Nesse Carnaval, vi muitos episódios de "Moderny Family" e de "How I Met Your Mother" (ambas são comédias da melhor qualidade, eu e Eloá temos nos divertido muito). Fiz a besteira de interromper esse bom programa para tentar ver aberrações como "Bruno". Burrice minha, que não cheguei aos 40 minutos de filme. Como disse o Inácio, já tinha perdido meu dinheiro, não precisava me torturar e perder também o meu tempo. Não entendo. Detestei "Borat" e ainda assim caí na conversa mole dos comentarista de cinema. "Bruno" não é irreverente ou anárquico. É um festival de bobagem e de vontade de chocar a qualquer custo. Passo.
Compensei o tempo perdido revendo "O Corte", direção de Costa-Gavras. O filme, embora um pouco mais longo que o necessário, trata de um alto-executivo que perde o emprego na indústria de papel e não consegue se recolocar. Mostra uma Europa em dificuldade e como as pessoas se movimentam nesse contexto de crise. O personagem central tem uma idéia para voltar ao mercado. Ele decide eliminar a concorrência. E não se trata de sentido figurado. Bom filme.
Assisti "Guerra ao Terror", que concorre a nove Oscars, inlcuindo melhor filme e diretor. Não é mau filme, mas não me impressionou tanto como achei que poderia. Mas é preciso dizer que não sou bom com filmes de guerra. Não lembro de nenhum que tenha realmente mexido comigo. Este "Guerra ao Terror" é tenso, tem aquela câmera tremida dos filmes que imitam documentário, há esse suspense tremendo toda vez que a equipe anti-bomba chega em um local ameaçado. Parecem casos reunidos sobre uma equipe de trabalho, por mais incrível e mortal que seja esse trabalho. Impressiona em algumas cenas, mas dá vontade de ir ver um documentário de verdade. Como ficção, não me "pegou".
Por fim, vi o início de "G1 Joe - A Origem de Cobra". Falo que vi o início porque não tive saco para ir sequer até a metade. Perdi a paciência com filme bobo, sem história, que tem uma explosão a cada cinco minutos e um golpe de arte marcial a cada 30 segundos. Estou ficando velho.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Jogo de Espiões
O velho Robert Redford mostra que bons atores podem fazer valer um filme inteiro. É o caso de "Jogo de Espiões", produção de 2001, de Tony Scoty, onde temos, ok, um roteiro que levanta a bola e facilita a vida do veterano ator. É a história de um espião (Redford) que no dia exato em que está saindo para a aposentadoria, precisa salvar um amigo e ex-pupilo (papel de Brad Pitt), que foi preso pela polícia chinesa e condenado à execução. São 24 horas de movimento dentro do escritório da CIA, com um reloginho nos mostrando o tempo restante para que seja evitado o pior (percusor da famosa série?). Sabemos da relação entre os dois espiões e os motivos de um e outro por causa do relato feito pelo veterano (e haja flashbacks). O personagem de Redford nada tem escrito sobre o parceiro, porque está tudo em sua cabeça, "funciono à moda antiga", é o significado. A direção da CIA está pouco se lixando para o preso que será executado. Não quer problemas com a China, mesmo que tenha que sacrificar um dos seus. Todo o filme é de Redford. Pitt não está mau, corre de um lado para o outro, transmite o envolvimento do personagem, ajuda a movimentar a trama. Redford age no bastidor, é a inteligência, aquele que usa a máquina a seu favor, dá um nó nos superiores, salva o dia, tudo isso sem dar um soco ou disparar uma arma. O fato é que o velho ator faz valer cada real gasto na locação do disco.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Invictus
Sensacional o novo Eastwood, "Invictus". Minha teoria é que existem cineastas sob medida para cada pessoa. Eastwood nunca me decepciona (mesmo "Cartas de Iwo Jima"/ "A Conquista da Honra", que não me fizeram morrer de amor, me deu um punhado ou dois de gratificação). Em "Invictus", temos esse personagem de Mandela, que Morgan Freeman recria tão bem em cena. Arrisco dizer que nunca vi Freeman, que não é mau ator, nunca o vi melhor. Os jogos de rúgbi, do qual não entendo nada, aquelas cenas das equipes se espremendo, como búfalos medindo força, são tremendas. É um filme com apelo à emoção, como são muitos outros sobre esporte. Eastwood conta essa história de forma interessante, com respeito à nossa inteligência e à realidade factual. Não é uma situação pouco complicada a da África do Sul pós apartheid. O filme demonstra essas tensões. Sei que o filme não é aplaudido por todos, divide opiniões. Para mim, foram duas horas de satisfação.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
How I Met Your Mother
Como é bom descobrir coisas boas. Graças a minha amiguinha do peito, Juju, eu sou um cara que resolvi minha crise de abstinência depois do ponto final no último episódio de "Friends". Conheci algo tão instigante e engraçado quanto. A série é "How I Met Your Mother". Não duvido que a série foi feita sob medida pra o público órfão de "Friends". Embora seja outra coisa, em vários sentidos, conserva o básico: um grupo de amigos de classe média, nas variadas situações (algumas absurdas) de encontros e desencontros amorosos, tudo com uma boa dose de sarcasmo e humor. Eles também têm um ponto de encontro (não é um café, é um bar), eles também têm um terraço e, sim, eles também têm o seu Chandler Bing. Aqui se chama Barney Stinson, e é uma figura...
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Coentro
Li com prazer o caderno Paladar, do Estadão, da última semana. A matéria de capa tentava entender porque o coentro divide tanto as opiniões. Uns adoram. Outros detestam. Curioso. O coentro é tão presente na cozinha baiana, que é difícil por aqui encontrar alguém do time do "eu detesto". Conheço duas pessoas que não gostam de coentro. Como que para comprovar a tese, ambas são de outros Estados, embora vivam aqui há tempo. Uma dessas pessoas é um cara gaúcho, bom de cozinha. Fiquei realmente surpreso com as palavras dele quando ouvi. Era a primeira vez que ouvia alguém desancar a erva. A outra pessoa é especialista em comer (ok, ela também se arrisca no preparo de um prato ou outro). É a minha amiga Marlla que também não é baiana, é goiana. Eu gosto de coentro, sempre em porções bem pequenas, especialmente para finalizar alguns pratos. Não tenho essa mania de enfiar coentro em tudo compulsoriamente.
