sábado, 23 de maio de 2009

Mulheres perfeitas


A ciência e a tecnologia avançam. Tudo indica que num futuro próximo será possível comprar numa loja bonecas tão perfeitas quanto uma mulher de verdade. Li uma reportagem sobre isso. Seria uma ótima saída para quem gosta da companhia feminina, mas não suporta os dissabores de um relacionamento. Por isso, já escolhi o meu modelo. Quem sabe na próxima ida ao mercado eu não traga para casa no meio das compras a minha réplica da atriz Summer Glau, que aparece na foto acima? Ela é um ciborgue na série americana "Terminator: The Sarah Connor Chronicles". Uma mulher que só fala quando a gente programa, que não discute a relação e que nunca tem TPM? Que mais um homem pode querer da vida?

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Não tem esse negócio de prato preferido comigo. O meu preferido é o prato bem feito, gostoso. Mas tenho sido cada dia mais apreciador de feijoada. Lendo o blog do Luiz Américo, concordo quando ele fala que comer feijoada é um ritual, geralmente reservado aos sábados. Pelo menos comigo tem sido assim. Em geral, ela rende até a segunda-feira e ninguém reclama lá em casa, todos comemos e repetimos felizes da vida. Eu sou um cara que toda semana preparo um cardápio diferente, a cozinha é minha entre sábado e domingo e sinto falta quando não me sobra tempo pra cozinhar. Por exemplo: estava fazendo um curso nesse fim de semana passado (e seriam dois finais de semana seguidos sem cozinhar). A abstinência me subiu a cabeça a tal ponto que eu cheguei em casa do curso no sábado à noite e fui direto para a cozinha. Algumas horas depois estava pronto o crime. Sei que é politicamente incorreto (crianças, não façam isso em casa!), mas sentei para saborear minha feijoada depois das dez da noite. E digo: nunca fui tão feliz em toda a minha vida, nem quando entrevistei a Simone Spoladore.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Alice

Estou com saudade de Andréia Horta, a atriz que interpretou o personagem título da telessérie Alice, da HBO. Tinha muita vontade de ver Alice, que depois se mostrou deliciosa (obviamente, não me refiro apenas às inúmeras cenas da Andréia sem roupa). A série é muito bacana, centrada em São Paulo, com a personagem vinda de uma pequena cidade de Tocantins e se deixando fisgar pela metrópole. O último episódio, só consegui ver ontem (precisava conciliar com o melhor horário e em momentos em que que o humor de Eloá estivesse favorável). Alice terminou com cara de telenovela (o que não é exatamente um demérito), com direito a casamento e a personagem tendo uma revelação importante sobre o seu passado. Tudo bem que o casamento foi entre duas mulheres e a revelação levou Alice ao cenário absolutamente incomum de um deserto imenso. Ao longo dos episódios, ela comeu o pão que o diabo amassou, mas venceu. O trabalho e os contatos que fez em São Paulo a ajudaram a chegar lá. A trilha da série é bem legal e em poucas doses como deve ser. O elenco é muito bom, com participações várias de nomes conhecidos. Pena que terminou sem sinal de que haverá uma segunda temporada.

domingo, 17 de maio de 2009

Era uma vez

Depois de ler um romance, Mário de Andrade ficou puto com o autor. Ele elogiou o livro, mas reclamou em uma carta que o escritor fez muito mal em matar uma determinada personagem feminina da trama. Eu senti coisa parecida depois de ver o filme "Era uma vez" hoje. Antes de tudo, é legal dizer que Breno Silveira é um diretor que vai sempre me fazer ficar curioso por suas coisas. Ele estreou com "Dois filhos de Francisco", que gosto bastante, e seu segundo trabalho é esse "Era uma vez", estreado nos cinemas ano passado. A primeira coisa que achei boa foi o título. Que, se a gente pensar bem, antecipa informações sobre o próprio Breno. Ele gosta de trabalhar com o repertório do público, gosta de trabalhar com clichês. Não vejo mal nisso, tudo está valendo desde que seja feito bem feitinho, com talento, tendo algo para dizer.

"Era uma vez" é um trabalho envolvente, com umas coisas de imagens bem interessantes e um elenco simpático. É um filme cheio de tensão e com algumas cenas bem violentas. O personagem principal, Dé, é feito pelo jovem ator Thiago Martins, que está bem cativante em cena. Assim como a novata Vitória Frate está do tamanho que se espera de uma princesa de conto de fadas; bela, graciosa e entregue ao papel. O que é muito bom, até surpreendente: Rocco Pitanga, ator que faz o irmão criminoso de Dé. Rocco alterna ternura, lealdade e terror como só atores muito bons conseguem. Tiro o chapéu para sua performance. Ele está maravilhoso. Se não fizer mais nada que preste daqui por diante, já valeu. Mas espero que ele mostre mais personas tão complexas quanto essa em seus próximos trabalhos.

Me incomodou muito o fim trágico do romance. Tudo leva a crer que a história caminha para uma direção, mas do meio pro fim, Breno começa a armar sua bomba e reedita a tragédia de Shakespeare na calçada de Ipanema. Fiquei decepcionado, apesar de aquela cena pós-letreiro abrir uma perspectiva interessante. O fato é que ficaria muito mais feliz se em vez da tragédia, o casal conseguisse fugir para uma praia no Nordeste, como eles tinham planejado.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Subvertendo o nome da canção de Noel Rosa, essa é a garota que é sempre um palpite feliz. Franklin vai ficar chateado porque mais uma vez não estou falando dos buracos na rua. É que tenho apego a coisa boa. Renato Aragão, lá na pré-história, fazia um personagem que passava o dedo nas moças e lambia em seguida (o dedo). E suspirava: "bicho bom, pai". Eu vejo esse ensaio de Pitty em seu site e penso a mesmíssima coisa. Mas fico só no pensamento, porque sou um rapaz sério.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Sobre mãe e terminator

Minha mulher queria que eu a acompanhasse até a casa da sua mãe no domingo. Era o almoço costumeiro de Dia das Mães. Eu estava impossibilitado devido às quase doze horas de farra do dia anterior para marcar o meu aniversário. Brigamos e ela acabou indo sozinha ver a mamãe. É ruim desagradar a patroa desse jeito. Mas a vida continua e se houve um ganho nessa história foi eu ter visto os primeiros episódios de "Terminator: The Sarah Connor Chronicles". A série é feita sobre o espólio da trilogia Exterminador do Futuro, o famoso filme iniciado com James Cameron (aliás os dois primeiros dirigidos por Cameron são muito bons e eu não desgosto do terceiro, a Rebelião das Máquinas). A série não está no nível dos filmes, nem mesmo do terceiro. Mas agrada quem acompanhou e tem interesse na franquia. É o meu caso. Por incrível que pareça todo meu interesse na série surgiu em um momento. Foi quando eu vi a capa do DVD com a imagem da mocinha que faz o robô. É uma imagem bela e forte. A foto me parece superior à própria série, pelo menos melhor que os dois ou três primeiros capítulos que vi. É uma comparação esdrúxula. Mas é que gostei mesmo da foto.
"Eu não acredito em moral, em religião, em instâncias superiores de qualquer natureza. Acredito apenas em tentarmos ser felizes, enquanto ainda estamos vivos, do jeito que for possível. Minha única restrição é: não vale ferir os outros. Se você chama isto de pragmatismo, tudo bem. O problema das religiões é o mesmo da filosofia marxista: acreditar que o ser humano é intrinsecamente bom e que basta dar uma oportunidade para que todos sejam generosos e bonzinhos. Eu acho o oposto: os seres humanos são egoístas, cruéis e indiferentes aos outros. E não tendem a melhorar." Woody Allen

