinema foram divididas. Muito não gostaram da última obra do diretor, que sequer foi integralmente finalizado por ele, que morreu antes. Para piorar a situação, a dupla de protagonistas eram os mega comerciais Tom Cruise e sua então esposa, Nicole Kidman. Acho que a má vontade da crítica especializada com o filme começou nessa escalação. Chamo de má vontade. Isso meio que antecipa que gostei - e muito - do filme. E gostei mesmo. Um dos meus colegas mais brilhantes de sala de aula detestou "De olhos bem fechados". Na época, a revista "Bravo!" era mais apreciada do que é hoje e tinha um movimentado fórum na internet. Lendo os comentários sobre o filme nesse espaço, vi lá um texto desse meu amigo detonando o filme. Não lembro bem os argumentos, sei que a certa altura ele dizia que o filme abandona o personagem mais interessante da história - o de Nicole Kidman - para seguir um Tom Cruise descompensado pelas ruas de Londres. Postei uma resposta meio raivosa, meio irônica (no fundo, apenas ansiosa). Também não lembro tudo o que falei, mas num trecho disse que ele - o colega - deveria fazer o próprio filme e dar a ênfase que quisesse aos personagens, percorrer os caminhos que achasse legítimo. Por isso que se usa para filmes como o de Kubrick o termo "autoral". Meu professor leu meu texto-resposta-ansiosa. E a princípio ficou calado. Eu me antecipei e disse. "Professor, o senhor sabe, na maioria das situações, eu não gosto de mostrar a cara. É raro emitir opinião em público ou em voz alta". Ele comentou: "Talvez fizesse bem você dar sua opinião mais vezes. Porque, você evita tanto mostrar a cara, que quando mostra, vai além e mostra as vísceras". Ele falou isso porque o texto era mais enfático que o necessário. Tinha uma carga de energia maior que o argumento pedia. Enfim, se fosse uma discussão, teria saído uma voz mais alta que a educação recomenda. Penso sempre nisso porque sou assim e não sou feliz desse jeito. Nesse fim de semana me meti numa discussão rápida, mas ilustrativa desse meu jeito. Tomei as dores de Dorival Caymmi que um amigo de meu irmão acusou de ser mau cantor. E meu irmão defendeu o amigo. Porque concordou com ele ou para explicar o que o outro dizia. Talvez o subtexto fosse "Ninguém aqui está dizendo que Caymmi não é grande. Mas não é Deus. Pode e deve ser apontado onde não funciona tão bem. É bom compositor e tal, mas canta como se tivesse uma tuba dentro da boca". Eu me vi metido em discussões que tive quando comecei a descobrir as coisas e conhecer o mundo. Muitos amigos intelectuais sentiam prazer em bater em medalhões porque isso parecia dar uma aura toda especial ao que eles diziam e a própria persona se revestia do mais alto espítiro cult, transgressor, elevado, especial. E aprendi desde cedo a me permitir gostar de tudo que batesse em meu espírito. Sem filtros. Não queria ser cult, transgressor, elevado, especial. Queria apenas me permitir gostar das coisas. Toda vez que as pessoas vêm com papo de bater em medalhão, penso nisso. Talvez exagere nessa coisa. E sempre que me pego nessas discussões, no dia seguinte acho tudo meio irracional. E acho que deveria ter ficado quieto. Não quero brigar com o mundo, nem ser o chato. Quero ficar na minha casca. Nem mostrar o rosto, muito menos as vísceras.
