terça-feira, 17 de março de 2009

Obrigatório

Notícias do Planalto, que acabo de emprestar a minha amiga Najara, é um grande livro. Não estou falando apenas da sua extensão, de suas mais de 700 páginas. Estou falando da qualidade de seu texto e da abrangência de suas informações. É um livro rico, detalhado, extremamente bem escrito sobre um período recente e terrível da história do Brasil. Mário Sérgio Conti, o autor, ganhou todo o meu respeito tratando com um talento tremendo a nefasta era Collor a partir da imprensa, das relações de poder, dos conflitos de bastidor. Aqui estão, de certa forma esquadrinhados, os veículos de comunicação da grande imprensa, o quarto poder brasileiro. É um painel detalhado do funcionamento desses veículos naquilo que há de intersecção com o poder. Ninguém acredita, mas li o livro duas vezes, a segunda imediatamente depois de ter terminado a primeira leitura. Adorei o texto de Conti, acho o cara um talento e desde então fico atento a tudo que ele escreve. Sei que seu livro não é uma unanimidade, muita gente acha que ele fez um livro para reescrever a história e livrar a cara dos patrões, suavizar a forte participação dos donos de veículos na ascenção de Fernando Collor. Porém, todavia, nada me tira da cabeça que se trata de um tesouro, um livro obrigatório.

domingo, 15 de março de 2009

Elefante

Não sei porque ainda dou bola para o cinema de Gus Van Sant. Minha intuição falava que "Elefante" era uma perda de tempo. A história que foca no tiroteio trágico numa escola americana foi tema de um premiado documentário de Michael Moore, "Tiros em Columbine". Não gosto do blablablá panfletário do Moore, mas "Tiros em Columbine" é um trabalho cheio de méritos. "Elefante" é um pé no saco. Os 81 minutos mais longos que já passei diante de um filme.

Caruru

Hoje me convenci de que sei fazer caruru. A receita que fazia antes trazia os ingredientes básicos: quiabo, camarão, azeite, gengibre, cebola, amendoim, castanha e sal. Fica uma delícia, Eloá mesmo adora. Mas gostei mais depois que inclui tomates, cebolinha e pimenta à receita que fiz hoje. A primeira mudança para melhor: a cor é mais escura, avermelhada e apetitosa. A cor também deve algo ao amendoim que foi incluído com casca e tudo. Segunda mudança: os tomates e o cheiro verde fazem a diferença no sabor, e como fazem.

Procuro não descaracterizar os pratos, pelo menos enquanto estou aprendendo. Depois que estou seguro posso fazer um improviso ou outro. Foi esse o caso. Um livro sobre culinária baiana do Senac ("A cozinha baiana no restaurante Senac do Pelourinho", de 1990) ensina a receita sem tomate e cebolinha. Já vi gente dizer que "não tem nada a ver" acrescentar tomate ao caruru. Esse pessoal é mais purista. Descobri que sou um impuro. As fotos que ilustram este post eu fiz agora a pouco. A mão que balança a colher é de Eloá. Agora, peço sua licença. Vou fazer uma boquinha.

O diabo a quatro

É engraçado como a gente se mete em bobagem por causa de uma bela mulher. Aconteceu comigo. Fui atrás de "O diabo a quatro", filme nacional, primeiro dirigido por Alice de Andrade. A bela mulher que me atraiu para a roubada atende pelo nome de Maria Flor, que integra o elenco. Para mim, além de bela, Maria Flor é ótima atriz que apesar do rostinho jovem, já tem bastante coisa no currículo em cinema e TV. Ela é a protagonista de "Aline", adaptação dos quadrinhos de Adão Iturrusgarai para a TV - um ótimo trabalho, voltado para o público teen, feito com graça, com engenho e inteligência. Em "O diabo a quatro", apesar de Maria Flor ser mesmo a melhor coisa do filme, tem que ter muita boa vontade para aguentar diálogos tão ruins, uma história tão imbecil, as situações mais improváveis e o Marcelo Farias de protagonista e mocinho (argh!). O longa metragem só não entra na categoria "quero meu dinheiro de volta", porque abusa de cenas da Maria Flor com pouca roupa. É o único mérito do filme.

sábado, 14 de março de 2009

Madrugada dos Mortos

Para o meu gosto suspeito (gosto de terror B), "Madrugada dos Mortos" é interessante, apesar dos (não poucos) defeitos. Fui atrás do filme depois de ver "Watchmen" do mesmo diretor, Zack Snyder. O início de "Madrugada dos Mortos", os primeiros, sei lá, vinte minutos, é excelente: sombrio, tem impacto, não perde tempo. Bem diferente do restante do filme, que perde o ritmo e não consegue se decidir por quem é o herói da trama. Sem falar na mania de querer dar um susto a cada cinco minutos. Gosto de filme do tipo claustrofóbico. Nesse, o diretor aproveita bem (poderia aproveitar melhor) os personagens presos num shopping center, enquanto lá fora há milhares de zumbis doidos por carne humana. Não me aborreci tanto até o final, apesar de entender o fato de Eloá ter achado o filme ruim. Penso que tem filmes que se valem não pelo todo, mas por partes. Esse começa tão bem, que merece alguma consideração. “Madrugada dos Mortos” é uma refilmagem. O original tem a direção do cultuado George Romero, e dizem que é muito bom. Está na lista.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Fernando Morais

Depois da ficção, volto à reportagem e a Fernando Morais. Comecei a ler seu livro "Cem quilos de ouro (e outras histórias de um repórter)", de 2003. O livro reúne reportagens publicadas na grande imprensa, todas precedidas de um certo "making of", explicando os bastidores e o contexto em que as matérias foram feitas. Começa quente: o sequestro do empresário Guilherme Affonso Ferreira, na Bahia, em 88. O valor do resgate dá nome à reportagem e ao livro: cem quilos de ouro.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mais sobre "Asfalto..."

Não resisto e continuo um pouco mais no tema do post abaixo. Demorei um pouco com o livro "Asfalto Selvagem", de Nelson Rodrigues, porque tenho cá meus hábitos. Lia pedaços à noitinha, antes de dormir, e de manhã, antes do trabalho. Esses dias vinha dormindo mais tarde, hipnotizado pelos últimos lances da história.

Cada capítulo traz uma dinâmica, com pontos de tensão que vem e vão, e sempre, sempre termina com um gancho para a edição seguinte que vira a cabeça do leitor. Isso porque a conclusão é sempre em cima de um fato importante, crucial. Não se está falando de nenhuma novidade, óbvio. Essa é a essência do folhetim, da literatura publicada em jornal e que tem exemplos antecedentes fortes.

Não é o caso de tratar disso aqui. O que chama a atenção é que uma vez que o romance tem essa fragmentação, vira campo para Nelson fazer o diabo com seu texto e ele acaba tendo características de crônica política e policial, crítica/alusão à personalidades bem conhecidas (quantas vezes é citado o Otto Lara Resende?) e até crítica literária. Sabemos que Nelson não é flor que se cheire. Ele usa em "Asfalto..." sua munição, seu sarcasmo, seu veneno contra várias personalidades bem atuantes do Brasil à época em que o romance foi escrito. Sobra tiro até para o "gênio" Guimarães Rosa.