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
Fim da Escuridão
Não tenho problema em admitir certas coisas. Que gosto de Mel Gibson, por exemplo. Ontem aproveitei um tempo livre à noite e fui assistir "Fim da Escuridão", filme protagonizado por Gibson, dirigido por Martin Campbell. Não é mau filme. É uma história policial que cresce, se complica e se revela uma grande intriga envolvendo figurões do governo americano, fabrico de bombas nucleares, terrorismo interno, assassinato, etc. Gostei de todo o clima do filme, que segura o interesse e vai desvelando a trama aos poucos. Há cenas de ação em poucos momentos e elas são muito boas. O primeiro impacto é a morte da filha do personagem de Gibson nos primeiros minutos. Esse é o fato que faz desenrolar toda a história. O policial e pai começa a investigar e, sabemos, ele não pára enquanto não descobre o que houve com sua filha. Nessa trilha encontra uma rede complicada que envolve gente poderosa, incluindo um senador da república. Campbell consegue manter o foco no policial e na sua relação com a filha. Ele precisa superar a dor pela perda e ao mesmo tempo buscar uma explicação para o que houve. No caminho, encontra um profissional misterioso (o ator Ray Winstone) que não se sabe se está ali para ajudá-lo. Um aparte: esse papel seria de Robert De Niro, que largou as filmagens no meio. As cenas entre esses dois personagens - duas ou três - são algumas das melhores do filme. Fiquei desgostoso com o final. O filme começa e se desenvolve bem, mas não termina do mesmo jeito. O final não é óbvio. Também não é bom.
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Concupiscente
Mal começo a ler "Terras do Sem Fim" e sou apresentado a cenas como a de uma mulher de cabelos dourados que é apertada nas nádegas por um homem desconhecido que quer conferir nela "a dureza das carnes". Mais um pouco, uma outra resolve se "abrir como uma flor" para o namorado. Metáfora clara para perda da virgindade. Essa tem medo que o cara não volte de uma viagem a Ilhéus e já que vai fazer isso com alguém mesmo... ok. Estamos no terreno concupiscente de Jorge Amado, não há dúvida. E olha que ainda estou nas primeiras trinta páginas. A leitura promete.
Terras do Sem Fim
Começo as primeiras linhas de "Terras do Sem Fim" de Jorge Amado. Não tinha simpatia por ele (Jorge) no início da minha vida de leitor. As coisas mudaram depois que li "Capitães de Areia". Seguiu-se "Jubiabá", "Mar Morto", "Tieta do Agreste" e, mais recentemente, "Cacau". Não tenho mais nenhum problema com Jorge Amado. Ao contrário, quero retomar a leitura de sua obra, ler as coisas que ainda não li. Pelo que já vi de "Terras do Sem Fim", é uma boa retomada.
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Nenhum filme visto este fim de semana, que foi devidamente entregue à esbórnia. Sexta foi o aniversário de Fábio. No sábado fiquei em casa, mas o domingo foi dedicado ao "Forró do Molenga", evento anual no condomínio Horácio Costa, em Brotas. Também não vi nenhuma das séries que acompanho (não conta dois episódios de The Office que vi meio bêbado e não lembro de quase nada). A boa notícia é que, para o próximo fim de semana, me aguarda o DVD de Spartacus, o clássico de Kubrick. O filme traz Laurence Olivier e Kirk Douglas no elenco.
Ensopado
Aos poucos vou fazendo as pazes com a culinária. Este final de semana, cozinhei bastante. Praticamente o sábado inteiro de avental. E olha que na sexta entrei pela madrugada enchendo a cara no animado aniversário do meu amigo Fábio. Acordei sábado morto. Mas ainda assim segui o que me agendei pra fazer. Com a receita pescada de uma amiga, fui de frango ensopado com polenta. O frango ficou bom, mesmo usando apenas cebola, salsa, azeite, pimenta e sal. O negócio é temperar o frango (usei coxas) com o sal e a pimenta do reino. Depois que tomar gosto, dourar bastante no azeite. Em seguida, refoguei uma cebola grande ralada, acrescentei a salsa, e só então trouxe o frango dourado e água. Eloá não come frango. Fiz pra ela um ensopado de carne tradicional, daqueles com abóbora e quiabo. Ela também não se empolgou com a polenta. Mas sei o motivo, como usei caldo de galinha na preparação, deu aquele gostinho de frango que não agrada a quem foge da ave. Eu e minha filha comemos, repetimos, só faltou lamber os dedos.
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Ingrato
Sou um filho ingrato. Demoro de ver ou dar notícias aos meus pais - tudo que não quero que minha filha faça comigo. Sofro por antecipação pensando em ser deixado de lado por ela no futuro. Ontem à noite fiz uma visita breve aos meus pais e levei a pequena comigo. Ela adorou o programa noturno. Meus pais reclamaram, fizeram a cena de sempre quando eu demoro pra fazer contato. Meu pai é pior que minha mãe nisso.
Minha filha antes de ir visitar os avós, tinha conversado com a mãe no skype (acompanhada de perto pelos meus olhos e pelo meu ciúme). Não tenho problema com a ex-mulher que é a mãe de um filho meu e que não vive mais comigo. Mas ficaria mais feliz se ela sumisse, fosse abduzida por aliens, mudasse de vez pro Cazaquistão, qualquer coisa assim... Entretanto sei que minha pequena sofreria se não visse mais a mãe. E eu sofro por ela ser tão apegada.
Minha filha antes de ir visitar os avós, tinha conversado com a mãe no skype (acompanhada de perto pelos meus olhos e pelo meu ciúme). Não tenho problema com a ex-mulher que é a mãe de um filho meu e que não vive mais comigo. Mas ficaria mais feliz se ela sumisse, fosse abduzida por aliens, mudasse de vez pro Cazaquistão, qualquer coisa assim... Entretanto sei que minha pequena sofreria se não visse mais a mãe. E eu sofro por ela ser tão apegada.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Sabino
Já li um bom pedaço de "A mulher do Vizinho", de Fernando Sabino. São textos bons de ler, saborosos, que mais parecem rascunhos. Alguns já começam no meio de um diálogo, alguns terminam subitamente. Tem crônicas cuja história serve de justificativa para uma idéia. Parece anotação de algo que futuramente será desenvolvido, as historinhas não se parecem com algo que tem começo meio e fim. A crônica é um tipo de literatura flexível, abraça o cotidiano, as coisas do dia-a-dia, cabe tudo dentro dela. Sabino, em pedaços, vai desvendando um país que conhece, que vive. O autor se diverte muito com esse trabalho que, claramente, tem humor sem deixar de trazer algo de preocupação social. Prova disso é o texto "Notícia de jornal" e outros vários que expõem um político desonesto, um delegado servil ao poder, a máquina pública embolorada pela burocracia etc... É recorrente em Sabino as histórias banais, de botequim, de acontecimentos aparentemente desimportantes. Mas aí é que está a graça, extrair importância daquilo que é apenas a vida, em seu aspecto mais ordinário.