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segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Cosme e Damião
"São Cosme mandou fazer/ Duas camisinha azul/ No dia da festa dele/ São Cosme quer caruru". Eita, criança, eu e outros pequeninos ficávamos na maior excitação em épocas como o dia dos santos Cosme e Damião. Era uma farra. Nunca vou esquecer dessas lembranças do caruru de sete meninos, com tantos acompanhamentos e também muita bala, doce, pirulito. Depois de grande e, principalmente, depois de me tornar pai, tenho tido vontade de reviver algumas dessas lembranças. Por isso, esse final de semana tentei reproduzir o máximo que eu pude o caruru da minha infância. Minha filha foi a minha ajudante de dia inteiro. Sim, porque levou um dia inteiro preparar tantas coisas: vatapá, feijão fradinho, milho branco, arroz, banana da terra frita e a estrela da festa: o caruru. Tinha planejado de um jeito, mas ficou de fora inhame, rapadura, pipoca e farofa de azeite. Fica para a próxima. Mesmo assim foi uma aventura valente. O final foi mais que recompensador. Eloá, que chegou em casa no final do dia, não acreditou que eu tivesse feito tanta coisa. E coisas tão gostosas. Ela, assim como eu e a pequena, se esbaldou. Falei pra ela se acostumar, aquele era o início de uma tradição. Todo ano, em setembro, faríamos o caruru de Cosme e Damião.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Distrato
Minha pequenina, de oito anos de idade, retornou de um período de cinco dias com a mãe que mora em outro Estado. Mantive a característica elegância, mas confesso que senti ciúmes.
Não por ela ter ido ver a mãe que não via já há uns bons meses. Acharia cruel ela não querer, não suspirar de saudades da mãe. Quem não tem amor à própria mãe, desconfia-se que deve ser uma bela peça. Minha pequena, ao contrário, foi ao encontro com justificado ardor filial, e lá ficou na trincheira inimiga por longos cinco dias.
O que matou esse pai velho e o último romântico da terra, foi a quebra de uma promessa. A pequena prometeu telefonar todos os dias enquanto estivesse ausente. Acreditei. No entanto, ela ligou três vezes.
E olha só: no primeiro dia, quis saber se estava executando bem a receita de arroz que ensinei. No segundo dia, perguntou se o carregador do seu celular estava em casa. No terceiro e último, avisou que já estava retornando, queria saber se eu estava em casa para recebê-la.
Nenhum telefonema com rasgos de saudade do pai, nenhuma declaração de amor eterno, nenhuma promessa de nunca mais se separar por tanto tempo.
Inevitável conclusão: ela não me ama, passou definitivamente para o lado negro da força.
Não por ela ter ido ver a mãe que não via já há uns bons meses. Acharia cruel ela não querer, não suspirar de saudades da mãe. Quem não tem amor à própria mãe, desconfia-se que deve ser uma bela peça. Minha pequena, ao contrário, foi ao encontro com justificado ardor filial, e lá ficou na trincheira inimiga por longos cinco dias.
O que matou esse pai velho e o último romântico da terra, foi a quebra de uma promessa. A pequena prometeu telefonar todos os dias enquanto estivesse ausente. Acreditei. No entanto, ela ligou três vezes.
E olha só: no primeiro dia, quis saber se estava executando bem a receita de arroz que ensinei. No segundo dia, perguntou se o carregador do seu celular estava em casa. No terceiro e último, avisou que já estava retornando, queria saber se eu estava em casa para recebê-la.
Nenhum telefonema com rasgos de saudade do pai, nenhuma declaração de amor eterno, nenhuma promessa de nunca mais se separar por tanto tempo.
Inevitável conclusão: ela não me ama, passou definitivamente para o lado negro da força.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Vamos lá
Daí fui pro aniversário no sábado. Pego desprevenido. Me ligou o irmão à tarde, tem coisa aí à noite e tal, vamos lá. Fui. Levei a filha. O aniversário era em recital de poesia. Achei que não faria mal levar a criança para ouvir uns versos. Fiz muitíssimo bem porque sem que eu soubesse, era um recital em que a maioria dos poetas tinha média de 12 anos. Ou coisa que o valha. A minha pequena curtiu muito. Depois foi o cantar o violão de músicas que me fez viajar no tempo. E lembrar muito do meu amigo Sérgio. Pronto. Agora virou uma constante. Toda vez que ouço canção e lembro de Sérgio, encho os olhos de água. Saudade dele. E saudade de mim. Tem muita coisa pra fazer ainda, sou um garoto. Pegar essa saudade e transformar em ação. Vamos lá.