Há no romance um estudo de casos, com descrição de personagens com uma riqueza, com um detalhismo das reações, dos sentimentos, que é difícil ver por aí. O livro faz um desenho tão bem acabado dos personagens, visto com crueza, revirados nos seus pensamentos mais íntimos.

O juiz Odorico, cuja presença costura as duas etapas do romance, é um exemplo. O juiz é um dos perfis mais explorados da narração, com ele Nelson dá um banho de construção de personagem, pela complexidade, pela sutileza, pelo histrionismo.

Por outro lado, eu achei estranho que alguns personagens não tenham função nenhuma, zero, nos acontecimentos. Por exemplo, Engraçadinha tem três filhas e um filho homem. Duas das filhas (Arlete e Guida), do começo ao fim, não tem a menor importância para a trama. Não é estranho? Com o filho Durval e a filha mais nova, Silene, são outros quinhentos.

Dentro da ficção de "Asfalto...", os personagens também estão ali para que se fale da vida real. Os tipos servem de mote para que Nelson fale de uma série de situações, desde uso de cargo público em benefício próprio, troca de favores, extorsão, abuso de poder. Ele cita a igreja, políticos, polícia, família, tudo é alvo do olhar cru do escritor. É sobre esse pano de fundo, da realidade brasileira, que se dá todo o drama.

*

Depois de ler o livro "Asfalto Selvagem", repeti uma mania (um ritual?) que aprendi com meu irmão, que é reler as primeiras páginas ou o primeiro capítulo. Isso é bacana, porque a gente vê com outros olhos aquelas primeiras linhas, tudo passa a ter um sentido novo, diferente, maior. Nisso, não é que quase releio o livro todo de novo? Não dá, tem muita coisa que quero e preciso ler. E o tempo é curto.

Asfalto Selvagem

Terminei de ler o livro "Asfalto Selvagem", de Nelson Rodrigues. Sabemos que o agora romance nasceu em capítulos, publicado gota a gota diariamente no jornal "A Última Hora", entre 1959 e 1960. Isso explica bastante o porque de uma narrativa tão lassa, tão quebrada. A saga de Engraçadinha é fascinante. Nelson mostra um fôlego ininterrupto em mais de cinco centenas de páginas, numa leitura que pode ser atemporal. Pois é, esqueça uma citação ou outra de personagens datados como Juscelino Kubitschek e se concentre nos acontecimentos. Com alguma imaginação, poderia ser hoje.

Em primeiro plano, estão relações tumultuadas, amorosas, o desejo, o erotismo. Engraçadinha é o centro ao redor do qual tudo gira. Na primeira parte do romance, o que detona toda a ação é o investimento que ela faz para conquistar seu primo Sílvio, que depois descobrimos, é irmão dela. Na segunda parte da história, a chegada do juiz Odorico à vida de Engraçadinha é a porta aberta para ela reviver uma série de fatos do passado, cujos desdobramentos se precipitam com a chegada mais tarde de sua prima Letícia.

Detalhe: Letícia é uma mulher que gosta de mulher, lésbica. Letícia é apaixonada por Engraçadinha desde criança e retorna à vida desta para incendiar a história. O livro tem quase 600 páginas de peripécias e somos sugados para dentro dos acontecimentos, sempre com o mesmo interesse e tesão desde as primeiras linhas. Falei aqui contra os livros com muitas páginas, mas há as exceções. Ficaria feliz da vida se houvesse mais algumas centenas de páginas de "Asfalto Selvagem" pela frente.

Continua...

Watchmen

Assisti "Watchmen" ontem e achei muito bom. Tenho uma ou outra restrição, mas no geral achei o trabalho todo muito acertado, muito interessante mesmo. Estava com medo, porque vi tanta porrada no lombo do diretor Zack Snyder. Para mim que detestei seu filme anterior, "300", o quadro não se anunciava bom. Com "300", gostei de uma coisinha ou outra e morri de aborrecimento com os outros, digamos, 90% do filme (incluindo o rei Xerxes, um deformado Rodrigo Santoro). Em "Watchmen" se deu o contrário, fiquei pirado em algumas cenas e adorei o conceito todo, o clima obscuro e dark, os heróis bem escrotos e totalmente fora da ordem, o humor, o erotismo, a crítica (ok, inofensiva) ao "american way of life" e à preponderância americana no mundo.

Não acreditava em certas coisas, fiquei embasbacado com algumas cenas. Bem, eu não conhecia os quadrinhos de Alan Moore, então para mim tudo foi novidade. Fiquei, como disse Hederverton, doidinho para ler o original. Não conseguia imaginar uma história como aquela direcionada para adultos, com um visual incrível e uma trilha sonora retrô deliciosa. Nunca pensei que iria dizer isso, mas tiro o chapéu para o Snyder. Claro que o grande mérito é de quem imaginou a coisa toda, que está nos quadrinhos originais, ok, mas pouco importa uma vez que o filme teve a inteligência de se valer disso e competência para dar luz e movimento à coisa toda. Por exemplo, um personagem como o Comediante, cínico, sacana, cruel e politicamente incorreto (o cara atira numa grávida!!!) é muito bom. Imagine que esse é um dos heróis! Dá pra acreditar? Adorei.

Um dos méritos é contar a história de heróis que sofrem com problemas dos homens comuns, desde ciúmes até aquela falha na hora do sexo. E é muito legal também a cena de sexo entre o mocinho e a mocinha, mostrada sem frescura. Ora, são pessoas normais que sentem fome, sede e tesão. Por que não? Imagina isso, uma cena quente entre o Peter Parker e a Mary Jane? Huuummm, não rola. Entre Wolverine e Jean Grey? Duvido que apareça algo que eleve a classificação acima dos 13 anos. Qual produtor vai entrar nessa? Por isso, alguém tem que fazer o trabalho sujo e "Watchmen" está aí para isso, para ser adulto na temática e na abordagem, sem moralismo. O filme mostra muito sangue, muito corpo explodindo, muita porrada, que chega a doer na gente. É violentíssimo. É cru, nesse sentido, impiedoso. Mas, contraditoriamente, é também clean de uma forma que diverte. O filme diverte o tempo todo. Pelo menos, para caras sem hipocrisia e dispostos a se entregar à ficção como eu. Há muita coisa boa, surpreendente. Para mim, foram quase três horas que passaram voando.