A era do escândalo

Estou gostando bem menos de "A Era do Escândalo", livro de Mário Rosa, do que achei que fosse gostar. Fiquei inclinado a ler depois que minhas amigas de clube de leitura elogiaram. Há mesmo coisas bem legais, como a primeira história que trata da tragêdia com o vôo da Tam e o case sobre o apagão no governo FHC. No geral, estou achando o livro de uma redundância irritante e de um didatismo excessivo. Antes de chegar à primeira página, quase desisto, porque há diversos textos de apresentação que funcionam mais para espantar o leitor e dizer: "se prepare para uma chatice sem fim". Mas não é isso que ocorre. Essas páginas e páginas de preparação é que são um pé no saco. O livro em si é melhor (pelo menos até onde cheguei, cerca de um terço). Mas que se entenda: se por um lado, em menos da metade do espaço seria possível dizer a mesma coisa (e melhor), por outro, nos dá a sensação de que faltou detalhar mais em certos momentos. Conclusão: faltou editor eficiente. Tomara Deus que não seja aqueles livros que a gente lê saltando páginas para acabar logo.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Larry Rohter

Terminei "Deu no New York Times", livro que reúne reportagens do correspondente americano Larry Rohter. Gosto da escrita do Rother, embora boa parte das matérias perca a força porque foram escritas para ter um determinado tempo de vida, o que é normal para jornal (mas não para livro). As matérias, divididas em blocos, têm uma introdução que explica seu contexto e situa o leitor quanto à sua repercussão à época. Algumas coisas são bem interessantes, especialmente o primeiro capítulo sobre cultura e, em parte, o capítulo que trata de sociedade. O mais divertido é ver o estranhamento do repórter com certos hábitos e cultura locais.

O tempo inteiro ele faz um paralelo entre o Brasil e outros países onde trabalhou e principalmante - e isso é irritante - mostra o quanto somos atrasados na comparação com os Estados Unidos e a Europa. Ele se defende quanto a isso. Diz que faz esse paralelo com freqüência porque identificou no Brasil uma tendência muito forte para esconder suas mazelas e atribuir parte dos seus problemas à ação dos estrangeiros. Nos capítulos que tratam de política nacional e de política internacional, ele mostra toda a sua desaprovação ao governo Lula, que tentou expulsá-lo do país após publicação de matéria sobre o hábito de beber do presidente. O livro desanca o governo e o PT. E fala um pouco desse histórico. Segundo Rother, o partido não gostava dele mesmo antes de chegar ao poder e a relação só piorou depois.

Ele tenta ser equilibrado na forma, mas o conteúdo é inequívoco e deixa clara sua posição sobre uma série de questões. E ele desce a porrada a torto e a direito. E isso é bom.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Séries

Sobrevivi ao feriadão com doses generosas dos seriados "Em terapia", "30 Rock" e até "Prison Break", cuja quarta temporada comecei a ver. Novidade total para mim, "30 Rock" é muito divertido e inteligente. As histórias ocorrem nos bastidores de um programa de TV, focando sua equipe de criação, uma produtora muito simpática que protagoniza as histórias, e o chefão de todos, vivido por um Alec Baldwin engraçadíssimo. Ainda estou nos primeiros episódios, mas feliz da vida pela quantidade que me espera. Se todos forem do mesmo nível dos três primeiros, eu estou feito.

Monstros vs. Alienígenas

Então fui com a filha e com Eloá, no fim de semana, ver um filme de criança, desses que às vezes queremos ver mais até do que os filhos. "Monstros vs. Alienígenas", animação da Dreamworks, é divertido, tem um bom timing, mas seria muito menos interessante se não fosse a personagem "Susan" (ou "Ginórmica"), a moça que é atingida por um meteoro e fica gigantesca. Na história, vêm à tona todos aqueles filmes que tratam de ameaças nucleares, segredos militares e perigo de uma destruição mundial. O roteiro brinca bastante com a posição dos EUA como epicentro de qualquer conflito em larga escala e apresenta um presidente tão escroto e risível, que vale a pena ver. A história ganha mais movimento na segunda parte quando entra em cena um vilão bobo e vaidoso, uma caricatura de tantos vilões que já vimos nas telas. É um filme para crianças maiores, tem muita ação, suspense e até um certo clima de terror. Minha filhinha foi a mais entusiasmada defensora do filme, quando conversamos depois da sessão. Eloá gostou tanto que disse que quase dormiu em uma determinada hora. Eu estou mais no time da minha pequena. Me diverti muito.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

O pastel e o sonho

Esse era o nome de um conto de meu irmão, que não sei se ele ainda guarda. É um trocadilho entre esses alimentos e a história de um cara que come um pastel, pega um ônibus e lá dorme e sonha. Acho que é mais ou menos isso. Uso o título dele para falar outra coisa que tem a ver com pastel e esse outro tipo de sonho. Eu imaginava que certas coisas são fruto de um mundo inacessível. A feitura de pastéis, por exemplo. Pastéis remontam à minha infância. Eu nunca, quando era novo, imaginei que seria capaz um dia de criar com as próprias mãos algo que começa com poucos ingredientes (um pouco de farinha de trigo, ovo, água, uma colher de óleo, outras duas de aguardente) e se transforma em... infância. Sabe a animação "Ratatouille", quando o crítico experimenta o prato e volta no tempo para a sua época de criança (que é uma referência à obra "Em busca do tempo perdido", de Marcel Proust)? Pois aconteceu comigo. Fiz pastéis esse fim de semana. Antes, explico que a aventura não foi fácil como eu supunha.

Bater a massa é tranquilo, basta ter cuidado na hora de ir acrescentando a água morna. A dificuldade que encontrei foi deixar a massa bem finininha e ir colocando o recheio. Tive que ter paciência quando o rolo abria pequenos buracos na massa ou quando ela grudava na mesa, apesar da farinha. E sempre sobrava um pouco de massa e mais um pouco, que ia se acumulando. No fim, fiz a grande besteira de ir colocando os pastéis crus um em cima do outro. Eles começaram a grudar uns nos outros. Nessa hora tive uma raiva que quase jogo tudo fora. Mas respirei. Desgrudei o que foi possível. E ainda sobrou uns vinte pastéis que dava para fritar. Nessa hora, veio a boa surpresa. Os pastéis incharam, dobraram de tamanho e ficaram lindos depois de secos. Quando vi a primeira leva de pastéis na bandeja secando, todos lindinhos, fiquei muito feliz mesmo. A recompensa: estava uma delícia. Comer pastéis quentinhos é tudo de bom. Minha filha adorou, acompanhou tudo, passo-a-passo, chegou a botar a mão na massa um momento. Fiz dois tipos de recheio: carne e soja. Percebi que com a prática vai dar para ir pegando a manha. De cara, comi uns seis.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

United States of Tara

United States of Tara, uma nova série (estreou em janeiro), escrita por Diablo Cody, a autora de "Juno", causa estranhamento à primeira vista. Não sei se gostei, embora ache que a Toni Collette (de "Pequena Miss Sunshine"), que é ótima, deita e rola em uma interpretação que domina a trama. É o tipo de programa que só poderia funcionar com uma atriz de muitos talentos, com vários coelhos na cartola. A história é a de uma família, cuja mãe (Collette) tem múltiplas personalidades, entre elas a de uma adolescente sexy e a de uma lésbica com trejeitos de macho. As mudanças de personalidades me pareceram rápidas demais, mesmo para um episódio piloto. É o tipo de programa moderninho, cheio de maneirismos e localizada - é o que parece - em uma pequena cidade americana. O tipo de série descolada. Acho que só dá para formar opinião melhor com mais alguns episódios.