*
E teve Lost no fim de semana. Fiquei baqueado (mais uma vez) com um final de temporada. Lost dá um nó na cabeça e continua viciando. Só aquela coisa da ilha sumir assim daquele jeito nessa quarta temporada que achei meio bocó. Comentei com a amiga Juliana. Mas vamos ver. Descobri que o melhor de Lost não é desvendar os mistérios, mas vê-los brotar, quanto mais melhor. Quando a série explica as coisas perde um pouco o encanto. O medo vai embora. E Lost é muito melhor quando mete medo.
*
E teve Lost no fim de semana. Fiquei baqueado (mais uma vez) com um final de temporada. Lost dá um nó na cabeça e continua viciando. Só aquela coisa da ilha sumir assim daquele jeito nessa quarta temporada que achei meio bocó. Comentei com a amiga Juliana. Mas vamos ver. Descobri que o melhor de Lost não é desvendar os mistérios, mas vê-los brotar, quanto mais melhor. Quando a série explica as coisas perde um pouco o encanto. O medo vai embora. E Lost é muito melhor quando mete medo.
domingo, 20 de junho de 2010
Toy Story
Me diverti muito com "Toy Story 3". Fui ao cinema na estréia com Eloá e a pequenina. Voltei a ser criança. As cenas mais legais não são aquelas que mostram estripulias em efeitos digitais - nem mesmo a abertura pomposa e espetacular. As cenas que mais me capturaram foram as mais simples, intimistas, sentimentais. O final me arremessou direto aos, sei lá, seis ou sete anos. Não faltou vontade de chorar.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Ingrato
Sou um filho ingrato. Demoro de ver ou dar notícias aos meus pais - tudo que não quero que minha filha faça comigo. Sofro por antecipação pensando em ser deixado de lado por ela no futuro. Ontem à noite fiz uma visita breve aos meus pais e levei a pequena comigo. Ela adorou o programa noturno. Meus pais reclamaram, fizeram a cena de sempre quando eu demoro pra fazer contato. Meu pai é pior que minha mãe nisso.
Minha filha antes de ir visitar os avós, tinha conversado com a mãe no skype (acompanhada de perto pelos meus olhos e pelo meu ciúme). Não tenho problema com a ex-mulher que é a mãe de um filho meu e que não vive mais comigo. Mas ficaria mais feliz se ela sumisse, fosse abduzida por aliens, mudasse de vez pro Cazaquistão, qualquer coisa assim... Entretanto sei que minha pequena sofreria se não visse mais a mãe. E eu sofro por ela ser tão apegada.
Minha filha antes de ir visitar os avós, tinha conversado com a mãe no skype (acompanhada de perto pelos meus olhos e pelo meu ciúme). Não tenho problema com a ex-mulher que é a mãe de um filho meu e que não vive mais comigo. Mas ficaria mais feliz se ela sumisse, fosse abduzida por aliens, mudasse de vez pro Cazaquistão, qualquer coisa assim... Entretanto sei que minha pequena sofreria se não visse mais a mãe. E eu sofro por ela ser tão apegada.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Saudade
Feliz. É o meu nome desde que a minha pequena voltou de um período de mais de 20 dias em companhia da mãe. Ela está de férias, a mãe passa o ano inteiro longe. Esse foi o momento para estarem juntas. E o momento de eu ficar longe, mesmo contra a vontade, claro. Mas não brigo por isso, não ajo de forma mesquinha. Não que não queira (até quero), mas não pega bem. Tenho gostado de ser pai de uma menina. Venho aprendendo esse ofício, exerço miseravelmente, tateando, desde os primeiros dias. Ontem fui para o computador com ela mostrar como eram os desenhos que eu via na infância. Mostrei imagens de coisas da velhíssima guarda. Formiga Atômica, Galaxy Trio, Manda-chuva, Lula Lelé, Pepe Legal, Zé Colméia, Os Flintstones, Os Jetsons... Ela acompanhou tudo com a curiosidade de quem visita um museu. Mas, claro, quem disse que museus não podem ser divertidos? Depois disso, fomos jogar com a Turma da Mônica, atividade que a deixou bem mais interessada. Ela me segurou nisso, inclusive, bem mais tempo que eu planejava (apesar dos meus protestos). A pequena sabe que estou cheio de saudade. E ela aproveita, a malandra.