Tudo bem, vamos às restrições. O final é bem menos digno que o resto do filme (bobo até). Os atores não são bons, funcionam e tal, mas imagino o que seria com talentos de verdade. A exceção vai para os intérpertes do Comediante e do Rorschach, que estão maravilhosos. E eles são tão importantes para a trama que compensam o restante do elenco e equilibram a balança. A história flui na tela, mas em um ponto ou outro se confunde. Não é a bagunça total que alguns críticos apontam, dá para acompanhar perfeitamente. E acho, com sinceridade, que os flashbacks, um depois do outro, não atrapalham em nada o andamento, pelo contrário, movimentam a história. Eu sempre implico com filmes que tem personagens demais, plots demais, que diluem muito a atenção do espectador e não ajudam a fixar no que importa. Mas é possível fazer isso bem. E acho que Snyder conseguiu.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Vânia

Entro em minha máquina. Volto no tempo. Se minha amiga Najara pode, eu também posso. Ainda uma notícia de Carnaval: na quinta-feira, primeiro dia aqui em Salvador, cervejinha do lado, assisti na TV ao show "Pierrot e Colombina", em que a gracinha Vânia Abreu canta ao lado do marido, Marcelo Quintanilha. (Detalhe: sempre que vejo show dela, lembro de Sérgio, que adorava a rapariga.) E esse show foi especialmente nostálgico. As canções são bonitas, nem todas são clássicos de Carnaval, mas evocam a festa. Todas cantadas em tom suave e gostoso, bom para ouvir qualquer hora do dia e qualquer época do ano. Quem vir a lista de canções, vai falar em Carnaval antigo. Os mais espertos, em Carnaval eterno. O disco traz coisas preciosas: "Manhã de Carnaval", "Camisa Amarela", "Não Deixe o Samba Morrer", "No Cordão da Saideira". E pesa a mão em se tratando de Chico: "Quando o Carnaval Chegar", "Noite dos Mascarados" e "Quem Te Viu, Quem Te Vê". Delícia.

terça-feira, 10 de março de 2009

Alice

Alice Braga é uma menina boa, talentosa. E em "Cidade Baixa", de 2005, primeiro filme dirigido pelo baiano Sérgio Machado, ela está especialmente interessante ao lado de Lázaro Ramos e Wagner Moura. Faz tempo que vi esse filme, de fotografia linda, que traz um drama amoroso (que por pouco não se torna tragédia) ao cenário das ruas da Cidade Baixa, em Salvador. Vi o filme duas vezes, a última vez em Alagoinhas. A imagem acima, de Alice Braga no filme, passa a ilustrar o blog. Este blog, eu sei, está diferente a cada dia.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Roth

Nunca li Philip Roth. Mas depois de ver "Fatal", filme baseado em seu livro "O Animal Agonizante", leio por aí que esse americano é um dos melhores escritores de seu país. Fiquei curioso.

domingo, 8 de março de 2009

Fatal

"Fatal", filme de título nada a ver (o original é "Elegy"), baseado em obra de Philip Roth é mais interessante do que eu esperava. Foi com satisfação que atravessei suas quase duas horas. Ben Kingsley é um ator de que gosto bastante e sobre o qual pouco vejo falar. Aqui, ele está muito bem, dando vida a um herói angustiado e fragilizado. Penélope Cruz, embora não seja ótima sempre, pode funcionar muito bem com a direção certa. Gosto de filmes com poucos atores e poucos recursos, desde que haja história para contar. Com esse "Elegy" há questões eróticas, questões românticas e de relacionamento em jogo, mas a velhice ou sua inevitabilidade talvez seja um ponto mais importante. Fiquei um pouco pensativo sobre o argumento de que a velhice chega devagar e quando vemos já está aí. Há a questão da perda. Durante o filme, vemos perdas importantes que ocorrem ao personagem principal que angustiam pelo inevitável. Gosto mais da segunda metade do filme, após as apresentações dos personagens. Sai de cena aspectos mais cultos, com citações diversas a artistas e obras de arte, e entra em foco aspectos mais comezinhos, mais humanos (que é o que mais importa). O filme corre tranquilo, as coisas parecem acontecer mais dentro dos personagens que fora. Aquilo que não é dito (e muitas coisas não são ditas) ajudam muito ao clima algo poético do filme. Como se fosse o espectador fosse instado a colaborar com a narrativa. É um filme triste, mas leve e agradável de ver. Mesmo que fale de coisas duras.

Doce e arde

Juntei mel e pimenta. Não acho que inventei a roda, calma. Mas para um cara meio sertanejo, com a influência culinária de minha mãe, do quase sul da Bahia, é uma união inusitada. Sabemos que há saladas com variados tipos de ingrediente e combinações, inclusive as que incluem mel. Há mais variedade de saladas no mundo que tipos de humor feminino. A inspiração de juntar duas colheres de chá de mel ao molho de pimenta veio da matéria de capa do Paladar, suplemento de gastronomia do Estadão. O suplemento fala em molho para saladas, fiz uma licença poética e trouxe a idéia para o molho de pimenta. No Paladar, há uma fala aspeada do chef Francisco Rebêlo sobre molho para saladas. Diz assim: "Um molho para ser equilibrado deve levar um ingrediente ácido, um adocicado, um picante e uma gordura. Por exemplo: vinagre, mel, mostarda e azeite". O mais inusitado talvez tenha sido usar o molho no meu almoço. Sim, fiz caruru, frango ensopado e arroz branco. Estou treinando. A mistura de arroz, frango, caruru e molho levemente doce e ardido é deliciosa. Até Eloá que não gosta de molho de pimenta caiu pra dentro.

Danay Garcia

Uma série cheia de machos desde a primeira temporada, como "Prison Break", não foi tão pródiga assim em se tratando de presença de moças belas. O que é por si só um erro. Mas sempre há tempo de se corrigir um mau passo. E a correção veio agora com a atriz cubana, Danay Garcia. Boa na tela (só eu achei que a câmera se enamorou dela?), gosto também de suas expressões e da fragilidade que transmite nas horas muitas de tensão da série. Ela é a namorada de um personagem chave dessa terceira temporada que atravesso. Aliás, essa é a temporada menos legal na comparação, depois de uma session two eletrizante. Embora eu continue ligado, o bom nível caiu, infelimente. Mas sempre há compensações. Danay, Danay, Danay...

Linha de Passe

Gosto de Walter Salles, muito. Mas não amei "Linha de Passe", seu último filme, sobre o qual trazia grande expectativa. Salles diz que seu filme é simples e pequeno. Não sei, achei o filme meio um rascunho de alguma coisa. Todo mundo sabe que Salles é documentarista de formação e todos os seus filmes têm esse olhar de realidade, de documentário mesmo (com exceção, talvez, de "Água Negra"). Desse "Linha de Passe", eu não gostei muito do filme como um todo, embora tenha gostado bastante de algumas partes. E mais ainda de alguns atores. Gosto do núcleo principal, uma família sem pai, onde cada um está atrás de alguma coisa. Os quatro filhos são jovens (bons atores, incluindo Vinícius de Oliveira, de "Central do Brasil"), um evangélico, um aspirante a jogador profissional, um motoboy e um garoto menor que quer conhecer o pai. A mãe é a Sandra Coverloni, melhor atriz em Cannes que, sorry, não me mobilizou. Fiquei mais impressionado com os filhos, especialmente o evangélico, que entra em parafuso e questiona suas escolhas. Não sei, Salles é um cara do bem, cheio de boas intenções e bons sentimentos sobre o Brasil. Seu talento para contar uma história continua (apesar de eu achar "Diários de Motocicleta" um saco). Ele traz aquela coisa de usar o mínimo a palavra, algo que está forte nesse filme. Às vezes, quando o diálogo entra, há mais palavrões que palavras normais, o que "suja" excessivamente os textos (o que é um problema de muitos nacionais esse de não saber dosar a quantidade de "porra", "merda" e "puta que pariu" dos seus filmes). Achei alguma coisa incômoda o ritmo do filme, me pareceu vazio no início e cheio no fim, corrido até. E me incomodou demais a alternância de cenas e imagens solares com outras escuras, onde mal se vê os personagens. Talvez Walter Salles tenha razão, talvez "Linha de Passe" seja mesmo um filme simples e pequeno. Mais pequeno que simples, aliás.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Fãs

