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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Retorno

Volto ao blog como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse tirado férias dele como tirei férias no trabalho. Não nego que pensei em abandonar o barco, aproveitar a ausência e sair fora de vez. Mas volto. Gosto do exercício que esta página me proporciona.

Para variar, nessas férias (que acabou há mais de uma semana, diga-se) vi em cinema e em DVD o monte de filmes que costumo ver quando tenho tempo. Não vou lembrar de cabeça todos agora, mas espero ter ânimo para falar aqui sobre todos aqueles que eu for lembrando ao longo dos próximos dias.

Livros, eu lembro, li dois nesse intervalo: "As boas mulheres da China" e "Em algum lugar do paraíso", de Veríssimo. Ambos foram presentes de amigas. Nesse período também terminei de ler "Mitologia africana" e comecei "A chave do tamanho", mais um clássico de Monteiro Lobato, autor que adoro e de quem estou conseguindo fazer a minha filha gostar também. Espero poder falar um pouco mais sobre cada um desses livros mais adiante.

Descobri nessas férias que estou doente. Pelo menos, o meu fígado está. Não é nada do outro mundo, e eu não deixo de trabalhar, viver, etc. Estou com a taxa de triglicerídeos alta, a médica passou um tratamento com remédios, mudou toda a minha alimentação, recomendou ficar longe do álcool e de comidas pesadas. E, até para minha surpresa, estou seguindo tão fielmente quanto posso àquilo que a médica ordenou.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Cinema Paradiso

Filmes devem ser revistos. Gosto muito de rever bons trabalhos, às vezes faço isso imediatamente depois que o letreiro sobe. Antigamente, quando se podia entrar no cinema a qualquer hora, via o mesmo filme pelo menos duas vezes (os que eu gostava, claro). Em DVD também tenho feito isso. Rever é uma oportunidade de redescobrir um filme que não era tido como tão bom. Ou o contrário: perceber que aquele trabalho considerado genial é bem meia boca.

Toda essa introdução sobre rever filmes é para introduzir que vi ontem com a pequena o filme “Cinema Paradiso”, de Giuseppe Tornatore. Na minha memória esse era um dos filmes mais ternos, mais deliciosos sobre o próprio cinema de que tinha lembrança. Na revisão, apesar do entusiasmo bem menor, continua sendo um filme cheio de bons momentos – a maioria se passa quando o personagem do menino está em cena.

Peguei uma cópia em DVD e não reparei que era uma versão com acréscimo de 50 minutos inéditos (50 minutos!). Putz, como se deve imaginar, tornou-se um filme bem diferente. A trama ficou equilibrada entre a relação do protagonista com o Cinema Paradiso e sua história de amor inconclusa. Na versão que conhecia, tudo que aparecia em tela vinha para reforçar a relação do personagem com o cinema. Mesmo o amor interrompido que ele vive na juventude. Nessa versão, os minutos a mais de cenas inéditas não tornaram o filme mais forte ou melhor. Não é ruim ver desdobramentos para a história do garoto que amava a cabine de projeção do cinema de sua cidade e de lá saiu para tornar-se um famoso diretor de filmes. Mas também não fazem do filme uma obra melhor.

Não me incomodo com filme de mais de duas horas de duração, se assim fosse não passaria horas (dias) vendo as minhas séries favoritas. O problema não é a ter duas ou três horas, é que esse conjunto seja necessário para contar a história daquele jeito. Filme não é série. Em princípio, prefiro sempre obras mais curtas.

No final das contas, continuo gostando da história contada ali em Cinema Paradiso. Gosto do tom de fábula e ao mesmo tempo de causo contado pelos mais velhos. É daquelas histórias de cidades pequenas, com seus personagens, suas histórias, suas lendas que tanto agradam ao paladar médio. Não me desagradou ver as horas adicionais como uma curiosidade. Porém, prefiro o corte que foi aos cinemas, um corte, diga-se de passagem, que mesmo na época já achava um pouco mais extenso que o necessário.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Pequena