Confronto
Joguei dominó com minha filha pela primeira vez no sábado. Não fazia idéia que ela havia aprendido a jogar na casa da avó. Pois ela aprendeu. Me surrou, inclemente, com um placar de 20 x 11. Não acreditei naquilo. Ela só tem oito anos! Me senti um supercomputador derrotado por um humanozinho de nada. Não pode. No domingo, puto, esfregando as mãos, fui à forra. Me concentrei, estudei bem os lances, fiquei atento, até que finalmente bati nela com um 10 x 8. Minha amiga Marlla diz que ela continua em vantagem (e não precisa ser gênio pra concordar). Ela quer revanche. Eu quero reverter a vantagem dela. Mal podemos esperar.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Arrasta-me...
Tive medo durante o filme "Arrasta-me para o inferno", do Sam Raimi. O filme é um exagero só e justamente por isso é tão bacana. Raimi não se leva a sério, brinca com o gênero, mói a protagonista (vivida pela atriz Alison Lohman), coitada, que sofre o diabo enquanto tenta se livrar de uma maldição. O dinheiro está por trás de algumas das motivações dos personagens. O filme pode ser lido como um conto moral que condena a ambição. Mas é curioso que o vidente e a médium que tentam ajudar a protagonista sejam também movidos por dinheiro. Mas não dá pra se apegar muito a isso. Raimi quis fazer um filme divertido e assustador. Conseguiu.
Vi também "Desejo e perigo", de Ang Lee. Me esforcei de início, o filme não me pegou de cara. Mas fui em frente, gosto de Ang Lee. A história se passa nos anos 40 durante a segunda guerra mundial e a ocupação de Hong Kong e Shangai pelas tropas japonesas. Acho que Ang Lee perde muito tempo até chegar ao ponto, o romance secreto entre um oficial japonês e uma atriz ligada à resistência local. Ela foi infiltrada para seduzir o oficial para que seus colegas possam eliminá-lo. A atriz que faz a espiã (Wei Tang) é boa em cena, fica dividida entre os dois lados em conflito e consegue ser bastante convincente. No fim, a sua personagem mostra que foi subjugada pelo amor, paixão ou algo nessa linha. Não é um filme banal. É uma experiência interessante. Uma das melhores cenas é aquela em que os resistentes matam um homem a facadas, é grotesca, arrepiante. Coisa parecida pode ser dita das inúmeras cenas de sexo. Brutais, intensas (especialmente a primeira). São cenas fortes, não estou certo se gostei ou não, mas causam impacto na tela.
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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Ainda Vidas Secas
Leio um ensaio de Álvaro Lins sobre a obra de Graciliano Ramos. Achei incrível. Chama-se "Valores e misérias das vidas secas". O texto põe luz sobre a obra de Graciliano Ramos até ali (o ano é 1947): "Caetés", "São Bernardo", "Angústia", "Vidas Secas", "Infância" e "Insônia". Fala sobre qualidades e problemas nos livros, os quais o ensaísta separa entre romances, novelas, contos (e "alguns monólogos que não podem ser chamados de contos"). Mesmo claramente admirado com a grandeza de quem ele classifica como "um verdadeiro artista, um escritor da mais alta categoria", Lins não deixa de apontar fragilidades na obra, indicar desníveis entre livros, e separar o que é bom e o que é ruim dentro do mesmo livro. Lins se mostra um crítico honesto, sem concessões. Ele, por exemplo, destrói "Caetés", livro de estréia de Graciliano Ramos. Diz que é indigno de qualquer escritor, ainda mais se esse escritor é o mesmo autor de "Angústia" e "Vidas Secas", apresentados como exemplo de acabamento superior, obras-primas. Como seria bom se as pessoas que escrevem perseguissem a clareza de idéias, sem simplificar as coisas, e produzissem uma leitura tão deliciosa como a de Lins. Um dia chego lá.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Saudade
Feliz. É o meu nome desde que a minha pequena voltou de um período de mais de 20 dias em companhia da mãe. Ela está de férias, a mãe passa o ano inteiro longe. Esse foi o momento para estarem juntas. E o momento de eu ficar longe, mesmo contra a vontade, claro. Mas não brigo por isso, não ajo de forma mesquinha. Não que não queira (até quero), mas não pega bem. Tenho gostado de ser pai de uma menina. Venho aprendendo esse ofício, exerço miseravelmente, tateando, desde os primeiros dias. Ontem fui para o computador com ela mostrar como eram os desenhos que eu via na infância. Mostrei imagens de coisas da velhíssima guarda. Formiga Atômica, Galaxy Trio, Manda-chuva, Lula Lelé, Pepe Legal, Zé Colméia, Os Flintstones, Os Jetsons... Ela acompanhou tudo com a curiosidade de quem visita um museu. Mas, claro, quem disse que museus não podem ser divertidos? Depois disso, fomos jogar com a Turma da Mônica, atividade que a deixou bem mais interessada. Ela me segurou nisso, inclusive, bem mais tempo que eu planejava (apesar dos meus protestos). A pequena sabe que estou cheio de saudade. E ela aproveita, a malandra.
Graciliano
Terminei a leitura de "Vidas Secas", de Graciliano Ramos. É um negócio acompanhar essa família. A história se passa num recorte que se situa desde uma peregrinação inicial (para o que parece ser a morte certa) até uma peregrinação final para o que pode ser um encontro com a redenção. Graciliano sabe construir imagens. Ele trabalha o tempo todo dentro da cabeça dos personagens, nos leva até lá e descortina medos, aflições. Até a cachorra Baleia sofre o escrutínio e a vemos tornar-se um personagem que tem juízo sobre essa ou aquela atitude de seus donos e, como os outros, reage, sente carinho, medo, raiva, etc. (E que episódio lindo e triste, de um jeito terrível, aquele da perseguição ao animal). Fabiano domina a história. Que personagem! Difícil não se conectar imediatamente. Um homem sem nenhuma instrução, que não gosta de palavras (não sabe o que fazer com elas) nem de gente, parece mesmo um bicho. Ele vive bem com seu pequenino repertório textual e, no entanto, lá dentro dele, tudo acontece. Um inferno o consome. Tanta ternura, tanta miséria. Graciliano é grande. Sabemos que está ali descrito um retrato de uma gente específica, de uma região determinada. Sobre isso não há dúvida. Mas estão ali todos nós. Cabe a humanidade inteira nesse pequenino universo.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Sozinho
Se eu não fosse um dependente crônico de uma parceira de vida, viveria muito bem sozinho. Parece um paradoxo dizer isso, mas não é. Gosto muito de ficar sozinho. E meu casamento funciona com a instrução clara, honesta, de que preciso de meus momentos sem ninguém por perto. Adoro ficar só, fazer coisas sozinho, me mover em casa sem outra pessoa (vale para mulher, filhos e cachorro). Só eu mesmo, meus livros, discos, filmes, minhas receitas, algumas garrafas de vinho e, no máximo, minhas revistas de mulher pelada... ok, deleta essa última parte.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Nova série, parece coisa muito boa, a julgar pelo episódio piloto: "Modern Family". E ainda comédia.