Não sou tiete, nem fã. Não quero ser indelicado, mas detesto essa raça ruim de gente. Claro que gosto de determinadas personalidades pelo que dizem, pelo que fazem, pelo talento, pela integridade, pela beleza (why not?), são muitos os motivos (e alguns bem fúteis, paciência). Mas nada, absolutamente nada, me faz, nem fará, agir como um desses fãs que ficam como mosca em cima dos caras, das moçoilas e senhoras famosas. Putz, até uma foto junto eu acho desagradável. Sérgio, meu amigo, era o contrário de mim. Se tivesse oportunidade, queria foto, queria contato com todo e qualquer personagem célebre que pintasse, os que ele admirava e os "nem tanto" (e os que mais pintava eram os "nem tanto"). Tô fora. De minha parte, é o artista esnobando de lá e eu esnobando de cá. Gosto das coisas como elas são. Esses personagens fazem o que sabem fazer, de longe, e eu faço o que sei fazer, que é ficar na minha. Nesse sentido, sou mais mosca dos meus amigos. Quero estar por perto, invento motivos, almoço, encontro, barzinho, escrevo pra eles, me chateio se eles somem. As personalidades realmente importantes para mim são as pessoas próximas cujo único pecado que cometeram foi o de me cativar. Agora tão frito.

Carboidrato, gordura

Levei hoje a maior reprimenda, com direito a dentes cerrados e respostas pesadas como pedras. O motivo é que sou amigo de mulheres. Melhor: de uma mulher específica. Simples assim. Não vou entrar em detalhes para não expor minha patroa, mas em verdade vos digo, o ciúme é uma cobra venenosa. Gosto demais de minha mulher, é linda, é graciosa, é inteligente e, embora não seja muito de cozinhar, hoje em dia até um feijão delicioso ela incluiu entre as suas prendas. Sempre pensei que não ia largar o osso fácil. Mas a certeza disso só veio mesmo depois que ela acertou no feijão. Fiquei rendido. O fato é que uma vida boa, cheia de amor e cumplicidade, sofre tremores medonhos por causa de uma bobagem ou outra. O ciúme é um mal da humanidade. Um pouquinho eu até gosto para sentir que sou querido (insegurança?). Mas em doses cavalares não faz bem a ninguém. É como carboidrato e gordura. Se não temos medida, a coisa fica feia mesmo.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Visita

Meu irmão esteve ontem em minha casa com a namorada suíça. Ele é professor, que acaba de concluir o doutorado, ela é artista plástica, que inicia um mestrado na França, onde mora. Foi uma noite boa, não apenas porque começou com a discussão de textos ficcionais que meu irmão escreveu em português e pediu para Eloá traduzir para o francês. A noite foi boa principalmente na parte B. Sentamos para a refeição da noite: sopa de feijão com legumes, cuzcuz de milho, banana da terra cozida, pão, café com leite e suco de maracujá. Ela, a namorada, comeu cuzcuz de milho pela primeira vez. Adorou. Ela tenta aprender português, se esforça para falar frases completas nesse idioma, mas não tem jeito, no meio começa a falar francês. Língua que meu irmão e Eloá entendem bem (e eu, nada). Foi uma refeição em duas línguas. O engraçado era a cara de espanto da suíça quando a gente usava uma palavra fora do contexto. Quando falei que tal coisa era um pepino danado, ela secundou: "pe-pino?!". Outra hora deu um nó no pensamento quando me ouviu falar a expressão: "porrada de coisa". No fim saiu feliz. Nós também gostamos muito da visita.

terça-feira, 3 de março de 2009

Watchmen

Em outros anos fui muito mais suscetível à onda do Oscar. Até o ano passado, começava a me dar alguma coceira ficar sem ver os filmes em disputa ou tinha que ver logo depois os vitoriosos. Este ano não me animei muito, estou entediado e, ademais, é sempre bom ter a minha própria agenda. O fato é que não corri a ver a lista de premiados. Houve aqueles filmes que assisti antes e coincidiu de estarem na disputa. Não me incomodo de correr o risco de ficar sem assunto em alguma mesa de bar. Meus amigos são leais, haverão de entender. Não tenho a obrigação do ofício de estar atualizado (o que não seria mal). Mas graças ao bom Deus, minha obrigação é com o meu prazer de cinéfilo (o que é ainda melhor). Estou em dívida com o cinema - e com a adorável Kate Winslet, vá lá. Mas acho que minha próxima peripécia no grande ecrã será um blockbuster chamado "Watchmen". Paulo Francis, que admiro muito, dizia que a cultura pop é uma montanha infinita de lixo. Discordo. Adoro a cultura pop. Vou ver "Watchmen". Ainda mando na minha vontade.

Meu medo: apesar da expectativa, esse "Watchmen" é dirigido pelo mesmo cara à frente de "300", Zack Snyder. E "300" foi uma bela porcaria... (pelo menos, bem menor do que eu esperava). Estou apostando em que o filme não será tão ruim apenas por causa do material original, assinado por gente muito boa, como Alan Moore e David Gibbons. Depois das decepções com "V de Vingança" (outro original de Alan Moore) e o próprio "300" (original de Frank Miller), bate um pouco o receio...

Palavrão

Nunca me levo tão a sério. Mesmo assim, no trabalho, sou aquele personagem que quer acertar. Não por bondade ou humilhação (ou humildade), mas por algum fiapo de capricho, zelo. E principalmente: por respeito pelo chefe que me emprega e pelo cliente que me confia os serviços de que precisa. Fora do trabalho, jogo a gravata longe. Sou da opinião do Vinícius, contra tudo que oprime o homem a começar pela gravata. Sei rir de mim e quero os amigos para rirem junto comigo. Daí (mudando totalmente de assunto, sorry) fiquei ontem pensando em palavrões. Não tenho regras para isso. Sou capaz dos meus, mas não se assuste. Não sou tão "ão" que envergonhe o colega nem tão "inho" que o enlouqueça de tédio. E, aqui pra nós, o que é um palavrão? E só faço isso naqueles momentos pós gravata. E, de preferência, sem crianças na sala.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Boston Legal

O melhor de Boston Legal é o seu cinismo escancarado, seu erotismo desavergonhado, a sua mão dada com o politicamente incorreto. Os dois principais advogados, Alan Shore (James Spader) e Denny Crane (William Shatner), encarnam um tipo sem noção que no contraste com os outros personagns, dá esse resultado sedutor que torna muito difícil parar de assistir os episódios. Bastava o talento de James Spader para atrair a minha atenção. Mas a série foi adiante: as histórias são ótimas, o elenco de apoio é bem bom (e de vez em quando é renovado, o que é uma vantagem) e os diálogos são deliciosos.