Delícia a fase que a minha filha está agora: a dos dez anos. Ela é inteligente, ensina muito ao pai - principalmente a mexer no celular novo que acabamos de conhecer, que ela trata como velho conhecido! Esse fim de semana vimos juntos dois bons filmes. Bem diferentes de tempo e espaço, um é o clássico de Alfred Hitchcock, "Janela Indiscreta", de 1954. O outro é o brasileiro "O Palhaço", de Selton Mello, do ano passado. Vi os dois com atraso. Os dois filmes, ela os assistiu por iniciativa própria. Sentou ao meu lado e ficou por puro interesse nas histórias. Há filmes que eu pego especialmente para ver com ela, mas não foi esse o caso desta vez. Fico muito satisfeito quando ela vê filmes ao meu lado que não são os desenhos e animações da sua idade ou os filmes de efeitos e pancadaria que tanto gostam a maioria dos seus amiguinhos. Gosto porque sei que esses filmes mais elaborados, quando tem algo a dizer para ela, que conquiste seu interesse, está ajudando a formar sua bagagem cultural. É educativo ver um Hitchcock, um Chaplin, aos dez anos. Vou sentir saudade dessas sessões de filmes com ela, um dos programas que a gente mais gosta de fazer juntos.

sexta-feira, 2 de março de 2012

A invenção de Hugo Cabret

Uma das coisas mais divertidas no filme "A invenção de Hugo Cabret" é a personagem da excelente Chloe Moretz, a pequena que é fissurada em leitura e de vez em quando insere uma palavra "difícil" em suas falas. Essa menina é um talento, recentemente fez alguns filmes marcantes da cultura pop ("Kick Ass - quebrando tudo" e o incrível "Deixe-me entrar") e é um dos atrativos desse novo trabalho de Martin Scorsese.

É preciso dizer que esse é um dos melhores filmes do diretor para o meu paladar. Gosto de muita coisa do Scorsese, desde trabalhos mais antigos como "Touro indomável" e "Taxi Drive" como também gosto de filmes mais novos como "O aviador" e "Infiltrados" (não amei, mas está longe de ser ruim o seu último filme, "A Ilha do Medo", de 2010).

A história do garotinho que vive numa estação de trem, comete pequenos furtos e sofre com a ausência do pai é muito prazerosa de acompanhar. Gosto de um filme que fala e mostra que o cinema pode ser um caminho, uma opção de vida, que mostra a beleza dessa arte. E Scorsese faz uma homenagem muito simpática a um dos pioneiros da história do cinema, o diretor Georges Miélès. E fala de uma maneira encantadora, tanto que a minha filha de dez anos amou o filme.

É mesmo um filme amável, traz aquela sensação de que se está em um sonho. O tratamento dado ao 3D, pela primeira vez me senti à vontade com esse recurso que gosto tanto de falar que odeio. Aqui gostei. É provável que tenha sido capturado pela abertura do filme, quando vemos do alto a cidade de Paris e a câmera faz um movimento lindo mergulhado de cima para baixo e  avançando pelo corredor humano na estação de trem. Uau. Coisa de mestre mesmo. Assim como a cena em que os meninos derrubam uma caixa cheia de desenhos e os desenhos parecem vivos. Um efeito de cinema, simples, mas mágico.

A menina se enamora do novo amiguinho atraído pela aventura que podem vir a viver. E de fato é isso que Scorsese nos entrega, uma aventura sofisticada e simples, bem contada, feita com gosto.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A música segundo Tom Jobim

Vontade de chorar eu tive em pelo menos dois momentos do filme "A música segundo Tom Jobim", de Nelson Pereira dos Santos. Uma é quando aparece Nara Leão cantando "Dindí", daquele jeito dela, maravilhoso. Outra é quando Elis aparece, sapeca, rindo, exuberante, cantando "Águas de Março", com o próprio Tom.

Outros momentos bons, ótimos, estão neste filme lindinho sobre as canções do compositor. E Gal Costa, no início, cantando "Se todos fossem iguais a você", é um desses momentos. Linda Gal.

Eu fiquei doidinho pra ver esse filme desde que soube que ele estava sendo feito. E queria, desde sempre, que minha filha fosse junto. Ela fez dez anos outro dia, pediu para eu não chamar mais de garotinha, quer "mocinha" agora. Tudo bem. Esá crescendo, já pode começar a ver umas coisas mais sofisticadas.

Ela, que só conhecia "Garota de Ipanema", disse ter gostado do que viu. Tanto que prometi lhe comprar o DVD quando sair nas lojas. Bom isso.

Não achei o filme cansativo. É mesmo um grande clipe, com canções, uma depois da outra, mas o trabalho de montagem é feito por um mestre e tudo é tão bem amarrado, que vira mesmo um texto sem palavras, sem explicações desnecessárias. Nem mesmo a identificação de queme stá cantando o quê. Confesso que senti falta disso, mas não foi nada que tenha me prejudicado a fruição. Entendi a proposta de Nelson e, no final das contas, achei que a identificação não é essencial.