Pode escrever o caralho aí

"Ministério Público é o caralho! Não tenho medo de ninguém. Da imprensa, de deputados. Pode escrever o caralho aí." Ciro Gomes, deputado federal

Tenho simpatia pelo Ciro Gomes. Há um histórico complicado na sua relação com jornalistas. Ciro tem boca suja, não engole provocação e fala o que pensa, mesmo que crie saia justa para aliados e problemas para ele mesmo. O que não é nada bom para um virtual candidato à presidência. Há uma implicância nítida de alguns profissionais de imprensa com ele. Bem fácil, as coisas esquentam. Mas esse post não é para falar disso. Minha cabeça estava mais na cobertura política dessa última semana. O bate-boca dos ministros do STF, a questão das passagens aéreas no Congresso e, claro, o noticiário antecipado sobre a movimentação para as eleições de 2010. Nossos políticos não são santos. Menos ainda a nossa imprensa. Eu sou jornalista. E favorável à imprensa livre. Mas acho que há exageros e muito "maria vai com as outras" na cobertura da imprensa. Muito legítimo pegar no pé de autoridades, se há razão para tal. Mas se comportar com generalismo e como se ela, a imprensa, fosse inimputável é complicado. Qualquer crítica à abordagem dos meios de comunicação é tratada como um absurdo, como algo fora de lugar e, não raro, rechaçada com veemência. Ora, a cobertura dos veículos ao mesmo tempo que é míope em relação a muito do que acontece no país, especialmente fora dos grandes centros, por outro lado é excessiva, repetitiva, em relação a determinados temas. Sem falar que sua relação nebulosa com o poder é um dado da realidade que põe suspeita sobre muito do que é veiculado. Não sou bobo de achar que as coisas que são veiculadas atendem ao estrito e digno interesse público. É bem mais complicado que isso.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

A vida como ela é

Graças ao bom Eduardo, colega do trabalho, estou revendo os episódios de "A vida como ela é". São pequeninas histórias de Nelson Rodrigues, levadas à TV por Daniel Filho, em 1996. O material é de muito boa qualidade, filmado em película, com uma gostosa trilha e boa narração de José Wilker. Os episódios contam com um ótimo elenco, que é seu ponto alto. A seleção de atrizes é campeã, todas bem jovens à época, fazendo os tipos rodriguianos: Cláudia Abreu, Gabriela Duarte, Débora Bloch, Giulia Gam, Isabela Garcia, Maitê Proença e Malu Madder são as que eu lembro o nome de cabeça. Todas de roupinha de época, aquele sotaquezinho e tirando a roupa episódio sim e o outro também. Tenho certeza que a série foi feita pensando em mim. Uma delícia.

Deu no New York Times

Estou gostando de ler "Deu no New York Times", livro que reúne reportagens do correspondente americano Larry Rohter. O livro está dividido por temas. O primeiro é "cultura", o segundo é "sociedade", onde estou, mas tem outros como "política nacional", "política internacional" etc. A obra de Rother permite uma abordagem democrática, é possível encontrar motivos fartos para elogio e para meter o pau. Particularmente, gosto de sua reflexão sobre o país, seus comentários antes de cada capítulo que mostram tanto o interesse quanto o desgosto de um estrangeiro por nossas coisas. Não dá para concordar com tudo que ele fala. Seria louco se atestasse suas teorias sobre o atraso do país que ele contrapõe com bons exemplos americanos (ou europeus e japoneses), ignorando a história. Mas é bom ver como funciona esse olhar de fora, esse espanto.

As suas reportagens são irregulares, algumas bem bacanas, outras superficiais. Como jornalista gosto de ver como ele constrói o texto e a forma como vai estruturando as matérias. Alguém falou esta semana que nosso jornalismo de TV e de jornal é um dos melhores do mundo. Não conheço o mundo todo mas desconfio, pelo que leio aqui e ali, que temos profissionais realmente muito bons. Voltando a "Deu no NYT", estou curioso para chegar ao episódio que rendeu sua quase expulsão do país, quando ele fez uma matéria falando sobre o gosto de Lula pela bebida. Foi sua matéria mais polêmica em décadas como correspondente. E é bem provável que o tenha ajudado a vender esse livro (inclusive atraindo o interesse de editores). Não é à-toa que há um bom pedaço do livro com o título "Lula e eu".

Educação sexual

Estava vendo na TV esses debates sobre como conversar sobre sexo com as crianças e pensei no que ocorre lá em casa. Não é porque eu sou pai, mas minha filha é uma das mais inteligentes garotinhas que eu conheço (nem falo do charme e beleza naturais). O fato é que vez ou outra me vem com perguntas desconcertantes. Eu entreguei à Eloá a missão de explicar as questões mais cabeludas. No passado, achei que seria um pai moderno e desinibido. Planejei que sobre tudo falaria com minha filha e não existiria assunto proibido. Quando eu era criança, fingíamos, pais e filhos, que certas coisas não existiam (falo de sexo, obviamente). Da porta para fora, no entanto, havia uma escola e o aprendizado era diário, mesmo torto. Meninos maiores falavam sem frescura na frente dos garotos menores e íamos absorvendo aquele conteúdo. Com pouco tempo dava para juntar o quebra-cabeça e estávamos feitos em matéria de educação sexual (sem falar na ilustração de revistas para maiores de 18). Hoje, com tanta informação circulando nos meios oficiais, ainda assim é bem difícil tratar certos tópicos. Mas Eloá está se saindo muito bem. Até eu aprendo com ela. Outro dia ela me repreendeu porque presenciou minha filha me questionando. A pequena me perguntava se "gay era mulher que gosta de mulher". Eu disse "não". Com ares de professor, expliquei que mulher que gosta de mulher é jacaré. Eloá gritou de lá: "A-d-mil-son!". Eu falei: ok, corre lá que Eloá te explica. Ela saiu resignada: "você é muito besta, viu, meu pai".

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Pancake

Ontem foi dia de inventar panqueca ou pancakes como chamam os americanos. Adoro panquecas e tinha timidez de fazer eu mesmo as minhas. Ontem achei uma boa oportunidade. Eloá foi a uma palestra sobre imigração internacional à noite e não deu tempo de comprar pão. Todos gostamos de pão lá em casa, mas eu passo muito bem sem ele. Eloá, não. O que fazer? Naquele horário, mais de oito da noite, não se acha pão em lugar nenhum próximo, nem fresco nem macho. Achei que Eloá ia gostar de chegar em casa e encontrar belas panquecas esperando por ela. Tinha os ingredientes básicos para a massa: farinha de trigo, leite, ovo e queijo para ralar. Me paramentei, dobrei a manga da camisa, peguei o avental e fui para o fogão. A primeira panqueca saiu perfeita, fininha, gostosa, ótima cor. Eu virei o lado com uma espátula e tudo correu perfeitamente bem. O problema é que na segunda eu empolguei. Fui tentar virar o lado jogando pra cima com a frigideira. Ela subiu meio metro e voltou para quase se esborrachar, torta, dentro da panela. Não se esborrachou, mas sofreu rachaduras em três partes. Depois que eu coloquei o recheio e fui tentar enrolar, ela se partiu ao meio. Ficou uma bonitona e a outra, feia, seccionada. Paciência. No recheio, precisei improvisar, mas não acho que me sai mal. Suei, no azeite doce, meia cebola ralada com tomate cortado em pedaços pequeninos. Trouxe a mistura para um prato onde juntei duas colheres de requeijão cremoso, um bocadinho de lascas de queijo, orégano, pimenta e uma pitada de sal. Eloá chegou da rua faminta, como sempre ocorre, e devorou as panquecas com satisfação. Foi bonito de ver.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Fim da revista SET

Leio que a revista SET acabou por causa da saída da editora Peixes. Uma pena. Não que a SET fosse tão excelente assim, eu tinha minhas (muitas) observações sobre a revista. Mas era uma publicação dedicada, com gente que conhecia o traçado, e muito material exclusivo - o que é um feito em tempos de internet. Se o seu forte não era o seu conjunto de críticas, salvo uma ou outra matéria mais elaborada, ela ganhava pontos pela abrangência e pelo espaço que também dava a produções nacionais e aos chamados cult/clássicos. Não era só blockbuster, mesmo que as capas fossem preponderantes nesse caminho. Seu público era aquele do cinema de entretenimento. E não há mal nisso. O consolo é que os jornalões - Folha e Estado - têm boas equipes e material digno. As revistas semanais, em geral, que trazem alguma coisa sobre cinema, deixa demais a desejar. Vamos aguardar que a SET ressurja pelo interesse de alguma editora. E que seja breve.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Sobre 1958 (e mau humor)

Sabe que até estou gostando de "Feliz 1958 - O ano que não devia terminar"? Falei mal da apresentação desse livro de Joaquim Ferreira dos Santos e fiquei com o pé atrás. Depois, fui me deixando levar e viajando com a narrativa. Ao contrário do que Marlla pensa, um começo ruim não significa que tudo a partir dali será uma merd...