Ovos no molho de tomate

Boa: ovos cozidos no molho de tomate. Descobri no blog de uma antiga colega de faculdade, fui comprovar e gostei. O molho pode ser simples, começando com cebola e alho dourados no azeite, depois acrescentamos os tomates pelados batidos. Tempera-se com sal, pimenta moída, oregano e pimenta calabresa. Vai ótimo com pão quente tostado no forno.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Bolt

Fui com minha filha e com Eloá ver "Bolt - O Supercão" ontem no cinema. Foi o resultado de uma troca que fiz com ela, porque não queria levar a pequena para o Carnaval. Acho que ela saiu ganhando. A animação é muito divertida, o pulso do filme é de ação, mas ao mesmo tempo é comédia, aventura e road-movie para crianças. O cãozinho é muito carismático, leio dizer que o John Travolta faz toda a diferença no original, mas gostei muito da versão dublada em português. Me amarrei na gata de beco, com todo aquele charme, e o hamster é hilário. Os olhos de minha filha brilhavam e ela passou o resto do dia elétrica, certamente por causa do filme. Bolt concorreu ao Oscar junto com Kung Fu Panda e Wall-E na categoria de melhor filme de animação. Os três são muito bons. Mas Wall-E tem a Eva e aquela homenagem ao cinema mudo que são bonitas demais. E ressuscitar o robô vilão de "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, foi outro acerto. Kung Fu e Bolt são divertidos e envolventes. Mas Wall-E é poesia.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

William Hurt

Finalmente comecei a ver a segunda temporada de "Damages", meu vício no ano passado (um deles), com Glenn Close e Rose Byrne (ótimas). Nessa season two, temos a inclusão de um novo e misterioso personagem encarnado no ator William Hurt, que é maravilhoso. Seus duelos com Glenn Close, sua dubiedade, seu temperamento instável, dão ao personagem uma complexidade fascinante. A série é de alto nível, mas quando Hurt está em cena é ainda mais saborosa.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

9

Foi uma questão de honra para mim quando Eloá disse que não amou a minha omelete. Não falo isso com convencimento. Gosto de desafio. Achei que poderia mexer na receita até chegar num ponto de consenso. Eu não sabia fazer omelete até outro dia. Depois que aprendi, de um jeito bem simples e básico, fiquei muito feliz: apenas ovos e um pouco de sal e pimenta, além de um pouquinho de ervas por cima depois de pronta. Não precisa nem de recheio. Mas Eloá queria com o recheio, vamos lá. Fiz umas opções pensando nela. Eloá não se entusiasmou com as que fiz com queijo e presunto, nem com a de carne, menos ainda com a que recebeu tomate, cebola e pimentão picados. Eu adorei todas essas opções. E em todas colocava um bocadinho de alecrim como toque especial. Só ontem de manhã eu consegui agradar um paladar tão exigente como o dela. E a mudança não foi radical. Quando ainda estava mexendo os ovos com o batedor de arame, acrescentei uma colherinha de chá de farinha de trigo. Bastou. O resultado foi que a omelete ficou mais sólida, menos macia, mas fácil de manipular sem quebrar. No sabor, o gosto da farinha aparece, sutil, mas aparece. Foi o suficiente para Eloá me ligar para dizer que a omelete estava ótima, nota 9. Adoro desafio. E não vou descansar enquanto não levar um dez.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Asfalto selvagem

“Aquela voz de homem, densa e, apesar disso, de uma doçura viril, a assustava. Sentia, realmente, um medo instintivo que, ao mesmo tempo, era de uma voluptuosidade quase insuportável. Todas as raízes do seu ser estavam crispadas. Engraçadinha já olhara várias vezes os antebraços do médico e pensa com uma angústia deliciosa: — “Parece gorila!” Ao mesmo tempo, imaginou-se raptada, numa floresta, por um macaco gigantesco. Nua, nos braços do King-Kong do filme.”

Lendo Asfalto Selvagem dá para entender bem o escândalo que Nelson Rodrigues causou na época. O livro foi publicado em capítulos, diariamente, por seis meses, no jornal “A Última Hora”, em 1959/1960. Estou lá pela página 140 e desde a primeira página é difícil cada vez que preciso interromper a leitura. O livro é magnético, fascinante, e sai derrubando tudo pela frente. Quando a gente pensa que a ousadia foi longe, aparece outra provocação e outra e mais outra. Mesmo hoje em dia uma história como a de Engraçadinha seria provocativa. Há 50 anos então... O melhor de tudo é que Nelson tem um estilo bem próprio e a qualidade do seu texto é monstruosa. Muito, muito bom.

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Nasce um clube de leitura


Acho livros uma diversão da maior importância. Gosto de cheirar os novinhos, de recuperar os mais velhos e de distância dos estropiados. Tenho os meus autores favoritos, os livros marcantes de diferentes fases da minha vida e sempre estou acompanhado de algum exemplar. Por isso recebi com muito entusiasmo a idéia das meninas do meu trabalho de fundar um clube de leitura, o Boca de Fumo. O nome surgiu como uma brincadeira e ficou. Tanto melhor. Na imagem que ilustra este post estão os primeiros bravos membros do clube que já começou a funcionar. Da esquerda para a direita estão: Admilson, Flávia, Marlla, Najara e Eduardo. É o início de um acontecimento revolucionário - ao menos para os cinco garotos de Liverpool, digo, Salvador.

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Cinema

Minha amiga Marlla errou. Não é verdade que eu deixei o cinema pela cozinha. Não é porque eu tenho mais histórias para contar sobre peripécias na cozinha do que sobre a sala escura que abandonei a sétima arte. A verdade é que eu sou mesmo uma cara de lua, tenho minhas fases. Ultimamente, no campo do audiovisual, tenho visto mais séries. Especificamente Prison Break. Estou na dívida com "Alice", "Dexter" e até "Demages", que adoro, e já estou de posse de alguns episódios da segunda temporada. Como explicar isso? Não vou ao cinema há uns dois meses. Em compesação, fui a muitos programas com amigos, com cervejinha e tal. Ok, pode me chamar de cinéfilo de meia tigela. Devo ser mesmo. Mas não é porque não estou com uma mulher que não penso nela, não tenho saudades. Tenho saudade dolorida de ver filmes na tela grande. Era a minha única, admitida, amante. Ultimamente só tenho feito essas traições em pensamento. Está vendo como sou um cara certinho? Se apostar nisso, ninguém erra.

Fácil ser feliz (em dez lições)

1. Se brigar com sua mulher, não fuja pra casa da mãe de madrugada (é feio).
2. Leia bons romances (os escrotos são os melhores).
3. Faça exercício (sexo e lavar prato não contam).
4. Evite gente chata como o Reinaldo Azevedo e o Millor Fernandes.
5. Ande descalço em sua casa (e nua na minha, se for mulher).
6. Visite um hospital para crianças com câncer uma vez por ano (e um puteiro de vez em quando).
7. Recite um poema em voz alta toda semana (se o poema esculhambar o governo, melhor).
8. Leia o "Eu gosto de uma coisa errada", o "Edu no Brooklyn", o "Fete Sexy" e o "Blablablog" todos os dias.
9. Não deixe de acompanhar o "As casas espiam os homens" nem quando estiver no, sei lá, "Boca de galinha" (leva o laptop, pô).
10. Aprenda a gostar de música clássica – Wando, Amado Batista e Waldick Soriano são um bom começo.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A linda Daniela Sarahyba diz que recebe cartas com foto e com propostas de casamento do mundo todo. Já recebeu proposta até de um soldado no Iraque. Com essa, eu desisto de mandar minha cartinha pra ela com um par de alianças. Detesto não ter sido o primeiro a ter uma boa idéia.