As informações aparecem no final e vemos que constelação de estrelas nacionais e internacionais desfilam pela tela. Para mim um dos momentos de baixa foi a participação de Carlinhos Brown - olha só, em geral, gosto de Brown - mas parar a música no meio, pedir às pessoas que coloquem a mão no coração e começar a batucar mimetizando as batidas cardíacas, me pareceu meio ridículo.

Nada que prejudique o sentimento de que se está diante de um filme importante. E delicioso.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Meu tio matou um cara

Já tinha visto, mas resolvi rever "Meu tio matou um cara", filme bacana do Jorge Furtado, desta vez com minha filhinha de 9 anos. Eloá achou o filme "adiantado" pra ela, quer dizer, tratando de temas que deveriam ser apresentados a ela mais adiante (namoro, sexo etc). Eu me preocupo com os programas que ela vê e sei que nas novelas, mesmo as que são exibidas em horário de criança, tem referência a namoro, sexo, essas coisas que devemos ter cuidado em se tratando de crianças. Mas o filme de Jorge Furtado é tão simpático, e narrado da perspectiva de um garoto, que eu resolvi dar esse prazer à pequena e ficar monitorando. Mas nada que está mostrado é "pesado" ou inadequado a ponto de ser proibitivo pra ela. Até seus temas mais picantes (Déborah Seco seminua, por exemplo), eu os considerei pouco para inviabilizar o filme para a pequena. Até porque o principal é que é também uma história de detetive, com mistério em torno de um crime, suspeito de assassinato, mulher fatal, e uma dupla esperta de personagens centrais (feitos por Darlan Cunha e Sophia Reis), o herói e a mocinha. Tudo é muito leve, inteligente, e em situações bem aproveitadas pela história, que na verdade é até simples. Gosto de ver filme com a pequena, ela adora esses programas. E sempre tem depois uma conversa para falar sobre o que vimos, chamar a atenção para algum ponto e rir relembrando alguma passagem. Uma boa diversão.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Compositor

Ressuscitei o meu lado compositor popular para prestar uma homenagem aos amigos Marlla e Tiago. Fiz uma canção para Marina, a filha do casal, que é uma lindinha. Queria brincar com a idéia de que em Marina está o apelido dela, nina, e o verbo ninar. Não foi um estouro de originalidade, mas foi o que a minha cabecinha conseguiu. Só sei que depois de pronta, eu me amarrei na canção. O primeiro pedaço veio no sábado. Ontem terminei o serviço e chamei minha filha pra cantar comigo. Afobado como sou, eu precisava mostrar urgentemente à Marlla. A minha filha, claro, adorou. Adora movimento. O nome que dei é "canção pra ninar marina". E aqui está a letra:

"marina nina tiago
marina nina farias
marina acorda de noite
marina dorme de dia
nina papai/ nina mamãe
ninguém perturbe a menina
o sol da tarde não irrita
só o barulho da vida
só o desconforto/ de ter saído
do quentinho da barriga
diz aí, papai/ diz aí, mamãe
quem tem mais belos cabelos?
quem é que adora um espelho?
diz aí, papai/ diz aí, mamãe
quem, sem modéstia, é uma linda?
quem é a mais fashion menina?"

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Saudade

Período barra. Trabalho, trabalho, um monte, entrando pelo fim de semana, pelos sonhos, pelos poros. E estou acordando bem cedo para aprender a dirigir. Primeiras aulas, mas o professor reclama, diz que tenho que virar o volante com mais agilidade, pisar nos pedais na hora certa, observar os retrovisores, passar a marcha direito, ficar atento aos outros veículos, etc. Parece impossível que em algum momento eu vou estar dominando aquela máquina. Me dizem para ter calma, só foram três aulas, faltam dezessete. A filha perguntou sobre o título do blog, "As casas espiam os homens", o que me deu a idéia de fazê-la ler inteiro o Poema de sete faces de Carlos Drummond onde o blog foi buscar inspiração: "Quando nasci um anjo torto etc". A pequena empolgou, leu outros, novidade para ela que só tem nove anos, mas são poemas bem conhecidos: Quadrilha, José, Infância, Canção amiga e por aí vai.