Explico: eu fui à cerimônia do "Troféu Dodô e Osmar" outro dia e odiei ficar esperando com um pequena multidão, no calor, para entrar no Teatro Castro Alves, coisa nova. E o evento começou atrasado pelo menos meia hora (coisa novíssima). Nunca tinha ido ao Teatro Castro Alves para um espetáculo começar atrasado, desde a reinauguração, nos idos do governo de ACM. Não quero pensar no governador Jaques Wagner e em seu secretário de Cultura, Márcio Meireles (que é um cara simpático e bom diretor de teatro), como aqueles que fizeram o TCA retroceder à bárbarie. Mas fiquei puto de início.

E depois que a premiação dos melhores do carnaval baiano foi caminhando fui ficando mais puto ainda (só o Gerônimo travestido e aviadado me trouxe algum alento, alguma satisfação). Nem o show final de Gilberto Gil e Ivete Sangalo me convenceu. Gil é grande, um músico de tantos talentos, um cara genial, mas seu pocket show foi feito no piloto automático. Ao contrário do que escreveu alguns comentaristas imbecis, o problema não foi do repertório escolhido. Foi da absoluta frieza dos dois artistas. Marlla disse que eu não gostei da cerimônia, porque me chateei no início com o atraso, fui contaminado por um mal começo. Não foi por isso (apenas). Um começo ruim pode ser remediado sempre, desde que o que venha a seguir compense.

Voltando ao livro de Joaquim Ferreira dos Santos. Hoje entrei no táxi e fiz o que costumo fazer: saquei o livro e retomei a leitura. O taxista (ô raça que não consegue ficar sem tagarelar) perguntou que livrinho velho era esse que eu estava lendo, de 1958!, e deu uma gargalhada. Não deu para ter certeza, mas acho que ele quis ser engraçado. Só pode, não é possível ser tão idiota. Nem me preocupei em dizer que 1958 era só o título. O livro foi escrito 40 anos depois. Disse apenas um "eh" sem graça. Era um "eh" com o sentido de "vai se...". Mas não disse o que significava aquele "eh". Não faço essas coisas. Sou um rapaz educado.

Minha coleguinha de trabalho, Juliana, uma mina muito graçinha e uma inteligência superior, disse que eu estava muito mal humorado outro dia. Acho que ando meio mau humorado mesmo. Estou um pouquinho melhor, porque depois de "Viva 1958..." já tem um livro na fila. Um, aliás, que queria muito ler. Chama-se "Deu no New York Times", escrito pelo correspondente no Brasil do jornalão americano, Larry Rohter. Empréstimo de minha amiguinha Marlla. Gente boa.

domingo, 5 de abril de 2009

Panela nova, comida boa

Sérgio Reis pode não concordar. O fato é que comprei uma panela grande nova e achei que nada faria melhor estréia na moça que uma bela feijoada baiana. E arrumei a melhor assistente de cozinha que alguém poderia ter nos cinco continentes, minha própria filha. O resultado, coincidência ou não, foi excelente. Eloá disse que foi a melhor feijoada que já fiz até então (até hoje não sei se ela falou sinceramente ou se queria fazer as pazes já que estávamos meios estremecidos, o fato é que ficamos bem melhor depois dos elogios). Também tinha me prometido para esse fim de semana um dos clássicos da culinária de botequim, o bolinho de bacalhau. Descobri que dessalgar o bacalhau é um negócio que requer mesmo paciência, não adianta forçar a barra. Foi um fim de semana feliz, não poderia ser melhor.

Enfim, pão


Próximo à semana santa, as coisas acontecem. Basta um pouquinho de fé e paciência na hora de bater a massa. E saiu esse pão lindão, que eu um dia não me acreditava capaz. Eloá devorou quase um inteiro, mal esfriou. Estou todo, todo. Um pão gostoso, pesado, macio e com iogurte natural e passas na receita. Delícia!

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Estômago

Agradeço a Eduardo por essa. Muito, muito legal o filme "Estômago", do Marcos Jorge, com João Miguel à frente do elenco. Vi no último fim de semana, sozinho (Eloá preferiu "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain"). O filme de Marcos Jorge é o melhor que vi nos últimos tempos. Vejo muito filme e sou fácil de gostar, mas "Estômago", putz, supera as expectativas. É uma pequena obra-prima. Volto ao assunto depois.

Lembrança

Aí eu fumava quando dava na telha. Era mais de sarro. E sempre gostei de fazer coisas que insultam as patrulhas organizadas. E não há nada mais insuportável que as comadres (homens e mulheres) que berram, fazem discursos emocionados para você parar de fumar. Mesmo que você se isole, ache um buraco e fique lá tragando sozinho, não há perdão. Pior que o pessoal anti-fumo é o pessoal que reverbera contra o consumo de carne. Ô raça ruim. O cara não se contenta em fazer uma escolha para a vida dele, quer levar o mundo inteiro para o seu paraíso (mesmo que seu paraíso seja o inferno). Mas enfim, essas noites eram maravilhosas. Em minhas lembranças, há os porres homéricos, os papos incríveis. Salvador era diferente. Na época da faculdade, na verdade começou bem antes, tive a sorte de me bater com uns caras muito legais, loucos, uns amigos do peito que tenho até hoje. E era acolhido pela porralouquice, pela vontade de fazer cinema ou teatro, de ser um grande poeta, de fundar um movimento literário. Meu amigo Franklin dizia que com dois poetas já era possível fazer um grande barulho, pensávamos em Mário e Oswald de Andrade, creio. Nunca fui muito do Oswald, apesar de tudo o que ele significou para a tropicália e tal. E Cazuza, que gosto até hoje, musicou um poema do Oswald, "Balada do Esplanada", lindamente. Mas meu coração sempre foi do Mário. Recitava sozinho "Eu sou trezentos, sou trezentos e cinqüenta". Estávamos no ensino médio, em cursos técnicos, mas ninguém queria ser técnico nem engenheiro, o passo seguinte. Todos queríamos ser artistas. Os mecânicos, eletrotécnicos, instrumentistas, eletrônicos, químicos, todos queríamos ser cineastas, poetas, compositores, queríamos chutar o pau da barraca, fazer a revolução. E mesmo numa escola técnica, discutíamos mais política e cultura do que leis da física. Ninguém saiu ileso daqueles tempos.

terça-feira, 31 de março de 2009

Notas sobre livros

I

Li com muito prazer "Cem quilos de ouro", publicação de reportagens especiais de Fernando Morais em livro. O material começa muito bem, com a história do seqüestro de um empresário baiano, e termina melhor ainda, com um perfil do juiz espanhol que mandou prender o ex-ditador do Chile, Augusto Pinochet, em Londres. Há coisas muito boas, preciosas, como os dois perfis do ex-presidente Fernando Collor; um perfil dele no auge do poder, outro retratando seus dias afastado do cargo. Gostei muito também da reprodução da prosa de Otto Lara Resende, Rubem Braga e Moacir Werneck de Castro sobre o personagem Assis Chateaubriand, que viria a ser biografado por Morais em outro livro. Há pelo menos um texto totalmente dispensável, que trata do magnata americano William Randolph Hearst, que inspirou o filme Cidadão Kane, de Orson Welles. Eu também cortaria sem pena uma matéria desinteressante (pra não dizer sonífera) sobre a República Árabe Saarauí Democrática. Feita a ressalva, no geral, uma boa leitura.