*
Muito bom o episódio final da quarta temporada de "The Office". De repente, um monte de coisa aconteceu num único episódio que deixou várias histórias no meio para a próxima temporada. Steve Carell é o protagonista Michael Scott, que nunca está menos que hilário em cada episódio. Não poucas vezes quem rouba a cena é o ator Rainn Wilson (talentosíssimo), que faz o personagem Dwight. O ponto alto são os textos. É uma ótima sacada trabalhar o dia-a-dia de uma pequena empresa e haja criatividade para tantas e tão inspiradas histórias. Nessa season four, até Eloá eu consegui arrastar para ver comigo alguns episódios. Vamos agora à quinta temporada.
*
Muito bom o episódio final da quarta temporada de "The Office". De repente, um monte de coisa aconteceu num único episódio que deixou várias histórias no meio para a próxima temporada. Steve Carell é o protagonista Michael Scott, que nunca está menos que hilário em cada episódio. Não poucas vezes quem rouba a cena é o ator Rainn Wilson (talentosíssimo), que faz o personagem Dwight. O ponto alto são os textos. É uma ótima sacada trabalhar o dia-a-dia de uma pequena empresa e haja criatividade para tantas e tão inspiradas histórias. Nessa season four, até Eloá eu consegui arrastar para ver comigo alguns episódios. Vamos agora à quinta temporada.
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Sem noção
É estranho para um ser humano como eu, que pouco conversa com estranhos, se bater com gente tão desinibida. Já disse aqui que barbeiro e taxista são uma raça infernal, sempre puxando conversa, sempre falando demais. É muito agradável - e raro - quando a gente encontra um motorista de táxi que se limita a responder ao seu bom-dia e a perguntar o itinerário. Tem ainda aqueles que resolvem ligar o som do carro, esses são os piores. Sempre os decibéis estão acima do recomendado. É preciso pedir educadamente que o cara abaixe o volume ou desligue, já que não é possível simplesmente trucidar o desgraçado. Outro dia, liguei numa empresa dessas de gás. Veio um funcionário. Foram dez ou doze minutos enquanto ele entrava em minha casa, trocava um botijão vazio por um cheio. Pois foram dez ou doz minutos de tagarelice. O infeliz não parava de falar. Sua teoria era que enquanto gente boa como eu (bom? eu? quis perguntar "vem cá, eu te conheço?"), enfim, ele dizia que enquanto gente boa como eu vivia preso na própria casa, cercado de grades e tal, a badidagem vivia solta. Eu não me atrevia a dar opinião. Nessas horas, não se pode dar chance para mais discurso. Tudo que eu queria era que o cara sumisse. E se explodisse com o gás, tanto melhor.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Fabiano
Leitura é o meu espinafre. O ano começou assim, assim (como sempre), mas já melhora muito desde que entrei na barcaça de Vidas Secas, de Graciliano Ramos. E vou entrando na história e lembrando aos poucos. O personagem Fabiano, pai daquela família miserável, é muito interessante de acompanhar. Lembro da sensação que tive dele falando sozinho, com orgulho: "Você é um bicho, Fabiano". Isso num homem descrito como de pouca ou quase nenhuma conversa. Esse começo do livro narra coisas bem difíceis, uma travessia que perturba, parece que vamos presenciar a desgraça de um por um dos membros daquela família. A descrição da morte do papagaio não prenuncia coisas boas, menos ainda a presença de urubus ao redor. Mas felizmente fatos vão ocorrer que mudam esse cenário. E estou nessa passagem de mudança que o segundo capitulo detalha. Até agora, acompanhar essas páginas tem sido um prazer.
Prêmios e bilheteria superlativa não necessariamente tem a ver com bom filme. Cansamos de ter notícia de filme ótimo esquecido por premiações importantes ou que não fazem números vistosos. Nada tenho contra o sucesso de público, é bom ver que "Avatar" está indo muito bem. Acho realmente que o êxito de Cameron é bom para a indústria como um todo, anima todo mundo, ajuda até os marginais, alternativos, indies. E atrasa a morte anunciada do cinema (ou o desinteresse crescente) ante as outras mídias.
quinta-feira, 7 de janeiro de 2010
Vidas secas
Começo "Vidas Secas", livro de Graciliano Ramos. É um livro muito conhecido, claro. Do autor, só tinha lido "São Bernardo", que li duas vezes. E gosto muito. Comecei a ler "Vidas Secas" há alguns anos e não lembro porque não fui até o fim. Lembro que gostei do que li, especialmente do capítulo em que o cachorro precisa ser sacrificado. É uma agonia. Não estou estragando nada, porque de fato não sei o que acontece a seguir (espero que o cachorro se salve). Primeiro livro de 2010. Creio que começo bem.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Adriana
Adriana Esteves, que sempre foi boa atriz, está extraordinária em "Dalva e Herivelto". Aliás, essa minissérie é uma daquelas boas coisas que aparecem na TV de vez em quando.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O que deu pra ver
Aproveitei o período de festas pra comemorar vendo alguns filmes. Deu para diminuir um pouco meu monumental atraso. Vi alguns muito bons como "O Lutador", que me fez chorar feito uma criancinha com aquela relação pai e filha do Mickey Rourke (que está excepcional em cena) e Evan Rachel Wood. De quebra ainda tem uma Marisa Tomei em ótima forma (física, sim, mas também num bom trabalho de atriz). Gostei também de "Foi apenas um sonho", que reúne Leonardo DiCaprio e Kate Winslet pela primeira vez depois de Titanic. O filme é muito interessante sobre um casal que tem sua vidinha no subúrbio, filhos, um trabalho normal, mas sofre porque ambos gostariam de ter feito algo mais da vida (pensei em minha própria vida, claro). Quando surge a idéia de largar tudo e parece que finalmente vão fazer algo extraordinário, as coisas se complicam até um final trágico. Outro filme que achei que vale a pena é "Inimigos públicos". É da grife Michael Mann, o diretor de coisas bem legais como "Colateral" e "Fogo contra fogo". Confesso que não morri de amores (como 10 entre 10 críticos que se derreteram), mas também não digo que seja um filme menor. Tem momentos inspirados na caçada do policial Christian Bale ao charmoso e bem intecionado bandido Johnny Depp, apesar de me parecer tudo meio frio. É totalmente outro estilo, mas gostei bem mais de "Star Trek", a re-imaginação da famosa série por J.J.Abrams, é muito divertido. Fora Star Wars, não sou fã de filmes de batalhas no espaço, mas abro uma honrosa exceção para este trabalho do criador das séries "Fringe" e "Alias", além da direção do episódio 3 do filme "Missão