"E eu não sabia que minha história/ era mais bonita que a de Robinson Crusoé..."

Lembrei de mim, de quando comecei a descobrir a delícia que é uma boa leitura, o jogo de palavras, o ritmo dos poemas. Apesar da correria toda, de vez em quando eu paro para curtir a saudade que tenho de mim. É um troço bom.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

"Não durmo, nem espero dormir./Nem na morte espero dormir."
Sempre lembro desses versos do incrível poema "Insônia", de Fernando Pessoa.
Lembro quando fico insone ou quando tenho sonhos estranhos e acordo esquisito. Duas coisas que me acontecem com frequência.
E foi o que aconteceu ontem: noite agitada, sonho confuso em que apereceu um personagem de temperamento delicado que não vejo há mais de dez anos - a minha primeira chefe.
Minha filha pequena fez mil recomendações ontem que precisava chegar na escola cedo para ensaiar.
Ela participa hoje de uma maratona de dança e só falava nisso.
Acordei em cima do horário e tive que correr para não ficar mal com a pequena.
Tudo culpa do sonho esquisito. E do despertador que não fez sua parte.
Tem uma frase que algumas pessoas gostam de usar quando alguém se queixa de cansaço: "quando morrer, descansa".
Mas eu tenho a sensação que me transmite o poema de Pessoa - "Nem na morte espero dormir".

domingo, 17 de julho de 2011

O grande ditador

Minha filhinha de nove anos se divertiu muito vendo "O grande ditador", clássico de Charles Chaplin, um dos meus ídolos no cinema. Engraçado como um filme sobre um contexto histórico específico, lançado em 1940, possa dialogar com uma criança. Prova da universalidade - e atualidade - do filme de um diretor incrível. A história é simples, embora trate de assunto espinhoso. Com nomes trocados, Chaplin aborda a perseguição aos judeus pelo fürer, um ditador que sonha ser o imperador do mundo conhecido. É uma sátira política ao período terrível de ascensão do fascismo europeu (sem nenhuma sutileza em sua referência à alemanha nazista e ao tirano Adolf Hitler). O filme traz todo o característico humor físico do personagem Carlitos, que aqui aparece numa das raras ocasiões com fala (Chaplin é da escola do cinema mudo e resistiu ao cinema falado). Foi um prazer rever o cinema de Chaplin. Continuo tendo como preferidos os longas "Luzes da Cidade" e "Em busca do ouro", mas "O grande ditador" é um filme tão lindo quanto outros do diretor inglês. E o famoso discurso do final é mesmo contundente sem deixar de ser terno.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Livros

Minha pequenina descobriu que adora ler.
Acompanhando esse processo, percebi que é preciso ter cuidado com isso.
Por exemplo, a mãe mandou pra ela uma edição que contém os dois livros de Lewis Carroll: "Alice no país das maravilhas" e "Alice no país do espelho".
Ela leu o primeiro com alguma dificuldade (são muitas páginas e letrinhas pequenas) e empacou no segundo.
Por não ter saco para continuar a ler, se sentia mal (achava que a mãe ia ficar chateada) e ao mesmo tempo não partia para um outro livro enquanto não conseguisse terminar o que estava incompleto.
Felizmente eu percebi o drama.
Resolvi assim: expliquei pra ela que leitura tem ser gosotosa, ela tem que querer. Não é remédio. Disse que ela tinha liberdade para mudar de livro se acontecer de não dar gostar de algum. Tem vezes que um livro não desce - é porque ela não está pronta para ele ou ele não está pronto para ela.
De alguma forma, ela entendeu.
O fato é que se sentiu desobrigada e depois disso leu com entusiasmo várias obras: "Emília no país da gramática", "O menino no espelho", "O pequeno príncipe", etc.
Recentemente, ela me chegou em casa com um livro que ganhou de um amigo da mãe.
Fui ver, era um livro sobre namoro. Disse para ela que um livro com aquele tema eu teria que ler primeiro para me certificar de que era apropriado.
Como não tive tempo pra cumprir minha obrigação, comprei um outro livro para ela não ficar no prejuízo.
Comprei "Judy Moody Salva o mundo" que já é bacana desde a capa.
Gostei muito da sinopse que li, a história é sobre uma menina na mesma faixa etaria da minha filha que se envolve em situações onde aprende sobre o ambiente, preservação de recursos naturais e animais ameaçados de extinção. É um papo ecológico que está na moda, porém não sou idiota de ignorar a importância do assunto - principalmente para uma criança que está formando repertório de vida.
O mais importante é que o livro é lúdico e trata de maneira aventuresca o dia-a-dia da menina na escola, com os amigos e com a família. "Judy Moody é uma típica menina de 9 anos, estudante da 3ª série, muito segura de si, que adora uma aventura e é famosa por suas mudanças de humor", diz o resumo.
Melhor minha pequena aprendendo sobre natureza (e curtindo aventuras de uma menina da idade dela) que acompanhando histórias melosas sobre romance.
Cada coisa no seu tempo.