II

Enfim, estou conseguindo manter o bom ritmo. São quase quatro livros em três meses (contando com "O Anjo Pornográfico", que me pegou de dezembro para janeiro). Ainda mal começou abril e já iniciei a leitura de Joaquim Ferreira dos Santos, com"Feliz 1958 - O ano que não devia terminar". A apresentação da obra é ruim, com aquela citação sem fim de acontecimentos do ano de 58. O autor quer ser engraçado e acaba sendo excessivo, com suas mil piadinhas, metáforas e trocadilhos com expressões e personagens da época. Felizmente, o livro melhora bastante a partir do primeiro capítulo, que centra em acontecimentos envolvendo a construção da capital federal e lances da seleção brasileira que começa a deixar de lado a síndrome de vira-lata (para usar expressão de Nelson Rodrigues). Já havia lido - e gostado bastante de - outro livro de Joaquim Ferreira dos Santos, uma biografia de Antônio Maria, o locutor de rádio, compositor popular e homem de imprensa. Apesar da apresentação, estou querendo crer que "Feliz 1958..." fará valer o tempo gasto com ele.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Aí fiquei com essa vontade de ver "Batismo de Sangue", adaptação em cinema para o livro de frei Beto. E lendo a entrevista de Pedro Almodóvar no Estadão de domingo, ele falando do novo filme prestes a estrear, fiquei cheio de vontade de rever seus filmes, todos. Sempre tão pouco tempo e tanta coisa para ver, para conhecer. Principalmente quando se tem a vida real para dar conta, de trabalho, filho, mulher, coisas de casa...

domingo, 22 de março de 2009

Controle Absoluto

Sou mesmo um cara corajoso. Para assistir até o fim o filme "Controle Absoluto", dirigido por D. J. Caruso (quem?), é preciso muita paciência. Não gosto nem um pouco do Shia Labeouf, o herói da história. O que me motivou a ver o filme foi a presença no elenco da interessantíssima Michelle Monaghan. O filme de Caruso copia, de maneira sem vergonha, um monte de outros filmes conhecidos ("Matrix", "Inimigo do Estado", "Duro de Matar 4.0", "2001...", a lista é interminável) para fazer um triller de ação meia-boca, uma bobagem imensa, que envolve segurança nacional americana e ciberterrorismo. Duas horas inteiras jogadas na lata do lixo.

Blindness

Acabei de ver e gostei de muitas coisas no filme "Blindness", de Fernando Meireles, baseado no livro "Ensaio sobre a cegueira" de Saramago. As soluções de imagem de Meireles em geral são bem criativas e em alguns momentos, geniais. O uso de filtro branco para simular a cegueira gera algumas cenas poéticas, bonitas, sofisticadas. Alguns atores estão especialmente bem em cena, Julianne Moore, Mark Ruffalo e Alice Braga são os melhores. É um filme de autor sim. Um filme com muitas qualidades técnicas, uma fotografia soberba, uma trilha sonora deliciosa. Mas concordo quando se fala que é um filme frio. Bem realizado, mas não toca o coração. E pareceu muito mais longo, o que denuncia um problema de ritmo.

sábado, 21 de março de 2009

O Quatrilho

Com atraso de 14 anos peguei pra ver "O Quatrilho", filme de Fábio Barreto, muito comentado à época por causa de sua indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Assisti com muita satisfação a história passada no Sul do país, muito bom ver alguns atores que não estamos mais acostumados, como o grande e saudoso Gianfrancesco Guarnieri. No filme, uma história bem interessante de dois casais de imigrantes no sul do país, com Patrícia Pilar e Glória Pires nos papéis principais. Em certo momento, o personagem de Pilar, apaixonado pelo marido da outra, foge com ele. Glória Pires é obrigada a refazer a vida e acaba por se envolver com o homem que fora abandonado. É a reprodução na vida real do jogo de troca de parceiros referido no título, o quatrilho. Patrícia Pilar é boa atriz e está bem diferente do papel recente que fez na TV. Mas Glória Pires domina o filme e embora seu personagem só cresça na segunda metade, é o suficiente para ser impossível passar pelo filme sem se sentir afetado pela sua atuação.

Comida baiana

Continuo firme no meu propósito de fazer os pratos baianos para a semana santa. Hoje fiz pela primeira vez um vatapá, com pão, leite de coco, azeite de dendê, amendoim, castanha, gengibre e camarão. Minha irmã faz o melhor vatapá que já comi na vida. O meu não saiu de tão alto nível quanto o dela, mas ainda assim delicioso. Para acompanhar, fiz arroz branco (claro!) e uma moqueca de ovos com camarão (inventada na hora), com coisas catadas na geladeira: carne seca, linguiça e batata. A moqueca, com acompanhamento do arroz e vatapá, caiu muito bem. Estou gostando de poder registrar as peripécias na cozinha com uma kodak que Eloá me fez comprar e que, agora vejo, foi uma ótima aquisição.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Budapeste

A propósito, vi ontem o trailer do novo filme do Walter Carvalho, "Budapeste", baseado no romance de Chico Buarque. Walter Carvalho tem um currículo imenso, é o ótimo diretor de fotografia de filmes bem conhecidos ("Carandiru", "O Céu de Suely", "Abril Despedaçado"). Adorei o que vi de Budapeste, embora a gente saiba que trailer engana muito. O protagonista é o Leonardo Medeiros, que é o bom ator que todo mundo sabe. Fiquei até com vontade de ter gostado do livro.

Quem quer ser um milionário?

Não entendi bem as palavras exaltadas vistas em tantos veículos para falar mal de "Quem quer ser um milionário?", filme de Danny Boyle (mesmo diretor de "Trainspotting" e "A Praia"). Também houve os defensores, claro, e não poucos. Todos eles muitos seduzidos pelo longa-metragem que se passa na Índia, especificamente centrado num trio de protagonistas que cresce na miséria e têm destinos diferentes. Fui assistir ontem e estou mais para o grupo que se viu seduzido pelo filme de Boyle. Fui para o cinema bem desconfiado e no princípio não relaxei. Pelo que li antes, acabei indo armado, achando que não ia gostar. Mas, pouco a pouco, o filme foi me desarmando e fui me envolvendo na história desse rapaz que participa do show do milhão indiano e vai até o fim, respondendo todas as perguntas, um fato inédito na história do programa. E mais incrível ainda por se tratar de um rapaz saído da favela, que trabalha num call center servindo chá. Ele - Jamal - mobiliza todo o país e cria uma torcida de milhões de pessoas.

O motor e o motivo de tudo é uma história de amor, que é bem feitinha, crível e compensadora como costumam ser os contos de fada. O filme dá um show na sua montagem, que permite contar as várias histórias dentro da história, com ritmo, com graça e interesse. No começo parece que vão encher o saco as idas e vindas no passado, sempre que no jogo é feita uma pergunta. O filme é o jogo, mas isso não prejudica a narrativa, antes ajuda a dar ritmo e marca uma diferença na maneira de contar. Me irritei inicialmente com o que me pareceu uma forçada de barra de Boyle para transformar todas as cenas em vídeo clip, com uma trilha animadinha. Com algum tempo de filme, já não me incomodava com isso e me deixava levar pela ficção. O filme é um drama romântico, que não alivia em cenas violentas e asquerosas. O país miserável é mostrado com toda a sua feiúra. A cena final, dos créditos, com aquele musical, é graciosa e mais que bem-vinda depois de tanto sofrimento do par romântico. Um bom filme, lindamente filmado. Preciso ver de novo para saber se não exagero.

terça-feira, 17 de março de 2009

Trovão Tropical

Não sei se gostei de "Trovão Tropical", a comédia de Ben Stiller que parodia o cinema de guerra e os bastidores de Hollywood. O elenco é bom (o próprio Stiller, Jack Black, Robert Downey Jr., Matthew McConaughhey, Tom Cruise, Nick Nolte) e há algumas cenas bem divertidas, gosto especialmente do Robert Downey Jr. e de Jack Black. Mas no todo, não me amarrei tanto. É curioso ver o Tom Cruise no papel do executivo escroto, todo poderoso, barrigudo e careca. O filme é politicamente incorreto, sujo, nojento. Dá pra rir em muitas cenas, mas não é um grande filme. Todos ali já fizeram coisa muito melhor.