Impossível". Nesse período de recesso, vi ainda "O Terminal", filme de Spielberg que traz o personagem de Tom Hanks preso num aeroporto americano, porque seu país sofre um golpe de Estado. Spielberg tira leite de pedra e faz um drama nada banal. Nem tudo que Tom Hanks faz me agrada, porém, quando bem dirigido, ele já mostrou que pode oferecer interpretações bem interessantes. Foi bem menos legal que eu esperava a seqüência de "Os Normais". O primeiro filme com Fernanda Torres e Luis Fernando Guimarães era algo engraçado, escroto e ampliou o que já era legal de ver na série exibida na TV. Essa segunda parte não consegue ter o mesmo bom resultado (os números musicais são o que há de melhor no longa). Assisti a "A proposta" pra ver a Sandra Bullock nua. Mas só um bestalhão como eu acha que vai ver alguma coisa nessas comédias românticas sem sal nem açúcar. Até a novela das oito mostra mais nudez que aquela que Sandra apresenta em cena. Se o filme, pelo menos, fosse bom... (a propósito, a melhor comédia romântica que vi nos últimos tempos se chama "500 dias com ela"). Teve ainda "Até o fim", filme de 2001, anunciado como tendo feito sucesso em festivais como o de Sundance e Cannes. Poderia ser um suspense interessante, mas é só perda de tempo. O filme documentário "Coração Vagabundo", que segue a turnê internacional de Caetano Veloso, não me impressionou. Serve mais como curiosidade sobre um personagem conhecido do showbiz nacional, que tem fãs até no japão. Gostei de rever o "Homem de Ferro" do Robert Downey Jr., um filme que confirma a boa impressão que tive no cinema. É conciso, sem firulas, e tem Downey Jr. em ótima forma, recussitado dos mortos. Gostei bastante de rever "Cães de aluguel", do Tarantino. Não lembrava mais que Tim Roth era o policial infiltrado na gangue de assaltantes. Sou fã de Tim Roth. Esse filme traz um elenco tremendo: Harvey Keitel, Michael Madsen, Steve Buscemi e o próprio Quentin Tarantino. Tem aquela montagem toda recortada, já típica do diretor, cheia de flashback, idas e voltas. É um filme todinho feito para se chegar àquele final arrasador, quando Roth, numa poça de sangue, fala a Harvey Keitel, quem ele é realmente. Um negócio tremendo.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Avatar
2. Não acreditava que tudo em Pandora é criação digital, isso é realmente de cair o queixo. A história é uma grande aventura à moda antiga apesar das centenas de milhões gastos em efeitos de última geração.
3. Apesar da propaganda toda, não fiquei à vontade com o 3d. Tive a sensação de que não perderia nada em uma cópia normal, em 2d.
4. Em geral, não dou muita bola para histórias de guerra e também tenho dificuldades com filmes que usam bonecos digitais que substituem atores. Essa técnica evoluiu muito, mas até conhecer Avatar eu virava a cara. Cameron soube manter expressões de seus atores, intrepretação, trejeitos, tudo de uma maneira que pareceu bastante natural e convincente.
5. Fui ver quem era a Na'vi fêmea que faz a mocinha da história. É a atriz Zoe Saldana, que faz também Star Trek (e ela é uma lindeza).
6. Não que ela esteja ruim, mas confesso que esperava mais de Sigourney Weaver, uma atriz que adoro. E o Sam Worthington, que já havia visto em T-4, confirma o bom trabalho e nessa linha promete coisas bem boas no cinema.
7. O filme funciona bem, apesar do blá blá blá ecológico (achei muito bobo esse recheio, um dos poucos pontos fracos de um bom filme). Sorte que o longa compensa esse traço politicamente correto com uma história bem contada, orgânica, que empolga.
8. Ao contrário de muita gente, gostei do vilão. É típico, é caricato, mas é um ponto de contraste forte para o herói. Mesmo sendo uma repetição de uma dúzia de vilões iguais de outros filmes.
10. Ok, o filme também é a repetição da mesma história de sempre (ou do tempo em que se faziam boas aventuras). Não é um filme que se esquece quando as luzes acendem. Isso é veneno de crítico mal-humorado.
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Sossego
Assim como minha amiguinha Flávia, eu tenho acordado no meio da madrugada sem motivo desde a última semana. Ela acha que é ansiedade. Pode ser. Tantas coisas aconteceram nesses dias. Fizemos um evento grande no sábado. Tive outro na sexta à noite. A semana foi toda corrida. E a cidade está aquele inferninho de gente, carro e pressa. Como diz o Tim Maia, quero agora um pouco de sossego. E me preparar, com a baba escorrendo no canto da boca, pra ver o "Avatar" de James Cameron. Depois do Natal, a gente conversa sobre isso.
Farra na cozinha
No domingo convoquei minha pequenina para uma diversão gastronômica. Ela podia escolher o que queria para o almoço e faríamos juntos pela diversão. Ela só precisaria vestir seu pequenino avental e ocupar a cozinha com o pai. Sua escolha me agradou também: Lazanha à bolonhesa. E para brincar, claro, teríamos geladinhos de maracujá e coco de sobremesa. Eu queria fazer tudo juntinho com ela, desde comprar os ingredientes no mercado. Ela pediu para pular essa parte. Ok, fui sozinho às compras e a deixei em casa vendo os mutantes do X-Men socando homens maus (era o segundo e ótimo filme da série, dirigido por Bryan Singer). Quando voltei, era hora de preparar as coisas. Foi muito bom vê-la trabalhar com afinco; lavar o que precisava, sujar outro tanto de coisas, opinar sobre Deus e o mundo (putz, como ela fala quando está feliz!)... Foi uma farra. E tem mais, ela também escolheu o repertório da trilha sonora: forró (teve minha aprovação total), Chico Buarque (ok, eu influenciei nessa escolha) e, por fim, Ivete Sangalo no Maracanã. Nada me desagradou nesse domingo. Poder explorar o trabalho infantil ao arrepio da lei é bom demais.
domingo, 20 de dezembro de 2009
Pesadelo
"Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir."
Lembro esses versos de Fernando Pessoa, porque tive hoje um desses pesadelos terríveis. Pois é, tenho pesadelos com constância desde criancinha. Há uns bons dois anos, no mínimo, já não sabia o que era isso. Hoje ele veio com tudo. É mesmo terrível e sempre igual: estou passando por algo incômodo ou assustador e fico imóvel - não posso movimentar um único músculo, apesar de todo esforço. Parece que a respiração não funciona. E, pior, Eloá não estava ao meu lado. Acordei ainda pesado de sono, mas sem coragem de voltar a dormir, porque temia voltar ao pesadelo. Eloá tinha ido cedo pro vôlei. Estava sozinho em casa com minha filha, que dormia no quarto dela. Que fazer? Levantei cheio de sono e fui para a internet, a melhor amiga de todos nós.