P.S.: o mais bacana é que ela está adorando Judy Moody. Em dois dias, já leu quase metade do livro. Depois de cada leitura tem que vir correndo me contar o que se passou até ali. Seus olhos brilham de entusiasmo. E os meus também...

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Trinta e seis

Faço 36 anos domingo. Caramba, são 36 anos! Minha querida amiga Najara, que faz 35 um dia antes, me diz essa coisa que mal percebemos e o tempo avança. Ouvir isso (e viver isso) é forte. Muito mais que ler em mensagens clichês que nos chegam por email. Quando ainda não tinha 15 anos, sonhava chegar aos 30. Queria ser homem rápido. Achava que ali estava uma idade intermediária e perfeita. Trinta! Não garotão demais, nem velho, menos ainda "coroa". Longe disso. Acreditava que os 30 anos me daria o vigor da juventude e a experiência num mesmo pacote. Um rapagão, cara de homem, contas a pagar, responsabilidades do mundo adulto, mulheres... Os trinta chegaram e estão voando. Hoje já estou mais perto dos quarenta. Que medo! Não, não é medo. É vontade de acontecer, tipo saber que estou aproveitando bem o tempo que tenho sobre a terra (pois é, me ocorre agora essa frase "Ninguém mais verá Osama Bin Laden andando sobre a terra", palavras do presidente americano se referindo ao famoso terrorista abatido). Quero aproveitar o tempo que tenho. E isso significa viver melhor, ter mais momentos com minha filhinha, com minha mulher, com meus pais e com meus amigos. Tenho trabalhado - não é de hoje - para viver bem com Eloá. Porque, parceiro, não é fácil aturar uma mulher. Como não é fácil aturar uma filha. Aliás a convivência é um troço difícil sempre. Sei de filhos que odeiam os pais, com razão. Eu mesmo já odiei meus pais um milhão de vezes no passado (os dinossauros ainda andavam sobre a terra). Já odiei minha filha não poucas vezes (só ontem, foram duas). E canso de odiar Eloá (e me divirto fazendo ela me odiar). Mas no fim, não consigo viver sem nenhum deles. O amor é muito maior que as pedras no sapato. Essa convivência (muitas vezes forçada) tem seus momentos de inferno, mas no balanço final é o que nos ajuda a seguir. Trinta e seis anos. Claro que ainda sou um garoto (aquele, chegando nos 15), não consigo pensar diferente. Eu me sinto acumulando personagens dentro de mim. Aqui dentro estão todas as pessoas que fui. Vamos nos intercalando, todos opinam sobre tudo, uma bagunça. A palavra final é sempre do mais velho, claro. Questão de hierarquia. Estou agora terminando o meu turno e dando lugar a mais um que está chegando. Domingo, um novo comando assume o posto. Daí me junto aos outros eus. De minha parte, estarei aqui opinando e tentando me fazer respeitar. Porém, evidentemente, o 36 é que será o cara. E eu aceito isso. Como diria Shakespeare, a fila anda...

Deixo as palavras finais deste post para o poeta Carlos Drummond, que tem esses versos bonitos sobre o tempo que passa:

"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um individuo genial.

Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.

Aí entra o milagre da renovação
e tudo começa outra vez, com outro número
e outra vontade de acreditar
que daqui para diante tudo vai ser diferente.”