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Farra na cozinha
No domingo convoquei minha pequenina para uma diversão gastronômica. Ela podia escolher o que queria para o almoço e faríamos juntos pela diversão. Ela só precisaria vestir seu pequenino avental e ocupar a cozinha com o pai. Sua escolha me agradou também: Lazanha à bolonhesa. E para brincar, claro, teríamos geladinhos de maracujá e coco de sobremesa. Eu queria fazer tudo juntinho com ela, desde comprar os ingredientes no mercado. Ela pediu para pular essa parte. Ok, fui sozinho às compras e a deixei em casa vendo os mutantes do X-Men socando homens maus (era o segundo e ótimo filme da série, dirigido por Bryan Singer). Quando voltei, era hora de preparar as coisas. Foi muito bom vê-la trabalhar com afinco; lavar o que precisava, sujar outro tanto de coisas, opinar sobre Deus e o mundo (putz, como ela fala quando está feliz!)... Foi uma farra. E tem mais, ela também escolheu o repertório da trilha sonora: forró (teve minha aprovação total), Chico Buarque (ok, eu influenciei nessa escolha) e, por fim, Ivete Sangalo no Maracanã. Nada me desagradou nesse domingo. Poder explorar o trabalho infantil ao arrepio da lei é bom demais.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Pacote de maldades
Filhos, melhor não tê-los. Vinícius estava muito certo nisso (e também quando fala que o uísque é o melhor amigo do homem). Filhos são um problema eterno. Eu fui criado debaixo de muita porrada. E cresci um rapaz bom, respeitador, zeloso, tímido e com esse encanto natural. Todas as coisas pérfidas e escrotas da minha natureza, aprendi a manter guardadas no lugar certo e reservar às ocasiões apropriadas. Enfim, me tornei uma pessoa saudável e integrada. Por isso, não entendo bem essa política certinha de não poder - sob as circunstâncias certas - descer o braço num filho endiabrado. A minha pequena flor trouxe da escola outro dia um lista de queixas da professora sobre o seu comportamento. Dizia a professora que a pequena está impossível, não obedece, não pára quieta, conversa mais que o devido (e nas horas erradas), influencia mal os colegas. O problema de maior gravidade, entretanto, foi uma troca de cartas com um pequeno infante. Cartas de amor, subtendido pelos desenhos de coração e frases como "eu te amo". Meu primeiro impulso foi dar uma boa sova. Daquelas do tempo do meu pai. Mas aí tem esses tempos modernos que não acomodam as soluções mais eficazes para enquadrar menores infratores. Por isso, resolvi inaugurar um pacote de maldades e apreciar o seu efeito. Entre os tantos itens, está um que fala mais forte aos bons tempos que não voltam mais. São páginas diárias em que minha flor deve escrever dezenas de vezes a mesma frase: "Eu prometo que vou me comportar na escola". Meu pacote também inclui, claro, suspensão por tempo indeterminado de TV e internet. No primeiro dia depois do pacote, a professora disse que a menina parecia um anjinho na sala de aula. Mas calma. Ainda é cedo para se animar com o efeito do remédio. Se o pacote de maldades não funcionar, tudo bem. Posso me entregar, sem culpa e sanguinariamente, à tarefa de descer o sarrafo na criatura verticalmente prejudicada. E assim seremos todos felizes para sempre.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Festinha