Nem na morte espero dormir."
Lembro esses versos de Fernando Pessoa, porque tive hoje um desses pesadelos terríveis. Pois é, tenho pesadelos com constância desde criancinha. Há uns bons dois anos, no mínimo, já não sabia o que era isso. Hoje ele veio com tudo. É mesmo terrível e sempre igual: estou passando por algo incômodo ou assustador e fico imóvel - não posso movimentar um único músculo, apesar de todo esforço. Parece que a respiração não funciona. E, pior, Eloá não estava ao meu lado. Acordei ainda pesado de sono, mas sem coragem de voltar a dormir, porque temia voltar ao pesadelo. Eloá tinha ido cedo pro vôlei. Estava sozinho em casa com minha filha, que dormia no quarto dela. Que fazer? Levantei cheio de sono e fui para a internet, a melhor amiga de todos nós.
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Fringe
Ok, me rendi a "Fringe", a série do J.J. Abrams, o criador de "Alias" (muito legal) e "Lost" (zzzzzz...). Comecei gostando muito de "Fringe", depois fiquei na fase desconfiado. Agora, depois de uma dúzia de episódios (a maioria intrigante e crescendo a cada novo episódio), estou totalmente seduzido. E Dexter, hein? Comecei a ver a quarta temporada e, putz, esse primeiro capítulo é compatível com o alto nível que essa série alcançou. Sem decepções, o que é bastante coisa. Muito bom ver que o tempo passa e Dexter continua top, um dos melhores seriados exibidos na TV hoje em dia.
Lolita - a de Kubrick
Não resisti. Faltando ainda um pedaço (pouco mais de 60 páginas) de Lolita, corri à locadora esse fim de semana e fui ver a versão cinematográfica de Kubrick. Não recomendo fazer isso. A gente está tão imerso na obra escrita que não é possível se distanciar suficientemente para ver o filme sem contaminação. Todo tempo o livro vinha à tona para uma comparação automática, inevitável e incômoda. Não há como dizer que o filme é ruim. Não é. Mas é uma outra coisa. Por mais que Kubrick tenha seguido o fio de Nabokov (e o próprio autor russo escreveu o roteiro), ainda assim é nítido que o livro é bem diferente do filme. O livro é mais complexo, mais perturbador. O filme tem qualidades, claro, e o quarteto central do elenco é um dos pontos bons. Porém, um elenco que conta com alguns ótimos atores, também pode ser uma faca de dois gumes. Peter Sellers, por exemplo, faz o antagonista, é um ator cheio de recursos, mas não sei dizer se fez bem ao filme. No livro, seu personagem tem uma passagem discreta, pequeníssima. No filme, ele se agiganta. É uma deformação e tanto do original. Entendo que as elucubrações do personagem Humbert Humbert, sua mente pervertida, não pode ser tão bem aproveitada na tela. O cinema é imagem em movimento, é ação. Perde-se com isso o melhor do livro de Nabokov que é a expressão de uma personalidade refinada e doentia em toda sua complexidade. O ator James Mason, que faz o Humbert, se esforça, mas o caminho escolhido por ele leva o drama do professor de literatura em outra direção. Outro ponto: no filme, a questão sexual evapora e dá lugar a um drama de amor e obsessão. Sem o conhecimento prévio do romance de Nabokov o filme fica menos interessante. Não digo que o talento do cineasta não se veja no longa, vê-se. E as cenas mais intimistas são algumas das melhores. De toda sorte, não me fará mal (nem à obra de Kubrick, que é um dos meus diretores favoritos) que eu volte a este filme depois. Revisitá-lo, sem ter cada frase do livro ainda ecoando na cabeça, permitirá olhar para o filme e conseguir enxergá-lo. Assim espero.
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sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Pacote de maldades
Filhos, melhor não tê-los. Vinícius estava muito certo nisso (e também quando fala que o uísque é o melhor amigo do homem). Filhos são um problema eterno. Eu fui criado debaixo de muita porrada. E cresci um rapaz bom, respeitador, zeloso, tímido e com esse encanto natural. Todas as coisas pérfidas e escrotas da minha natureza, aprendi a manter guardadas no lugar certo e reservar às ocasiões apropriadas. Enfim, me tornei uma pessoa saudável e integrada. Por isso, não entendo bem essa política certinha de não poder - sob as circunstâncias certas - descer o braço num filho endiabrado. A minha pequena flor trouxe da escola outro dia um lista de queixas da professora sobre o seu comportamento. Dizia a professora que a pequena está impossível, não obedece, não pára quieta, conversa mais que o devido (e nas horas erradas), influencia mal os colegas. O problema de maior gravidade, entretanto, foi uma troca de cartas com um pequeno infante. Cartas de amor, subtendido pelos desenhos de coração e frases como "eu te amo". Meu primeiro impulso foi dar uma boa sova. Daquelas do tempo do meu pai. Mas aí tem esses tempos modernos que não acomodam as soluções mais eficazes para enquadrar menores infratores. Por isso, resolvi inaugurar um pacote de maldades e apreciar o seu efeito. Entre os tantos itens, está um que fala mais forte aos bons tempos que não voltam mais. São páginas diárias em que minha flor deve escrever dezenas de vezes a mesma frase: "Eu prometo que vou me comportar na escola". Meu pacote também inclui, claro, suspensão por tempo indeterminado de TV e internet. No primeiro dia depois do pacote, a professora disse que a menina parecia um anjinho na sala de aula. Mas calma. Ainda é cedo para se animar com o efeito do remédio. Se o pacote de maldades não funcionar, tudo bem. Posso me entregar, sem culpa e sanguinariamente, à tarefa de descer o sarrafo na criatura verticalmente prejudicada. E assim seremos todos felizes para sempre.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Francês
Comecei bem devagar uma paquera com o idioma francês. Estimulado, claro, pelo entusiasmo de Eloá. E também pela leitura de "Lolita". Sim, Lolita. O autor é russo, escreveu sua obra em inglês, mas o que não faltam são expressões em francês em seu livro.