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sampa

Tem gente que funciona de um determinado jeito. Eu preciso de pausas para funcionar bem. Admiro gente como Eloá ou os amigos Hederverton e Luciana que tem grande disposição e gostam do pique que tem. Falo isso para dizer que a deliciosa viagem que fizemos pra São Paulo foi maior que o tempo disponível para ela. Só assim para explicar tantas atividades em três dias. Vou demorar para digerir todas as coisas. A cidade de que ouvimos tanto falar, e que ajuda a dar a cara que o país tem, merece ser visitada. Vimos o que foi possível. E são mesmo muitas coisas. Com a cidade vazia do feriado, foi possível ver tudo com mais calma. Mas é um vazio dinâmico, porque há ainda muita gente nas ruas, nas cantinas, nos bares. Fiquei muito satisfeito. Sozinho, teria corrido menos, ido a menos lugares, e provavelmente teria sido mais feliz. Mas o tamanho da felicidade que tive já é suficiente para ter sido um passeio difícil de esquecer depois. Tenho que ficar grato aos amigos que tenho e à minha mulher. E a carinha de felicidade da minha filha (antes, durante e depois) valeu não ter a alma pequena.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Minha filha se esforçou para aprender algumas canções para uma apresentação de fim de ano na escola. Um tempo depois, estimulada com a idéia e numa brincadeira feita com Eloá, ela seguiu o embalo e aprendeu a cantar a longa canção "Sampa", de Caetano Veloso. O estímulo foi a viagem que faremos. É muito bonitinho ver a pequena entoando os versos complicados (para a idade dela) e se sair bem. Ela se esforça para não desafinar nem sair do ritmo. Outro dia quis saber dela quantas músicas ela conhecia que falavam de Salvador, uma cidade rica em canções em seu louvor. Tristeza. A pequena não sabia nenhuma. Tudo bem que a maioria dessas canções que louvam a cidade foram feitas antes mesmo do pai dela nascer, "Na Baixa do Sapateiro", "Saudades da Bahia", "São Salvador". O erro maior é meu, que não estou cumprindo bem meu papel de transmistir conhecimento útil e cultura. Outro dia, ela estava lendo uma versão infantil do livro "Os miseráveis" e perdi um tempo explicando quem era Napoleão Bonaparte. É preciso admitir que as coisas que envolvem Salvador são muito mais importantes que as peripécias do imperador francês, pra ficar num só exemplo. Depois disso, comecei a cantarolar canções sobre a cidade... Aos poucos vou cumprindo minha obrigação.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

São Paulo

Viajo a São Paulo com Eloá e a filha. Estou materializando um projeto de algum tempo. E faço o serviço completo. Vou com Hederverton, amigo, a quem sempre vinculei à cidade. Ele, baiano como eu, foi viver lá há uns bons anos. Discutimos explorar a cidade juntos algumas vezes, por um motivo ou outro não deu certo. Agora vamos. É a terra de Mário de Andrade, um dos primeiros poetas que me despertaram a vida. Sempre gostei muito de Mário. E ele é um cara interessado nas coisas do Brasil, como se sabe. Foi um dos destaques da Semana de Arte Moderna, um desses eventos de tamanho impacto que hoje não seria possível reproduzir. São outros tempos. São Paulo continua sendo o coração industrial do país, conduzindo mais que se deixando conduzir (como diz na bandeira). E atraindo ainda o interesse do país. Abaixo um desses poemas deliciosos de Mário de Andrade:

"Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade.

Meus pés enterrem na rua Aurora,
No Paissandu deixem meu sexo,
Na Lopes Chaves a cabeça
Esqueçam.

No Pátio do Colégio afundem
O meu coração paulistano:
Um coração vivo e um defunto
Bem juntos.

Escondam no Correio o ouvido
Direito, o esquerdo nos Telégrafos,
Quero saber da vida alheia,
Sereia.

O nariz guardem nos rosais,
A língua no alto do Ipiranga
Para cantar a liberdade.
Saudade...

Os olhos lá no Jaraguá
Assistirão ao que há de vir,
O joelho na Universidade,
Saudade...

As mãos atirem por aí,
Que desvivam como viveram,
As tripas atirem pro Diabo,
Que o espírito será de Deus.
Adeus.