Pesadelo

Na outra noite, eu tive um pesadelo. Eu estava preso em um cubículo, onde mal podia esticar as pernas. O teto era baixo, não me permitia ficar em pé nem agachado. Parecia ser uma brincadeira perversa. O local era iluminado, embora isso não ajudasse em nada minha terrível sensação de claustrofobia. Acordei com esse sentimento ruim, era madrugada, e fiquei assim até voltar a pegar no sono. Não sei explicar essas coisas. Sei que estava muito cansado, se aproximava de uma hora da manhã quando fui dormir. Entre os pesadelos que já tive, esse foi um dos mais cruéis. De manhã, acordei normal. Quer dizer, ainda estava bastante impressionado. Depois do banho frio, voltei a me sentir o super-herói de sempre. Pelo menos até chegar a hora de dormir de novo, nada me dobra.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Lasanha bolonhesa

Desisti do macarrão com molho de tomate. Pela primeira vez, fiz uma lasanha à bolonhesa. E fui no original, seguindo fielmente a receita italiana. Fiquei fascinado com a mistura de dois molhos (bolonhesa e béchamel) alternando nas camadas de massa e queijos (mussarela e parmesão). Usei a massa que não precisa cozinhar antes, pré-pronta, mas na hora "h" fiquei com medo de o gosto não ficar bom e usei bem menos do que deveria. Fui extremamente econômico com a massa. Achei o resultado delicioso e Eloá também, mas ela fez uma observação interessante, poderia ter pelo menos o dobro de massa, sem grandes prejuízos. A verdade é que quase não sentimos o gosto da massa. Estava lá, mas sumiu. Ficou macia, cheirosa, linda e os dois queijos derreteram e fundiram numa combinação ótima. A melhor lasanha que já fiz.

Carnaval

Meu Carnaval é outro. Às vezes pareço um personagem de Jorge Amado. A mimosa era um bar no bairro Dois de Julho. Na era mesozóica, eu fui umas duas vezes durante o Carnaval e foi o suficiente para que essas passagens ficassem em minha lembrança. Ali perto, também no Dois de Julho, tomei cerveja gelada no Líder, lembro uma vez que estive com Franklin fantasiado (ele) de marinheiro.

Estive também algumas vezes no Toalha da Saudade, nos Aflitos, bar da família do compositor baiano Batatinha. Tinha um bar e restaurante nas imediações da Piedade, já chegando para o Politeama, era um corredor, cujo bar ficava mesmo lá no final. Eu e Sérgio íamos ali, no meio da folia, comer alguma coisa, uma dobradinha, uma feijoada, um frango assado. Era a mesma família que tomava conta todo ano, todo Carnaval. Eu e Sérgio ficávamos paquerando a filha mais nova que servia de garçonete. Próximo ao Campo Grande, eu fiquei doidinho por uma negra alta, linda, de um desses blocos afro. Íamos sempre à mesma barraquinha, no Corredor da Vitória, tomar água de coco.

Há muitos lugares de que tenho saudade no Carnaval. Minha lembrança maior vem do circuito do Centro da cidade. Ia ao Pelourinho e passava o dia lá ouvindo as marchinhas e pulando de um bar para outro. Comecei a brincar Carnaval sozinho em 92, 93. São dezesseis anos. E muito antes já estava atento ao Carnaval, acompanhava e sabia das coisas. Muita coisa mudou na cidade, na folia, em mim mesmo. Gosto de sentar num lugar que permita ver o movimento das pessoas. Fui muito atrás do trio elétrico. Não havia como não ter ido. Mas sempre gostei mais de ficar num canto com os amigos, curtindo a movimentação. Dando nota às gatinhas soltas na rua. O Carnaval baiano é uma delícia.

Tenho essa lembrança de Moraes Moreira em cima do trio. De Luis Caldas. Caetano Veloso, sempre. Margareth Menezes. Acompanhei o surgimento de Daniela Mercury, o canto da cidade. Gostei de cara de Gerônimo e Lazzo Matumbi (até hoje gosto). Aguardava com ansiedade o encontro de trios comandado por Osmar Macedo e Armandinho. E os novos que hoje são veteranos: Netinho, Olodum, Araketu, Timbalada, Banda Eva, Chiclete com Banana, Asa de Águia. Gosto de Cláudia Leite também por esse motivo, por ela levar adiante essa bandeira. Por beber dessa água. Aquele primeiro CD dela mostra que ela cresceu ouvindo tudo isso e amando tudo. Fez disso sua profissão de fé, sem frescura, se jogando mesmo, sem rede.

Sempre gostei de Carnaval, sempre gostei de a Bahia estar em evidência por causa dessa movimentação cultural, comercial e artística. O Carnaval de Salvador não é apenas a força da grana. Quem insiste nisso é míope ou mal intencionado. E não vejo mal nenhum em saber fazer dinheiro vendendo algo, sabendo vender bem seu produto (Carlinhos Brown é um ótimo exemplo disso, mas não só ele). E não me importo que as pessoas façam fortuna à custa da música de Carnaval. Não sou invejoso a esse ponto.

Dizem “O Carnaval não é mais o mesmo”, “Perdeu a essência”, muita bobagem. Eu queria muito saber o que é que não muda, que mantém a essência eterna, pura. Enquanto os bobões falam, eu boto a cerveja pra gelar. Nem sei se vou sair este ano, programei ficar em casa, com meus filmes, fazendo cafuné em Eloá. Talvez no último minuto acabe indo pra rua todos os dias. Indo ou não, acho que o Carnaval é o que há. Citando (de novo) Arto Lindsay, “Carnaval é tudo”.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Domingo

No próximo domingo, uma macarronada com molho de tomates frescos pode ser a minha redenção.

Nelson

Deus é bom, sabe o que faz. Minha amiga Najara também. Então me caiu às mãos, sem que eu esperasse, o livro "Asfalto Selvagem: Engraçadinha, seu amores e seus pecados", de Nelson Rodrigues. Hoje mesmo principiei a ler. Começa com uma introdução de Ruy Castro (que fez aquele magistral trabalho "O Anjo Pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues") e cheguei até o primeiro capítulo, que em poucas linhas já diz muito: pincela os personagens, Engraçadinha, o marido Zózimo, os filhos, o pai dela. Sinto uma euforia tremenda de saber em que águas vou estar nos próximos dias. Beber em Nelson Rodrigues é presente de ano bom. Meu 2009 começou agora.

O Mago

Terminei de ler "O Mago" anteontem, na quarta-feira. Continuo achando 600 e poucas páginas muito, mas me entrego: o livro é delicioso. O primeiro capítulo é o melhor de todos, quando o biógrafo Fernando Morais mostra um retrato atual de Paulo Coelho, uma personalidade internacional, reconhecida e prestigiada em todos os lugares. O primeiro capítulo é forte, principalmente pelo contraste com o que vem em seguida: uma vida de não poucos casos terríveis e sustos, a começar pelo nascimento (o livro explica como Coelho sobreviveu depois de ter nascido morto).

Fernando Morais mostra uma ou outra coisa desagradável da vida de Coelho, mas o tom geral do livro é de defesa do mago e de condescendência. Ele detalha como se deu o massacre da crítica brasileira e relata casos que mostram o descaso do poder oficial. Coelho aparece como um cara injustiçado, que se fez sozinho, enquanto nunca deixou de defender seu país. É um retrato simpático demais, o que deixa o leitor (eu, pelo menos, fiquei) desconfiado. No que é mais importante, a qualidade do texto, a boa organização do material recolhido e a riqueza de informações, nisso Morais foi incrível.