Recolhimento
Estava avistando coisas sobre Vladimir Nabokov. E cheguei até a notícia de que seu filho vai lançar uma obra sua inédita. Chama-se "O original de Laura", um livro que Nabokov não terminou e deixou indicação expressa de que deveria ser destruído. Claro, estava preocupado com seu nome. Essa conversa me conduz a uma notícia que vi mais cedo. Gerald Thomas fala em parar com as peças e diz algo interessante a esse respeito. Ele recorda que muito artista não sabe a hora de sair de cena, que depois que você chega num pico, vira um repetidor de si mesmo. "Acho meus últimos trabalhos péssimos", diz. Thomas é um cara bastante prolífico. (Acompanho com interesse seus pronunciamentos, textos e polêmicas - não suas peças. Vi um único esptáculo dele aqui em Salvador em eras priscas, com o Ney Latorraca na frente do elenco. Me lembro de ter gostado da cenografia, assinada por Daniela Thomas, a parceira de filmes de Walter Sales). Essa inquietação do Gerald Thomas é sempre bem-vinda. É mais negócio ficar com as melhores obras de determinado autor do que testemunhar sua decadência, seu caminho em direção ao deserto da criatividade.
E Nabokov estava certo. Se a obra é ruim, melhor mesmo nunca ver a luz do dia.
E Nabokov estava certo. Se a obra é ruim, melhor mesmo nunca ver a luz do dia.
terça-feira, 10 de novembro de 2009
Rubem
Talvez o melhor escritor do mundo para o meu paladar de garoto: Rubem Fonseca. Ele está com novo livro na praça, "O Seminarista". Que fazer? Apenas correr desembestado à livraria, ora.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Assado
Então voltei a um assado este fim de semana. Cupim (meu preferido) e costelas, que são boa companhia em qualquer estação do ano. Nos dois casos, temperei apenas com sal, alho e azeite. A costela ficou mais salgada que o cupim. Deixei quatro horas no forno pra descobrir que não precisava tanto. O fato é que Eloá elogiou, o que me valeu o esforço (ok, valeu o meu dia inteiro). Acompanhei com macarrão e molho de tomate tradicional feito em casa. Tudo muito simples e gostoso. Quem sabe na próxima semana eu desencanto o molho béarnaise que tanto quero fazer?
Cuide de você
A "culpa" certamente não é apenas de minha nova cunhada. O fato é que ver a exposição "Cuide de você", da francesa Sophie Calle, neste domingo, rendeu uma noite de discussões bem interessantes. Fomos em casalzinhos, eu e Eloá, de um lado, meu irmão e sua quase esposa, a suíça mais simpática de que tenho notícia - desde a minha adorável professora Liv. (Poucos nomes é ótimo negócio para uma conversa discreta.) Teríamos ido ver a exposição de Sophie de qualquer maneira. Mas duvido muito que tivéssemos levado o assunto a tal ponto e em tal extensão. Minha nova cunhada é artista plástica e se deliciou em provocar todos sobre a exposição e, mais ainda, sobre arte propriamente. Alguém pode imaginar que foi um papo chato e teórico sobre coisa nenhuma. (Sob certo aspecto pode até ter sido teórico, mas nem um pouco chato.) Foi uma conversa agradável e entrecortada por casos curiosos sobre os dois - meu irmão e ela - como se conheceram, por exemplo, em Paris, exatamente durante uma exposição de arte. Essas conversas de bar, após um programa cultural, nós sabemos como funcionam. Há casos leves e piadas salpicadas no meio de todo o papo. O que desmonta a possibilidade de uma sala de aula fora de lugar. Ninguém se levou tão a sério a ponto de querer falar verdades sobre as coisas. E a cerveja ajudou a digerir palavrões inevitáveis como "arte contemporânea", "Aristóteles" etc e abriu caminho para citar à vontade uma Marilyn Monroe, uma Maria de Medeiros...A nota é que eu gostei bastante da exposição que, diga-se de passagem, não foi aprovada por todos. Mas até com isso eu me diverti.
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
Distrito 9
O início de "Distrito 9", do diretor estreante Neill Blomkamp, me deixou apreensivo. A princípio me incomodou aquele prólogo em forma de documentário com a câmara trêmula. Pensei que talvez não tivesse sido boa idéia ir ao cinema. Os aliens do filme são feios, nojentos e nada simpáticos. Pelo menos no começo. Aos poucos fui me acostumando àquela sujeira, a história vai tomando rumo, as coisas vão ficando claras, a narrativa se impõe. E o filme só cresce até o final. Surpresa boa. Teve gente que opinou que o filme é bom porque usa a sci-fi para tratar de um drama, recordando o apartheid. Não achei. Achei entretenimento puro. Não é um drama social. É um bom filme de ação, com idéias e um ótimo elenco de desconhecidos. Um roteiro bastante original, mesmo que abusando de referências. Foram duas horas muito bem aproveitadas. Passei a dar mais valor ao Peter Jackson que, como produtor, assumiu os riscos de um filme desses, sem estrelas no elenco, com baixo orçamento, respeitando a idéia original, sem ceder ao gosto palatável do público médio. De certa forma, é um filme asqueroso, violento, inclemente, duro. Mas nem por isso deixa de ser um ótimo programa.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Tenho que lembrar de comprar umas cervejas pretas, encorpadas, para tomar no sábado, aniversário da minha mulher. Alguém dirá que vinho vai melhor para a ocasião. Não acho. Gosto de vinho. Nem conheço tanto assim, como bem me lembrou uma vez o meu amigo da onça, Franklin. Tenho me esforçado folheando um livro ou outro e lendo as matérias que me chegam à mão sobre o assunto. O fato é que gosto muito de vinho. E gosto muito de cerveja. Claro que cada ocasião específica vai determinar a opção por uma bebida ou outra. E aí ninguém precisa brigar. O ideal é ter em casa várias opções.
Bourne
Nessas duas semanas, revi, um atrás do outro, "Identidade Bourne" e "Supremacia Bourne". São os dois primeiros filmes da trilogia de ação e espionagem que tem no centro da trama um agente desmemoriado (Matt Damon), sozinho, perseguido pela mega estrutura da agência de espionagem americana. Sabemos como são os filmes, o herói sofre, parece que será pego, mas escapa daqui e dali até alcançar e derrotar os inimigos que o querem morto. Não importa o tamanho da máquina inimiga, pouco importa que seus tentáculos se espalhem pelo mundo inteiro, que tenha agentes tão bem treinados à caça do herói, dinheiro sem limite, e estrutura e tecnologia à vontade. Não importa, porque no fim o herói vai vencer. Quanto mais verossímil é essa façanha, mas o filme interessa. Acho que boa parte do prazer de ver esses filmes é testemunhar que mesmo na desproporção entre o poder de fogo de uma estrutura gigante contra um homem sozinho, sabemos que esse homem vai sobreviver às armadilhas e impor uma derrota aos seus persguidores. É algo que dá uma sensação de equilíbrio ao mundo, de justiça. Talvez o raciocínio seja que os maus, mesmo que muito poderosos, terão o que merecem. Pelo menos na ficção.Obs.: e que bela está a Franka Potente nesses dois filmes!