('Quando eu morrer quero ficar', Mário de Andrade)"

Rio

Fomos ver a animação de Carlos Saldanha, "Rio". Gostei de ver a cidade nas telas, especialmente porque estive lá há pouco tempo. É um filme divertido, bem feito. Confesso que fiquei um pouco incomodado com a movimentação, o filme já começa agitado, com muito samba, e segue assim até o fim. Pela resposta das crianças no cinema, Saldanha parece ter acertado no ritmo porque a turma parecia adorar os sacolejos - minha filha incluída. Também não gosto muito de todos os filmes atuais defenderem uma bandeira, nesse caso de "Rio" foi posto em questão o tráfico de animais e a necessidade de salvar a arara azul da extinção. Vi também "Enrolados", releitura de Rapunzel, do qual gostei mais. É um filme mais cínico, uma aventura com um pé grande no romance. Bem dentro da tradição da Disney, porém remodelado para os tempos modernos. A princesa é desenvolta e dona de si, sabe se safar. O herói é meio bandido (embora se regenere até o final). A vilã é menos histérica que o normal, mais sutil. Hoje em dia, as animações são caprichadas. Geralmente, o nível é bom. Bem diferente da maioria dos longas de live action. Portanto, indo com um ou outro, o espectador estará bem.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Shrek para Sempre

Só agora vi com a minha pequena o quarto (e espero) últime filme da série "Shrek", da Dreamworks. A primeira conclusão é que tudo cansa, mesmo as produções mais inovadoras chegam ao ponto de saturação. Apesar de terem ido buscar idéias com a recriação de um clássico (A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra), a sensação de esgotamento de uma fórmula é evidente. Há coisas legais, sim, e o personagem título é a melhor delas. O vilão da vez também é um atrativo à parte. Dá pra se distrair e minha filha adorou. Mas embora seja um produto acima da média, fica a léguas de distância do impacto criado pelos dois primeiros filmes. na minha modesta opinião, a partir do terceiro, começou a decadência da grife.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Angústia

Volto às boas mãos de Graciliano Ramos. Comprei o presente de natal antecipado: "Angústia". Sobre esse livro, li que era o melhor do escritor. Mostrei o presente à minha filha, ela cheirou o livro, mediu todo e se espantou com a grande quantidade de páginas. Sempre fui admirador de Graciliano Ramos. Tinha lido umas três vezes "São Bernardo", que até hoje adoro. E li "Vidas Secas" uma vez e meia (na primeira leitura, não lembro porquê, não cheguei no final). Na edição de "Vidas Secas" que li no início do ano tem um estudo sobre essa e outras obras dele. E por esse ensaio, fiquei muito curioso para ler "Angústia", tratado como filé mignon entre os livros de Graciliano. Comecei a ler. As primeiras páginas já me pegaram. Bom presente.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Onde vivem os monstros

Vi "Onde vivem os monstros" com minha filha de oito anos. No início fiquei na maior dúvida se deveria ver com ela. Apesar da baixa faixa etária recomendada, não parecia um filme para crianças. Sem falar que o diretor, Spike Jonze, faz filmes bem "diferentes", basta ver seu "Quero ser John Malkovich". Mas a pequena gostou muito. Nós dois gostamos muito. É um filme honesto, simpático, que passa longe das fábulas com final feliz e, ainda assim, se conecta com os sentimentos dos pequenos. Há uma comunicação forte ali. Pelo menos minha filha se identificou com as questões colocadas, adorou o percurso do pequeno herói. E, aqui pra nós, é fácil gostar do ator Max Records, que faz um menininho que é o charme do longa. É um conto infantil que mistura fantasia com toques de amargura, solidão, fúria. Nada disso faz do filme menos interessante. O resultado final é bom. Filme para ter em casa.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Menino no espelho

Voltei no tempo com a leitura de "O menino no espelho". É o livro de Fernando Sabido, que tomou como inspiração seus tempos de menino. Não é um livro para se ter ao pé da letra, é fantasia pura. O menino Fernando se envolve em inúmeras aventuras, algumas com o apoio dos agentes da sua sociedade secreta, dessas agremiações especiais que a gente inventa e desinventa quando é criança. No que toca à fantasia, o livro é uma ótima distração para a minha filhinha de oito anos. Mas vou esperar um pouco antes de lhe entregar para ler. Primeiro, porque achei que tem muito texto para a idade dela. Segundo, e mais importante, é que há diversas peraltices que não sei se é bom a pequena ter acesso, ainda mais diretamene da minha mão. Vai que estimula? Uma dessas coisas é a história dos meninos na escola que levam escondidos à sala de aula barata e sapo para infernizar a professora. Outra, a vez que o pequeno Fernando mete a mão na cara do valentão da escola e ganha o respeito da turma. Em outra situação, invade a casa do vizinho à noite e solta um mundo de passarinhos presos como revanche por ter levado cascudo. Não sei, não sei. Pretendo esperar um pouco mais e ler junto com ela, comentando essas passagens "mais fortes". Levo em conta que não é um livro infantil.