Terminei a leitura desnorteado, identificado com a efusão que Dora Kramer disse ter sentido. Se tivesse conseguido seu e-mail, como ela conseguiu, também teria escrito a ele um "parabéns". O livro vale quanto pesa.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Birthday

Jennifer Aniston faz quarenta aninhos hoje. Poderia citar uns dois ou três filmes dela que valem a lembrança e a homenagem. Mas nenhum deles supera o que ela fez em Friends, a delícia que era vê-la em cena com os outros malucos. E eu preciso confessar que também tenho uma queda por mulheres de quarenta. Se não tivesse, passava a ter a partir de hoje...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Com essa fase de dependente químico de "Prison Break", deixei outras séries de lado. No meu computador, aguardam vários episódios de "Dexter", "Alice" e agora também da segunda temporada de "Damages". Preciso administrar isso, já estou ficando seco de saudade. E Marlla está certa, daqui há pouco vem aí a segunda temporada de "Em terapia" para embolar mais o meio de campo.

Hellboy

Apesar dos elogios na imprensa, "Hellboy 2 - O Exército Dourado" está no mesmo nível do primeiro filme: os dois são um pé no saco. Em ambos, segurei meu ímpeto de quebrar a TV apenas por causa do personagem título, que tem esse cinismo que é legal (e não é um Guillermo Del Toro que me vai dar esse prejuízo, basta o dinheiro perdido no aluguel do filme). As histórias são tão interessantes que provocam um bocejo atrás do outro. Del Toro entope a trama com personagens esquisitos, sem um pingo de graça. Os filmes são barulhentos e sem pegada. O segundo é um pouquinho mais movimentado e cativante que o primeiro, isso única e exclusivamente por causa da entrada em cena do personagem do príncipe parricida. Mas não creia que estou fazendo um elogio. Eu costumo ver todos os filmes que causam algum barulho, que provocam alguma conversa. Às vezes, quebro a cara legal e tenho que aguentar bombas como esses hellboys da vida.

Só para constar: ao contrário dos dois hellboys, o filme "O Labirinto do Fauno", do mesmo diretor, é muito bom.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

"Uma coisa incrível..."

Ouço menos música que gostaria. Ultimamente tenho feito um esforço para ter tempo de ouvir mais coisas. Depois que cheguei de Alagoinhas, trouxe a mania de ouvir as canções no ouvido com fone em um desses pen drives. Mas me irritava demais ficar dividindo aquele troço com os barulhos do mundo ao redor. Em casa, gosto de ligar o som enquanto estou cozinhando. Virou uma mania, aliás. E tenho me esforçado para ouvir os meus discos costumeiros junto com coisas que não ouço tanto. Por isso me derreti ouvindo vozes boas como o de discos recentes que comprei, tenho ouvido Edith Piaf, Norah Jones e Pitty com alguma freqüência. E ouço bastante uma cantora clássica baiana pouco conhecida, a Cláudia Leite. Eu sempre prefiro ouvi-la enquanto vejo as imagens em DVD (porque nada se perde dos meneios de cabeça e do balanço de braços, pernas, cintura). É um negócio e tanto. Eu sou do time do produtor norte-americano Arto Lindsay, que ficou bobo quando viu pela primeira vez uma baiana dançando no Carnaval. E me disse numa entrevista que fiz com ele que "era uma coisa incrível, linda, do outro mundo". Concordo. Não todas as moças nos chamam mais forte o coração, mas algumas... As razões e desrazões do amor são mesmo difíceis de explicar.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Há uma lista que gosto de imaginar, a dos livros que não li. São livros que até comecei a leitura, mas não me capturaram a ponto de ir até o final. Essa questão tem uma coisa curiosa, porque livro tem muito a ver com o momento. Às vezes não estamos bem com um autor, um determinado livro. Eu tive meu momento com um escritor que adoro, Gabriel Garcia Márquez. Comecei a ler "Crônica de uma morte anunciada", fiquei magnetizado pelas primeiras páginas e depois empacou. Resolvi parar um tempo, uma ou duas semanas, e comecei tudo de novo. A leitura fluiu perfeita (tanto que emendei com outro livro dele chamado "Do amor e outros demônios"). Mas nem sempre me dou essa chance de recomeçar. Em geral, quando um livro não desce, largo de canto e parto para outro. Esses pensamentos me ocorrem, porque estou lendo a biografia de Paulo Coelho e nunca me animei a ler nenhum livro dele inteiro. Tentei com "Veronika decide morrer" e a leitura morreu na primeiras vinte páginas. Ficava lembrando da frase de, acho, a Rachel de Queiroz, que havia comentado sobre o autor de "O Alquimista", que não leu e não gostou. Cresci sabendo que ninguém sério, com o mínimo de pretensão intelectual, poderia ler e gostar de Paulo Coelho. Era o atestado de alienado e inculto. Posso até ler e não gostar nos dias de hoje, mas essa pecha antecipada é muitíssimo suspeita.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Estou chegando ao fim do livro "O Mago", de Fernando Morais. Tenho uma coisa comigo. Por mais que a leitura seja boa (e "O Mago" é), sempre acho demais livros com mais de 300 páginas. Seja o estilo que for, seja o tema que for. Alguns desses gigantes caberiam sem nenhum prejuízo em 100 páginas. Em outros casos, justifica ter um pouco mais de volume. Mas passar da casa das 500 páginas (e isso tem sido tão frequente) é nada menos que deficiência no poder de síntese.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Work in progress

Este blog não é um "Finnegans Wake", mas também é um "work in progress" - o primeiro nome que Joyce pensou para a sua famosa obra. Mudou o título desta página. Nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Nem o blog. O tributo lá em cima é a Carlos Drummond, o trecho é de "Poema de Sete Faces". Estamos bem, em ótima companhia.

Mesada

Minha filha me botou na parede ontem. Dois anos atrás, ela me pediu mesada. Achei cedo. Disse que só quando ela completasse sete anos, eu atenderia o seu pedido. Não queria minha filhinha mal saída das fraldas mexendo com dinheiro. Bom, fomos adiante e eu esqueci o assunto. Ela não. Ontem, com sete anos e um mês, ela me chamou para uma conversa séria. Me disse que chegara à idade e não ia abrir mão do que eu havia prometido, do que ela tinha direito. Promessa é dívida. Aprendi que uma criança nunca esquece coisas desse tipo. Pode esquecer de escovar os dentes ou de arrumar o quarto. Pode fazer cara feia para interromper a internet e buscar os meus chinelos no armário. Mas isso nunca, jamais.