Obrigatório

Notícias do Planalto, que acabo de emprestar a minha amiga Najara, é um grande livro. Não estou falando apenas da sua extensão, de suas mais de 700 páginas. Estou falando da qualidade de seu texto e da abrangência de suas informações. É um livro rico, detalhado, extremamente bem escrito sobre um período recente e terrível da história do Brasil. Mário Sérgio Conti, o autor, ganhou todo o meu respeito tratando com um talento tremendo a nefasta era Collor a partir da imprensa, das relações de poder, dos conflitos de bastidor. Aqui estão, de certa forma esquadrinhados, os veículos de comunicação da grande imprensa, o quarto poder brasileiro. É um painel detalhado do funcionamento desses veículos naquilo que há de intersecção com o poder. Ninguém acredita, mas li o livro duas vezes, a segunda imediatamente depois de ter terminado a primeira leitura. Adorei o texto de Conti, acho o cara um talento e desde então fico atento a tudo que ele escreve. Sei que seu livro não é uma unanimidade, muita gente acha que ele fez um livro para reescrever a história e livrar a cara dos patrões, suavizar a forte participação dos donos de veículos na ascenção de Fernando Collor. Porém, todavia, nada me tira da cabeça que se trata de um tesouro, um livro obrigatório.

domingo, 15 de março de 2009

Elefante

Não sei porque ainda dou bola para o cinema de Gus Van Sant. Minha intuição falava que "Elefante" era uma perda de tempo. A história que foca no tiroteio trágico numa escola americana foi tema de um premiado documentário de Michael Moore, "Tiros em Columbine". Não gosto do blablablá panfletário do Moore, mas "Tiros em Columbine" é um trabalho cheio de méritos. "Elefante" é um pé no saco. Os 81 minutos mais longos que já passei diante de um filme.

Caruru

Hoje me convenci de que sei fazer caruru. A receita que fazia antes trazia os ingredientes básicos: quiabo, camarão, azeite, gengibre, cebola, amendoim, castanha e sal. Fica uma delícia, Eloá mesmo adora. Mas gostei mais depois que inclui tomates, cebolinha e pimenta à receita que fiz hoje. A primeira mudança para melhor: a cor é mais escura, avermelhada e apetitosa. A cor também deve algo ao amendoim que foi incluído com casca e tudo. Segunda mudança: os tomates e o cheiro verde fazem a diferença no sabor, e como fazem.

Procuro não descaracterizar os pratos, pelo menos enquanto estou aprendendo. Depois que estou seguro posso fazer um improviso ou outro. Foi esse o caso. Um livro sobre culinária baiana do Senac ("A cozinha baiana no restaurante Senac do Pelourinho", de 1990) ensina a receita sem tomate e cebolinha. Já vi gente dizer que "não tem nada a ver" acrescentar tomate ao caruru. Esse pessoal é mais purista. Descobri que sou um impuro. As fotos que ilustram este post eu fiz agora a pouco. A mão que balança a colher é de Eloá. Agora, peço sua licença. Vou fazer uma boquinha.

O diabo a quatro

É engraçado como a gente se mete em bobagem por causa de uma bela mulher. Aconteceu comigo. Fui atrás de "O diabo a quatro", filme nacional, primeiro dirigido por Alice de Andrade. A bela mulher que me atraiu para a roubada atende pelo nome de Maria Flor, que integra o elenco. Para mim, além de bela, Maria Flor é ótima atriz que apesar do rostinho jovem, já tem bastante coisa no currículo em cinema e TV. Ela é a protagonista de "Aline", adaptação dos quadrinhos de Adão Iturrusgarai para a TV - um ótimo trabalho, voltado para o público teen, feito com graça, com engenho e inteligência. Em "O diabo a quatro", apesar de Maria Flor ser mesmo a melhor coisa do filme, tem que ter muita boa vontade para aguentar diálogos tão ruins, uma história tão imbecil, as situações mais improváveis e o Marcelo Farias de protagonista e mocinho (argh!). O longa metragem só não entra na categoria "quero meu dinheiro de volta", porque abusa de cenas da Maria Flor com pouca roupa. É o único mérito do filme.

sábado, 14 de março de 2009

Madrugada dos Mortos

Para o meu gosto suspeito (gosto de terror B), "Madrugada dos Mortos" é interessante, apesar dos (não poucos) defeitos. Fui atrás do filme depois de ver "Watchmen" do mesmo diretor, Zack Snyder. O início de "Madrugada dos Mortos", os primeiros, sei lá, vinte minutos, é excelente: sombrio, tem impacto, não perde tempo. Bem diferente do restante do filme, que perde o ritmo e não consegue se decidir por quem é o herói da trama. Sem falar na mania de querer dar um susto a cada cinco minutos. Gosto de filme do tipo claustrofóbico. Nesse, o diretor aproveita bem (poderia aproveitar melhor) os personagens presos num shopping center, enquanto lá fora há milhares de zumbis doidos por carne humana. Não me aborreci tanto até o final, apesar de entender o fato de Eloá ter achado o filme ruim. Penso que tem filmes que se valem não pelo todo, mas por partes. Esse começa tão bem, que merece alguma consideração. “Madrugada dos Mortos” é uma refilmagem. O original tem a direção do cultuado George Romero, e dizem que é muito bom. Está na lista.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Fernando Morais

Depois da ficção, volto à reportagem e a Fernando Morais. Comecei a ler seu livro "Cem quilos de ouro (e outras histórias de um repórter)", de 2003. O livro reúne reportagens publicadas na grande imprensa, todas precedidas de um certo "making of", explicando os bastidores e o contexto em que as matérias foram feitas. Começa quente: o sequestro do empresário Guilherme Affonso Ferreira, na Bahia, em 88. O valor do resgate dá nome à reportagem e ao livro: cem quilos de ouro.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Mais sobre "Asfalto..."

Não resisto e continuo um pouco mais no tema do post abaixo. Demorei um pouco com o livro "Asfalto Selvagem", de Nelson Rodrigues, porque tenho cá meus hábitos. Lia pedaços à noitinha, antes de dormir, e de manhã, antes do trabalho. Esses dias vinha dormindo mais tarde, hipnotizado pelos últimos lances da história.

Cada capítulo traz uma dinâmica, com pontos de tensão que vem e vão, e sempre, sempre termina com um gancho para a edição seguinte que vira a cabeça do leitor. Isso porque a conclusão é sempre em cima de um fato importante, crucial. Não se está falando de nenhuma novidade, óbvio. Essa é a essência do folhetim, da literatura publicada em jornal e que tem exemplos antecedentes fortes.

Não é o caso de tratar disso aqui. O que chama a atenção é que uma vez que o romance tem essa fragmentação, vira campo para Nelson fazer o diabo com seu texto e ele acaba tendo características de crônica política e policial, crítica/alusão à personalidades bem conhecidas (quantas vezes é citado o Otto Lara Resende?) e até crítica literária. Sabemos que Nelson não é flor que se cheire. Ele usa em "Asfalto..." sua munição, seu sarcasmo, seu veneno contra várias personalidades bem atuantes do Brasil à época em que o romance foi escrito. Sobra tiro até para o "gênio" Guimarães Rosa.

Há no romance um estudo de casos, com descrição de personagens com uma riqueza, com um detalhismo das reações, dos sentimentos, que é difícil ver por aí. O livro faz um desenho tão bem acabado dos personagens, visto com crueza, revirados nos seus pensamentos mais íntimos.