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
Frost/Nixon
Um bom filme esse "Frost/Nixon". Estou vendo com atraso filmes que já entraram e saíram do circuito e fizeram o barulho que tinham que fazer. Pouco importa. Meu relógio é diferente mesmo. Faz tempo que não vejo um filme de embate entre duas personalidades assim. O filme tem como forte o enfrentamento de dois homens com motivos distintos. Nixon é o presidente americano que foi obrigado a renunciar ao cargo depois do escândalo do Watergate, nos anos 70. Frost, o jornalista de variedades com reputação zero em matérias políticas. Frost quer fama e credibilidade e encontra um Nixon que aceita ser entrevistado por dinheiro (e para tentar dar a volta por cima depois que saiu da presidência humilhado). Os dois tem muito a perder caso não se saiam bem e para isso vão com tudo para essa contenda que se tornou material histórico nos Estados Unidos. O ator Frank Langella, como Nixon, é impressionante pela construção bem cuidada do personagem. Frost é vivido pelo ator Michael Sheen que já havia mostrado sua capacidade de interpretar bem personagens reais com o Tony Blair do filme "A Rainha". Os dois em cena estão ótimos. Mas há muito mais cartas na manga do diretor Ron Howard, além da dupla central: há o elenco de apoio, a montagem, o trabalho de arte, o figurino, um roteiro que traz o essencial da entrevista e dá bom espaço para a preparação e os bastidores. Tudo converge para um filme de primeira linha. E é isso que vemos.
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sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Pessoa
"O meu olhar é nítido como um girassol./ Tenho o costume de andar pelas estradas/ Olhando para a direita e para a esquerda,/ E de vez em quando olhando para trás.../ E o que vejo a cada momento/ É aquilo que nunca antes eu tinha visto" (Alberto Caeiro)
"Dá-me mais vinho, porque a vida é nada." (Fernando Pessoa)
Uma saudade incrível de Fernando Pessoa. De todos eles. Sempre lembro que comecei meu interesse por Pessoa depois que meu irmão leu para mim uns poemas sorteados de Alberto Caeiro. Depois fui atrás sozinho. Depois fiz de Pessoa a minha companhia constante. É muito importante a influência que os mais velhos exercem sobre nós. Penso bastante nisso quando lembro da minha responsabilidade educativa com minha filha pequena. Eu tinha doze anos quando meu irmão me leu aqueles versos. Eu volto a ter doze anos sempre que leio e releio Pessoa. O impacto é sempre fresco como naquela primeira vez.
"Dá-me mais vinho, porque a vida é nada." (Fernando Pessoa)
Uma saudade incrível de Fernando Pessoa. De todos eles. Sempre lembro que comecei meu interesse por Pessoa depois que meu irmão leu para mim uns poemas sorteados de Alberto Caeiro. Depois fui atrás sozinho. Depois fiz de Pessoa a minha companhia constante. É muito importante a influência que os mais velhos exercem sobre nós. Penso bastante nisso quando lembro da minha responsabilidade educativa com minha filha pequena. Eu tinha doze anos quando meu irmão me leu aqueles versos. Eu volto a ter doze anos sempre que leio e releio Pessoa. O impacto é sempre fresco como naquela primeira vez.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Kate Beckinsale é a mais sexy do mundo segundo uma publicação dessas aí (pouco importa). Concordo. Como concordaria se fosse qualquer outra das minhas admiradas. Halle Berry, por exemplo, já foi a eleita. É mesmo linda, e rende muito em bons papéis (como comprovou em "Monster's Ball"). Tenho uma história de amor com Kate há algum tempo, desde "Ilusões perigosas", filme de 1995 sobre o qual quase não vejo as pessoas comentarem. Fiquei encantado com ela desde aquele momento. E sigo encantado.
Passageiros
O filme "Passageiros", coitado, é um trabalho que nada oferece em termos de cinema ao mais miserável espectador. O diretor, Rodrigo García, é filho do genial escritor Garcia Marquez. É uma informação inútil porque, a julgar por esse longa metragem, a genialidade da família ficou com o pai. "Passageiros" te leva por um caminho óbvio, tenta dar uns dois sustos e falha, não consegue estabelecer um clima de suspense e o final "surpreendente" não surpreende ninguém. Para não dizer que não vale nada, a beleza de Anne Hathaway é a única coisa que compensa seu dinheirinho gasto. O parceiro de cena (e par romântico) de Hathaway é o ator Patrick Wilson, que em geral é bom ator, mas aqui não convence ninguém (bem melhor é vê-lo em "Watchmen", por exemplo). Para efeito de comparação perversa, qualquer filme de M. Night Shyamalan é cem vezes superior. Nem precisa ser "O sexto sentido". E saiba que dizendo isso já estou entregando o ouro em relação a "Passageiros".
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terça-feira, 13 de outubro de 2009
Parece que sim, que voltei a Terra. Estou mudado, sem tanto prazer em escrever. Se pudesse, passava o resto da vida viajando, conhecendo lugares e pessoas novas. Até cansar. Não dá pé. Tenho uma vida real, trabalho, rotina, obrigações... Estou entediado com as coisas de cozinha. Estou sem paciência para ver séries. Voltei a ver filmes em casa. Parei de ler há mais de um mês. Comecei "Viva o povo brasileiro", mas me deu uma preguiça terrível de João Ubaldo. Estou sem ânimo para certas coisas. Estou gostando mais de ler revistas e jornais. E de não pensar em nada.
Benjamin Button
Não me empolgou tanto "O curioso caso de Benjamin Button". Não é que seja um filme que aborreça. Dá pra ver com certo interesse. Mas ficou aquém das minhas expectativas. David Ficher é bom diretor e tal e coisa, mas achei o filme sem encanto. O que para uma fábula é um pecado. Há boa carpitaria, um certo perfeccionismo, a maquiagem é excepcional, a luz é excelente, há atuações convincentes da dupla Pitt/Blanchett, bom elenco secundário. Mas é um filme que não me capturou. Achei tudo muito frio, na verdade. O longa traz no início uma pequenina história que me interessou mais que todo o filme que veio a seguir. A história do homem que constrói um relógio cujos ponteiros andam no sentido contrário para tentar fazer o tempo voltar e, quem sabe, ter de volta seu filho que morreu na guerra. Muito bonitinho. Entendo que dentro dessa historinha está a lógica do homem que nasce velho e vai rejuvenescendo até morrer bebê nos braços da mulher amada. A idéia é original, não há dúvida. Mas o mérito maior é de Fitzgerald, autor do conto que deu origem ao filme. O filme em si é dispensável.
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