Aposto que ela estava contando os dias para começar a receber essa grana. Ontem mesmo comecei a dar sua mesada. Sete reais, um para cada ano. Isso significa que ela vai receber reajuste anual desse valor. É a ciranda da economia financeira chegando na sua porta de todos os lados. Disse a ela que havia umas condições inerentes ao contrato. Ela ouviu atenta. 1. Ela pode gastar com o que quiser, desde que avise pra mim ou pra Eloá antes. 2. Obrigatoriamente, ela precisa economizar uma parte, ela decide quanto a partir de dez por cento do valor. 3. Ela receberá incentivo, se decidir comprar revista em quadrinho, álbum de figurinhas ou livros. Com as notas na mão, seu olho brilhava. E ela passou a noite rindo à toa.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Acho bonito, certo, elegante, uma mulher que não bebe. Eu às vezes tomo um negocinho em casa no fim de semana. Eloá, nunca. Mesmo quando a gente sai, ela em geral não bebe. Uma vez ou outra, toma um martini ou dois. Se tiver animada e tal, pode tomar uma caipirosca, vá lá. Raramente exagera. Só lembro de duas vezes que ela tomou um pouco mais. Uma vez ela tomou uma garrafa inteira de vinho e ficou altinha, como se diz. De outra vez, estava p... comigo e tomou duas doses de martini a mais e me encheu a cara de prosa. Só duas vezes em quatro anos e meio de relacionamento. Amo essa mulher.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Ainda vou voltar a fazer teatro. Não sei se será profissionalmente, é pouco provável que seja. O que sei é que a sensação boa de subir num palco não pode ser só lembrança. Sempre penso nisso. E fico imaginando quando a maré vai virar. Fico pensando em gente que fez mais de uma atividade na vida, se formou em algo, mas não foi adiante e pegou outro caminho. Tem aqueles que juntaram duas atividades bem diferentes e seguiram a vida. O Rubem Fonseca só começou a exercer a profissão que queria mesmo, escrever livros, chegando nos 40 anos. Pelo menos seu primeiro livro, ele tinha 38 anos na época. No caso dele, o cara é tão bom que valeu a pena esperar. Estava maturando. Estou chegando nos 34 e parece um absurdo. Me sinto um velhinho que está deixando a vida escorrer das mãos, tendo feito muito menos do que devia. Se fizer coisas bem interessantes a partir dos 38, vai ter valido a pena, serei o próximo Rubem Fonseca. Mas não acho que é o caso. Por isso tenho que fazer as coisas que significam, que sei que tem significado para a minha existência. Como voltar ao teatro. Estou muito pensador hoje.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Garantida

E eu fiquei fora da cozinha esses dias. Eloá chegou chegando, depois de uma semana de pratos que funcionaram, ela fez feijoadinha, ótima, com feijão branco e tal. Depois inventou um strogonoff com filé especial. Bom todo. E esse sucesso depois de ter feito outro dia o melhor fígado que comi na vida (sério!). Já mandei avisar a mãe dela que não vou mais devolver a guria. Ela tá garantida.

Prison Break


Depois da tonelada de cerveja e dos gestos dramáticos, passei o fim de semana enchendo a cara da série americana Prison Break. Terminei a primeira temporada e emendei na segunda. Essa segunda etapa, a mim me parece, é ainda melhor que a primeira. De cara mataram a advogada do preso, o personagem mais chatança que existia. Balaço na testa. Lindo. E soltaram os presos no meio do povo. O mafioso maravilhoso, John Abruzzi, encarnado no ator Peter Stormare, morreu bem, cravado de balas da cabeça aos pés. Morte bem cinematográfica, se podemos dizer assim, à altura do ótimo personagem e ótimo ator. O agente fala para ele: "Ajoelha e põe as mãos na cabeça". Abruzzi, recém convertido, não se intimida diante do mar de policiais armados até os dentes: "Só me ajoelho diante de Deus e Ele não está aqui". Chuva de balas. Pelo talento, pelo que funcionou, eu segurava o Abruzzi por mais tempo na série, mas a saída foi digna, foi bem boa, então tudo bem.

O taradão pedófilo assumiu seu lado monstro e está barbarizando. Boa. O ruim é que a maioria dos presos são todos bons espíritos que a vida empurrou pro crime. Não existe gente má nas prisões, só gente sem sorte. Besteira pura. Mas esquecendo isso, dá pra se divertir uma pá com essa série. E esse novo agente vivido por William Fichtner? Show de bola. A série subiu um nível por causa dele. E mantiveram o outro agente com cara de psicopata, interpretado pelo ator Paul Adelstein, fazendo um estupendo papel, sombrio, cínico, ótimo. Vi quatro episódios da segunda temporada. Até aqui, alto nível.

"...um amor que um dia não soube cuidar..."

Enfiei o pé na jaca na sexta-feira. Tomei todas e mais algumas, começando às oito da noite com uma dose de conhaque, para abrir os trabalhos, em seguida uma centena de cervejas. Isso me lembra a canção de Chico e Francis Hime: "...a coisa aqui tá preta/ Muita mutreta pra levar a situação/ Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça/ E a gente vai tomando, que também, sem a cachaça/ Ninguém segura esse rojão..."

Concordo com Chico e com meu irmão. Quem trabalha todos os dias e fica, que nem besta, de casa para o trabalho e do trabalho pra casa, tem que tomar um negocinho no fim de semana, senão a caretice total domina o mundo. O que seria de nós sem esses momentos? Respeito quem não bebe e fica em sua casa. Ou vai ao parque com as crianças. Ou vai à igreja. Mas respeito ainda mais quem sai pra viver a noite, batuca numa caixinha canções antigas e se entrega a uma cervejinha gelada sem culpa. Não é apologia às bebidas. É apologia a que cada um cuide da sua vida que é melhor.

Na sexta, fomos a um boteco simpático em Brotas para soltar os demônios (lembrei de Paulo Coelho agora), falar bobagem e rir. Ouvimos muita música, contamos e ouvimos história. Éramos oito seres enchendo a carcaça de substância que a carta magna não se incomoda que a gente consuma, desde que não vá dirigir em seguida. Teria sido uma noite perfeita se não terminasse em barraco, eu brigando com Eloá, ela brigando comigo e eu indo embora para a casa dos meus pais às quatro da matina. Meus pais são ótimos. Claro que não aprovam que eu brigue com Eloá. Mas depois da reprimenda inicial, não esconderam a satisfação de sentir que os filhos procuram a barra da saia deles quando a coisa pega. Pai e mãe são bicho besta mesmo.

(Aliás, eu descobri isso quando minha filha precisava tirar um dente mole ontem. Eloá, muito mais macho que eu, pegou o touro na unha e resolveu o problema. Eu fiquei parecendo uma moça, morrendo de pena do choro - e dos gritos, e das pernas pro ar... O maior problema quando o pai fica com peninha e age como uma moça, sem pulso firme, é que o mundo ganha mais crianças sem controle que vão se tornar adultos perigosos e cheios de vontade. Eu, por mim, voto por juntar todos numa pira e incinerar essa raça, começando por mim... Ok, ok, menas...).

Voltando à cachaça do fim de semana, ficou uma lição importante: nunca ir cheio do pau para a casa da mãe no meio da madrugada sem Engov (há muito tempo não tenho uma ressaca assim, digna dos feitos do Velho Testamento). Mas também vou ter mais cuidado com Eloá (apesar de ela não ter sido exatamente uma santa no episódio). Não quero daqui a vinte anos estar cantando Magníficos para lembrar dela: "Chorando se foi/ Quem um dia só me fez chorar/Chorando estará/Ao lembrar de um amor/Que um dia não soube cuidar". Comecei esse relato com Chico pra terminar com Magníficos. É o que se chama de cachaça errada. Próxima vez, eu acerto o ponteiro e começo e termino com Magníficos... ou Calcinha Preta... ou... deixa pra lá.