O juiz Odorico, cuja presença costura as duas etapas do romance, é um exemplo. O juiz é um dos perfis mais explorados da narração, com ele Nelson dá um banho de construção de personagem, pela complexidade, pela sutileza, pelo histrionismo.

Por outro lado, eu achei estranho que alguns personagens não tenham função nenhuma, zero, nos acontecimentos. Por exemplo, Engraçadinha tem três filhas e um filho homem. Duas das filhas (Arlete e Guida), do começo ao fim, não tem a menor importância para a trama. Não é estranho? Com o filho Durval e a filha mais nova, Silene, são outros quinhentos.

Dentro da ficção de "Asfalto...", os personagens também estão ali para que se fale da vida real. Os tipos servem de mote para que Nelson fale de uma série de situações, desde uso de cargo público em benefício próprio, troca de favores, extorsão, abuso de poder. Ele cita a igreja, políticos, polícia, família, tudo é alvo do olhar cru do escritor. É sobre esse pano de fundo, da realidade brasileira, que se dá todo o drama.

*

Depois de ler o livro "Asfalto Selvagem", repeti uma mania (um ritual?) que aprendi com meu irmão, que é reler as primeiras páginas ou o primeiro capítulo. Isso é bacana, porque a gente vê com outros olhos aquelas primeiras linhas, tudo passa a ter um sentido novo, diferente, maior. Nisso, não é que quase releio o livro todo de novo? Não dá, tem muita coisa que quero e preciso ler. E o tempo é curto.

Asfalto Selvagem

Terminei de ler o livro "Asfalto Selvagem", de Nelson Rodrigues. Sabemos que o agora romance nasceu em capítulos, publicado gota a gota diariamente no jornal "A Última Hora", entre 1959 e 1960. Isso explica bastante o porque de uma narrativa tão lassa, tão quebrada. A saga de Engraçadinha é fascinante. Nelson mostra um fôlego ininterrupto em mais de cinco centenas de páginas, numa leitura que pode ser atemporal. Pois é, esqueça uma citação ou outra de personagens datados como Juscelino Kubitschek e se concentre nos acontecimentos. Com alguma imaginação, poderia ser hoje.

Em primeiro plano, estão relações tumultuadas, amorosas, o desejo, o erotismo. Engraçadinha é o centro ao redor do qual tudo gira. Na primeira parte do romance, o que detona toda a ação é o investimento que ela faz para conquistar seu primo Sílvio, que depois descobrimos, é irmão dela. Na segunda parte da história, a chegada do juiz Odorico à vida de Engraçadinha é a porta aberta para ela reviver uma série de fatos do passado, cujos desdobramentos se precipitam com a chegada mais tarde de sua prima Letícia.

Detalhe: Letícia é uma mulher que gosta de mulher, lésbica. Letícia é apaixonada por Engraçadinha desde criança e retorna à vida desta para incendiar a história. O livro tem quase 600 páginas de peripécias e somos sugados para dentro dos acontecimentos, sempre com o mesmo interesse e tesão desde as primeiras linhas. Falei aqui contra os livros com muitas páginas, mas há as exceções. Ficaria feliz da vida se houvesse mais algumas centenas de páginas de "Asfalto Selvagem" pela frente.

Continua...

Watchmen

Assisti "Watchmen" ontem e achei muito bom. Tenho uma ou outra restrição, mas no geral achei o trabalho todo muito acertado, muito interessante mesmo. Estava com medo, porque vi tanta porrada no lombo do diretor Zack Snyder. Para mim que detestei seu filme anterior, "300", o quadro não se anunciava bom. Com "300", gostei de uma coisinha ou outra e morri de aborrecimento com os outros, digamos, 90% do filme (incluindo o rei Xerxes, um deformado Rodrigo Santoro). Em "Watchmen" se deu o contrário, fiquei pirado em algumas cenas e adorei o conceito todo, o clima obscuro e dark, os heróis bem escrotos e totalmente fora da ordem, o humor, o erotismo, a crítica (ok, inofensiva) ao "american way of life" e à preponderância americana no mundo.

Não acreditava em certas coisas, fiquei embasbacado com algumas cenas. Bem, eu não conhecia os quadrinhos de Alan Moore, então para mim tudo foi novidade. Fiquei, como disse Hederverton, doidinho para ler o original. Não conseguia imaginar uma história como aquela direcionada para adultos, com um visual incrível e uma trilha sonora retrô deliciosa. Nunca pensei que iria dizer isso, mas tiro o chapéu para o Snyder. Claro que o grande mérito é de quem imaginou a coisa toda, que está nos quadrinhos originais, ok, mas pouco importa uma vez que o filme teve a inteligência de se valer disso e competência para dar luz e movimento à coisa toda. Por exemplo, um personagem como o Comediante, cínico, sacana, cruel e politicamente incorreto (o cara atira numa grávida!!!) é muito bom. Imagine que esse é um dos heróis! Dá pra acreditar? Adorei.

Um dos méritos é contar a história de heróis que sofrem com problemas dos homens comuns, desde ciúmes até aquela falha na hora do sexo. E é muito legal também a cena de sexo entre o mocinho e a mocinha, mostrada sem frescura. Ora, são pessoas normais que sentem fome, sede e tesão. Por que não? Imagina isso, uma cena quente entre o Peter Parker e a Mary Jane? Huuummm, não rola. Entre Wolverine e Jean Grey? Duvido que apareça algo que eleve a classificação acima dos 13 anos. Qual produtor vai entrar nessa? Por isso, alguém tem que fazer o trabalho sujo e "Watchmen" está aí para isso, para ser adulto na temática e na abordagem, sem moralismo. O filme mostra muito sangue, muito corpo explodindo, muita porrada, que chega a doer na gente. É violentíssimo. É cru, nesse sentido, impiedoso. Mas, contraditoriamente, é também clean de uma forma que diverte. O filme diverte o tempo todo. Pelo menos, para caras sem hipocrisia e dispostos a se entregar à ficção como eu. Há muita coisa boa, surpreendente. Para mim, foram quase três horas que passaram voando.

Tudo bem, vamos às restrições. O final é bem menos digno que o resto do filme (bobo até). Os atores não são bons, funcionam e tal, mas imagino o que seria com talentos de verdade. A exceção vai para os intérpertes do Comediante e do Rorschach, que estão maravilhosos. E eles são tão importantes para a trama que compensam o restante do elenco e equilibram a balança. A história flui na tela, mas em um ponto ou outro se confunde. Não é a bagunça total que alguns críticos apontam, dá para acompanhar perfeitamente. E acho, com sinceridade, que os flashbacks, um depois do outro, não atrapalham em nada o andamento, pelo contrário, movimentam a história. Eu sempre implico com filmes que tem personagens demais, plots demais, que diluem muito a atenção do espectador e não ajudam a fixar no que importa. Mas é possível fazer isso bem. E acho que Snyder conseguiu.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Vânia

Entro em minha máquina. Volto no tempo. Se minha amiga Najara pode, eu também posso. Ainda uma notícia de Carnaval: na quinta-feira, primeiro dia aqui em Salvador, cervejinha do lado, assisti na TV ao show "Pierrot e Colombina", em que a gracinha Vânia Abreu canta ao lado do marido, Marcelo Quintanilha. (Detalhe: sempre que vejo show dela, lembro de Sérgio, que adorava a rapariga.) E esse show foi especialmente nostálgico. As canções são bonitas, nem todas são clássicos de Carnaval, mas evocam a festa. Todas cantadas em tom suave e gostoso, bom para ouvir qualquer hora do dia e qualquer época do ano. Quem vir a lista de canções, vai falar em Carnaval antigo. Os mais espertos, em Carnaval eterno. O disco traz coisas preciosas: "Manhã de Carnaval", "Camisa Amarela", "Não Deixe o Samba Morrer", "No Cordão da Saideira". E pesa a mão em se tratando de Chico: "Quando o Carnaval Chegar", "Noite dos Mascarados" e "Quem Te Viu, Quem Te Vê". Delícia.