Aí fui convidado para o aniversário da minha cunhada ontem. Uma festa surpresa com familiares e tal. Em geral, resisto sair da minha rotina durante a semana. É do trabalho para casa e só. Mas atendi ao convite do meu irmão. E foi bem divertido. Tomei uns dois ou três copos de cerveja gelada, joguei conversa fora, belisquei um pedaço de bolo. Tinha criança na festa e Marisa Monte no aparelho de som para agradar uns e desagradar outros. A aniversariante gosta, razão que justifica plenamente a presença da cantora. Antes das 21h, já estava em casa na santa paz. Aprendo que não é nada demais sair um pouco do piloto automático.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Felizes
Queria fazer um estrogonofe com filé. E cachaça. Saiu no sábado, dia que viu grande movimento na cozinha. Eloá elogiou. Pensei em minha filha, que chegaria de viagem no domingo. É um dos pratos preferidos dela. Vá entender cabeça de criança. Ela gosta de pizza, lazanha, macarrão com molho de almondegas, frituras em geral e gosta de estrogonofe. Para compensar, forço a barra para ela tomar sopas, caldos e saladas. E fruta sempre, claro. No mesmo sábado, tinha feito ainda um ensopado de frango. Tenho estado com um desejo irrefreável por ensopado de frango. E, pensando na janta, fiz uma receita que lembrou um tempo, há muitos anos: sopa com osso de patinho. Delícia. Daí minha irmã liga no domingo. Estou indo praí. Ok. Mesmo tendo o que servir, achei por bem reforçar as coisas com panquecas recheadas com molho à bolonhesa. E uma saladinha para acompanhar. Até porque minha irmã não gosta de estrogonofe (e de nenhum prato que leve creme de leite). Comemos bem. Depois revimos (eu e Eloá) "Cassino Royale" para acompanhar minha irmã. Vontade não faltou de repetir o drink que me deu o maior porre no ano passado, dry martini, imitando a receita, recitada por Bond nesse filme, que leva vermouth, gin, vodka e raspa de limão. Mas estava quieto depois de umas cervejas até tarde no dia anterior. Ainda assim, creio que fomos muito felizes nesse fim de semana.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Almoço com os sogros
Fiz em casa no domingo um almoço para receber a sogra e o sogro. Eles queriam comer um feijão. Boa. É sempre ótima pedida para o fim de semana. Caprichei e não deixei de estar tenso em vários momentos, pensando que tudo daria errado. Mas deu muito certo. O detalhe interessante foi ter tido a feliz idéia de fazer diferentes tipos de salada para acompanhamento - fiz três tipos. Além, obviamente, da obrigatória farinha de mandioca e do arroz branco. E um molho de pimenta que ficou especial com o acréscimo de meia colherinha de mel. O almoço deu super certo, sogros felizes, elogios reiterados. Me servi apenas duas vezes, sou um rapaz educado. Depois que as visitas foram embora, pude me servir outras duas vezes e me dar por plenamente feliz. É nessas horas que acredito que a felicidade existe mesmo...