terça-feira, 10 de março de 2009

Alice

Alice Braga é uma menina boa, talentosa. E em "Cidade Baixa", de 2005, primeiro filme dirigido pelo baiano Sérgio Machado, ela está especialmente interessante ao lado de Lázaro Ramos e Wagner Moura. Faz tempo que vi esse filme, de fotografia linda, que traz um drama amoroso (que por pouco não se torna tragédia) ao cenário das ruas da Cidade Baixa, em Salvador. Vi o filme duas vezes, a última vez em Alagoinhas. A imagem acima, de Alice Braga no filme, passa a ilustrar o blog. Este blog, eu sei, está diferente a cada dia.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Roth

Nunca li Philip Roth. Mas depois de ver "Fatal", filme baseado em seu livro "O Animal Agonizante", leio por aí que esse americano é um dos melhores escritores de seu país. Fiquei curioso.

domingo, 8 de março de 2009

Fatal

"Fatal", filme de título nada a ver (o original é "Elegy"), baseado em obra de Philip Roth é mais interessante do que eu esperava. Foi com satisfação que atravessei suas quase duas horas. Ben Kingsley é um ator de que gosto bastante e sobre o qual pouco vejo falar. Aqui, ele está muito bem, dando vida a um herói angustiado e fragilizado. Penélope Cruz, embora não seja ótima sempre, pode funcionar muito bem com a direção certa. Gosto de filmes com poucos atores e poucos recursos, desde que haja história para contar. Com esse "Elegy" há questões eróticas, questões românticas e de relacionamento em jogo, mas a velhice ou sua inevitabilidade talvez seja um ponto mais importante. Fiquei um pouco pensativo sobre o argumento de que a velhice chega devagar e quando vemos já está aí. Há a questão da perda. Durante o filme, vemos perdas importantes que ocorrem ao personagem principal que angustiam pelo inevitável. Gosto mais da segunda metade do filme, após as apresentações dos personagens. Sai de cena aspectos mais cultos, com citações diversas a artistas e obras de arte, e entra em foco aspectos mais comezinhos, mais humanos (que é o que mais importa). O filme corre tranquilo, as coisas parecem acontecer mais dentro dos personagens que fora. Aquilo que não é dito (e muitas coisas não são ditas) ajudam muito ao clima algo poético do filme. Como se fosse o espectador fosse instado a colaborar com a narrativa. É um filme triste, mas leve e agradável de ver. Mesmo que fale de coisas duras.

Doce e arde

Juntei mel e pimenta. Não acho que inventei a roda, calma. Mas para um cara meio sertanejo, com a influência culinária de minha mãe, do quase sul da Bahia, é uma união inusitada. Sabemos que há saladas com variados tipos de ingrediente e combinações, inclusive as que incluem mel. Há mais variedade de saladas no mundo que tipos de humor feminino. A inspiração de juntar duas colheres de chá de mel ao molho de pimenta veio da matéria de capa do Paladar, suplemento de gastronomia do Estadão. O suplemento fala em molho para saladas, fiz uma licença poética e trouxe a idéia para o molho de pimenta. No Paladar, há uma fala aspeada do chef Francisco Rebêlo sobre molho para saladas. Diz assim: "Um molho para ser equilibrado deve levar um ingrediente ácido, um adocicado, um picante e uma gordura. Por exemplo: vinagre, mel, mostarda e azeite". O mais inusitado talvez tenha sido usar o molho no meu almoço. Sim, fiz caruru, frango ensopado e arroz branco. Estou treinando. A mistura de arroz, frango, caruru e molho levemente doce e ardido é deliciosa. Até Eloá que não gosta de molho de pimenta caiu pra dentro.

Danay Garcia

Uma série cheia de machos desde a primeira temporada, como "Prison Break", não foi tão pródiga assim em se tratando de presença de moças belas. O que é por si só um erro. Mas sempre há tempo de se corrigir um mau passo. E a correção veio agora com a atriz cubana, Danay Garcia. Boa na tela (só eu achei que a câmera se enamorou dela?), gosto também de suas expressões e da fragilidade que transmite nas horas muitas de tensão da série. Ela é a namorada de um personagem chave dessa terceira temporada que atravesso. Aliás, essa é a temporada menos legal na comparação, depois de uma session two eletrizante. Embora eu continue ligado, o bom nível caiu, infelimente. Mas sempre há compensações. Danay, Danay, Danay...

Linha de Passe

Gosto de Walter Salles, muito. Mas não amei "Linha de Passe", seu último filme, sobre o qual trazia grande expectativa. Salles diz que seu filme é simples e pequeno. Não sei, achei o filme meio um rascunho de alguma coisa. Todo mundo sabe que Salles é documentarista de formação e todos os seus filmes têm esse olhar de realidade, de documentário mesmo (com exceção, talvez, de "Água Negra"). Desse "Linha de Passe", eu não gostei muito do filme como um todo, embora tenha gostado bastante de algumas partes. E mais ainda de alguns atores. Gosto do núcleo principal, uma família sem pai, onde cada um está atrás de alguma coisa. Os quatro filhos são jovens (bons atores, incluindo Vinícius de Oliveira, de "Central do Brasil"), um evangélico, um aspirante a jogador profissional, um motoboy e um garoto menor que quer conhecer o pai. A mãe é a Sandra Coverloni, melhor atriz em Cannes que, sorry, não me mobilizou. Fiquei mais impressionado com os filhos, especialmente o evangélico, que entra em parafuso e questiona suas escolhas. Não sei, Salles é um cara do bem, cheio de boas intenções e bons sentimentos sobre o Brasil. Seu talento para contar uma história continua (apesar de eu achar "Diários de Motocicleta" um saco). Ele traz aquela coisa de usar o mínimo a palavra, algo que está forte nesse filme. Às vezes, quando o diálogo entra, há mais palavrões que palavras normais, o que "suja" excessivamente os textos (o que é um problema de muitos nacionais esse de não saber dosar a quantidade de "porra", "merda" e "puta que pariu" dos seus filmes). Achei alguma coisa incômoda o ritmo do filme, me pareceu vazio no início e cheio no fim, corrido até. E me incomodou demais a alternância de cenas e imagens solares com outras escuras, onde mal se vê os personagens. Talvez Walter Salles tenha razão, talvez "Linha de Passe" seja mesmo um filme simples e pequeno. Mais pequeno que simples, aliás.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Fãs

Não sou tiete, nem fã. Não quero ser indelicado, mas detesto essa raça ruim de gente. Claro que gosto de determinadas personalidades pelo que dizem, pelo que fazem, pelo talento, pela integridade, pela beleza (why not?), são muitos os motivos (e alguns bem fúteis, paciência). Mas nada, absolutamente nada, me faz, nem fará, agir como um desses fãs que ficam como mosca em cima dos caras, das moçoilas e senhoras famosas. Putz, até uma foto junto eu acho desagradável. Sérgio, meu amigo, era o contrário de mim. Se tivesse oportunidade, queria foto, queria contato com todo e qualquer personagem célebre que pintasse, os que ele admirava e os "nem tanto" (e os que mais pintava eram os "nem tanto"). Tô fora. De minha parte, é o artista esnobando de lá e eu esnobando de cá. Gosto das coisas como elas são. Esses personagens fazem o que sabem fazer, de longe, e eu faço o que sei fazer, que é ficar na minha. Nesse sentido, sou mais mosca dos meus amigos. Quero estar por perto, invento motivos, almoço, encontro, barzinho, escrevo pra eles, me chateio se eles somem. As personalidades realmente importantes para mim são as pessoas próximas cujo único pecado que cometeram foi o de me cativar. Agora tão frito.