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Monstros vs. Alienígenas
Então fui com a filha e com Eloá, no fim de semana, ver um filme de criança, desses que às vezes queremos ver mais até do que os filhos. "Monstros vs. Alienígenas", animação da Dreamworks, é divertido, tem um bom timing, mas seria muito menos interessante se não fosse a personagem "Susan" (ou "Ginórmica"), a moça que é atingida por um meteoro e fica gigantesca. Na história, vêm à tona todos aqueles filmes que tratam de ameaças nucleares, segredos militares e perigo de uma destruição mundial. O roteiro brinca bastante com a posição dos EUA como epicentro de qualquer conflito em larga escala e apresenta um presidente tão escroto e risível, que vale a pena ver. A história ganha mais movimento na segunda parte quando entra em cena um vilão bobo e vaidoso, uma caricatura de tantos vilões que já vimos nas telas. É um filme para crianças maiores, tem muita ação, suspense e até um certo clima de terror. Minha filhinha foi a mais entusiasmada defensora do filme, quando conversamos depois da sessão. Eloá gostou tanto que disse que quase dormiu em uma determinada hora. Eu estou mais no time da minha pequena. Me diverti muito.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
O pastel e o sonho
Esse era o nome de um conto de meu irmão, que não sei se ele ainda guarda. É um trocadilho entre esses alimentos e a história de um cara que come um pastel, pega um ônibus e lá dorme e sonha. Acho que é mais ou menos isso. Uso o título dele para falar outra coisa que tem a ver com pastel e esse outro tipo de sonho. Eu imaginava que certas coisas são fruto de um mundo inacessível. A feitura de pastéis, por exemplo. Pastéis remontam à minha infância. Eu nunca, quando era novo, imaginei que seria capaz um dia de criar com as próprias mãos algo que começa com poucos ingredientes (um pouco de farinha de trigo, ovo, água, uma colher de óleo, outras duas de aguardente) e se transforma em... infância. Sabe a animação "Ratatouille", quando o crítico experimenta o prato e volta no tempo para a sua época de criança (que é uma referência à obra "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust)? Pois aconteceu comigo. Fiz pastéis esse fim de semana. Antes, explico que a aventura não foi fácil como eu supunha.
Bater a massa é tranquilo, basta ter cuidado na hora de ir acrescentando a água morna. A dificuldade que encontrei foi deixar a massa bem finininha e ir colocando o recheio. Tive que ter paciência quando o rolo abria pequenos buracos na massa ou quando ela grudava na mesa, apesar da farinha. E sempre sobrava um pouco de massa e mais um pouco, que ia se acumulando. No fim, fiz a grande besteira de ir colocando os pastéis crus um em cima do outro. Eles começaram a grudar uns nos outros. Nessa hora tive uma raiva que quase jogo tudo fora. Mas respirei. Desgrudei o que foi possível. E ainda sobrou uns vinte pastéis que dava para fritar. Nessa hora, veio a boa surpresa. Os pastéis incharam, dobraram de tamanho e ficaram lindos depois de secos. Quando vi a primeira leva de pastéis na bandeja secando, todos lindinhos, fiquei muito feliz mesmo. A recompensa: estava uma delícia. Comer pastéis quentinhos é tudo de bom. Minha filha adorou, acompanhou tudo, passo-a-passo, chegou a botar a mão na massa um momento. Fiz dois tipos de recheio: carne e soja. Percebi que com a prática vai dar para ir pegando a manha. De cara, comi uns seis.
Bater a massa é tranquilo, basta ter cuidado na hora de ir acrescentando a água morna. A dificuldade que encontrei foi deixar a massa bem finininha e ir colocando o recheio. Tive que ter paciência quando o rolo abria pequenos buracos na massa ou quando ela grudava na mesa, apesar da farinha. E sempre sobrava um pouco de massa e mais um pouco, que ia se acumulando. No fim, fiz a grande besteira de ir colocando os pastéis crus um em cima do outro. Eles começaram a grudar uns nos outros. Nessa hora tive uma raiva que quase jogo tudo fora. Mas respirei. Desgrudei o que foi possível. E ainda sobrou uns vinte pastéis que dava para fritar. Nessa hora, veio a boa surpresa. Os pastéis incharam, dobraram de tamanho e ficaram lindos depois de secos. Quando vi a primeira leva de pastéis na bandeja secando, todos lindinhos, fiquei muito feliz mesmo. A recompensa: estava uma delícia. Comer pastéis quentinhos é tudo de bom. Minha filha adorou, acompanhou tudo, passo-a-passo, chegou a botar a mão na massa um momento. Fiz dois tipos de recheio: carne e soja. Percebi que com a prática vai dar para ir pegando a manha. De cara, comi uns seis.
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